Boas bocas

Caro amigo

Há cães assim. Com vidas melhores do que de muitas pessoas. Mas já não direi o mesmo dos que por aqui tenho, a maior parte com um ar lamentável, magro e triste. Tão triste! Acho que os cães da Praia andam tão abatidos que até a vontade de ladrar perderam. Se calhar sorte a deles. Assim nem apetece filar-lhes o dente.
E digo isto porque por aqui às vezes se contam histórias de restaurantes onde o dono andou durante um tempo a vender carne de cão, ou de como todos os cães vadios do Mindelo desapareceram quando esteve por lá atracado por uns tempos um barco de chineses, ou de como outro vendia gato por coelho.
Não é que o pessoal aqui não seja de boa boca. Já sabes a luta que tem sido por causa das cagarras do ilhéu raso, que todos os anos sofrem uma mortandade para satisfazer os apetites das gentes de Santo Antão, que ao que parece são os “chineses” de Cabo Verde. Porque também se conta que por ali nem os burros escapavam, honra lhes seja feita, às pessoas, um hábito ao que parece levado por um estrangeiro.
Não penses que aqui em Santiago é muito diferente. Diz-se também, que eu não vi, nem mortos nem vivos, que andam por aí umas pessoas a caçar macacos para comer. Nem mais. E também toda a gente sabe que são as gentes de Santiago os grandes causadores das mortes de tanta tartaruga, porque é na Praia que ela mais se come.
Contavam-me há dias que havia ali para os lados da Achada Grande, num ermo, uma mulher que todo o ano mantinha uma fogueira acesa e um bidão de lata cortado ao meio sempre cheio de carne de tartaruga.
É mais ou menos como aquelas casas aí em Lisboa das bifanas, que fazem bifanas 24 horas por dia, sempre na mesma frigideira, já nojenta como convém, e que lhes dá, às bifanas, aquele sabor tão especial.
A mulher das bifanas de tartaruga tinha encontrado o segredo. Segredo para ter carne de tartaruga o ano inteiro e segredo para aquele gostinho especial, dado pela lata com meses e meses de uso e aquela gordura verde e malcheirosa de tartaruga cozida e recozida. Fregueses não faltavam, incluído do governo, até as mais altas figuras do Estado terem sido alertadas. A mulher desapareceu da Achada Grande mas quer-me parecer que andará ainda por aí. Com os seus segredos e a sua lata.
Este ano, só na ilha da Boa Vista, uma em cada três tartarugas que pôs pé na areia levou uma facada. Conta quem por lá passou que são às centenas as carapaças de tartarugas em praias mais isoladas. Gostava ainda de conseguir uma foto delas para te mostrar, ainda que não sejas tu quem precisa de uma terapia de choque.
E como se isso não bastasse ainda há por cá uns restaurantes, se calhar os mesmos da tal carne de cão, ou de gato, que vendem “vaca do mar”. Não teriam um nome mais simpático para chamar à tartaruga? É que vaca, como cabra, são nomes pouco dignos quando não associados aos respectivos seres. Vaca do mar? Não ficas logo a pensar que a tartaruga é uma “Maria vai com as outras”, uma devassa, uma rameira, enfim… uma puta? É triste não é? Não deviam comer, mas se comem, ao menos que se mantenha alguma dignidade.

Um abraço

Fernando Peixeiro


1 Response to “Boas bocas”

  1. 1 Ana Santos

    “Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens.”

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