Caro amigo

Não sabia dessa história do Banco Ambrosiano e não sei, felizmente, uma do género para te contar. Vou explicar-te, em vez disso, porque é que andamos todos a passar aqui um mau bocado, nas ilhas de Cabo Verde. Não é fome, nem sede, não é uma onde assaltos, nem tampouco uma guerra ou uma crise política. É a bruma! Um fenómeno comum nesta altura do ano mas para o qual nunca estamos preparados.
A bruma seca, ou “pó di terra”, é basicamente pó. Partículas de poeira trazidas pelo vento desde o continente africano que se espalham pelas ilhas, dando a impressão de um extenso manto de nevoeiro.
Antes fosse! As partículas finas em suspensão são respiradas pelas pessoas e causam problemas de pulmões, alergias e urticária. Pelo menos isso! E depois provoca uma sensação de mal-estar ao longo de todo o dia. Salva-se o facto de a bruma, em termos visuais, não ser assim tão desagradável.
As ilhas ficam com um tom amarelado, o sol escurecido e o vento amaina. As cores são mais bonitas e a terra passa de castanho a cor de mel, como se alguém tivesse, de repente, pintado tudo a ouro. É assim dois ou três dias. Vêem-se as cores e não as partículas em suspensão, mas sabemos que as respiramos, que passamos os dias a come-las e bebe-las. Mas pronto, quando olhamos ao longe vê-se aquele nevoeiro, aquelas cores que fazem lembrar Portugal nos dias de Outono. É bonito!
Mas para que vejas que o problema não é assim tão simples devo dizer-te que a bruma seca, quando chega a sério, impede os navios de irem ao mar e os aviões de descolar ou aterrar. Foi assim esta semana, com alguns voos entre as ilhas a terem de ser cancelados e muitos barcos a ficarem nas docas.
Prejuízos, já se vê, para pescadores, para os passageiros e para as companhias aéreas. Prejuízos enfim para o país, só porque o vento se lembrou de pegar numa imensa nuvem de pó e vir com ela por aí fora, oceano dentro, “pintar” o arquipélago. E, claro, as ilhas que mais sofrem são as do grupo mais próximo do continente, como o Sal, Boavista, Maio e Santiago.
No ano passado, por esta altura, também foi tempo de bruma seca, ou brisa parda, como se lhe chama aqui. Nomes quase bucólicos para um fenómeno tão daninho, que inclusivamente prejudica a agricultura, a pouca que se faz em Cabo Verde.
Agora imaginas a quantidade de poeiras que devo ter engolido só no pouco tempo que te estive a escrever. Só de pensar apetece ir logo tomar um banho, mais um banho, com vontade de, na banheira, me virar do avesso e lavar os pulmões bem lavadinhos com um anti-bacteriano.
É por isso que a importância das coisas é muito relativa. Para mim, hoje, é muito mais importante o pó que se levanta em África do que o Vaticano ter, como o feijão-frade, duas caras.

Um abraço poluído
Fernando Peixeiro


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