Bissau

Caro amigo

A vida tem destas coisas. Quando tu me imaginas calmamente na Cidade da Praia, entre o mar e as montanhas de Santiago, ao som de mornas e coladeiras, estou na verdade entre balantas e papeis, entre tabankas e toca-toca. Estranhos termos para Cabo Verde mas tão comuns na Guiné-Bissau.
A Guiné, caso não saibas, é um pequeno país a sul do Senegal (o tal, o verdadeiro Cabo Verde, como há tempos te dizia), com milhão e meio de habitantes, um terço na capital, Bissau.
Dos mais pobres do mundo, o terceiro, se não me engano, teve eleições legislativas no passado domingo. Foi por elas que estive, e estou ainda, na Guiné-Bissau. Mas aproveitei também, dentro do possível, para conhecer um pouco mais do que as ruas esburacadas de uma capital que já foi muito bonita, das casas gastas pelo tempo e sem luz eléctrica há mais de um ano.
“É a primeira vez que vem à Guiné?”, perguntava-me no dia da chegada uma mulher, política, que entrevistei. E quando lhe disse que sim lançou-me logo um aviso: “saia de Bissau, vá conhecer o interior, porque se ficar só na cidade vai odiar a Guiné”.
Bissau não se odeia. Mas cansa. As estradas, que já foram largas e alcatroadas, estão miseravelmente esburacadas, quando não foram transformadas em ribeiras, onde os jipes passam a custo. As casas estão todas degradadas, nenhuma vê uma gota de tinta há anos, se calhar décadas. Os esgotos são a céu aberto, partidas que estão as caleiras por onde passavam, transformados em buracos assassinos e miraculosamente pouco malcheirosos.
A degradação impera. Mas deixa ver que Bissau já foi uma cidade fantástica, bem organizada, ruas largas, às vezes com uma faixa central e duas laterais, como a Avenida da Liberdade, aí em Lisboa. E Bissau, ao contrário da Praia, tem sombras, tem árvores e tem água. E tem o barulho constante de geradores, porque é uma cidade sem energia eléctrica há mais de um ano. Consegues imaginar?
O interior, do pouco que conheci, é bem mais agradável. Quando tiver tempo vou escrever-te a contar-te um pouco mais desta Guiné. Que podia ser o que não é e que não vai ser nem em 10 anos. E é pena. Porque nestes poucos dias que levo daqui aprendi que os guineenses, tal como te dizia há tempos em relação aos cabo-verdianos, mereciam melhor. Muito melhor.

Um abraço
Fernando Peixeiro