Caro amigo

No dia em que estarás, assim o tempo o permita, repimpado a apanhar uns belos raios de sol pelas praias do sul de Portugal venho daqui, destas ilhas aparentemente pobres do Atlântico, contar-te um segredo. Descobri por cá de onde vêm os sacos de plástico. Se te disseram que são feitos de derivados do petróleo ou outra patacoada qualquer esquece. Eu vi onde eles nascem todos.
É verdade caro amigo, já há tempos que estava para te contar isto mas queria ter a certeza absoluta. Agora, depois de vários testes, e se os meus olhos não me têm andado a enganar, e eu acho que não porque nunca o fizeram até agora, garanto-te que os sacos de plástico, afinal nascem nas acácias.
Eu de facto já tinha achado estranho! Que raio! Todas as árvores têm o seu fruto, a sua utilidade, a sua madeira, mas as acácias não. A sombra é escassa, as folhas verdes estão protegidas por espinhos, a seiva não se aproveita, a casca não serve para nada, a madeira idem idem. Então para que servem as pobres árvores? Aqui em Cabo Verde descobri!
Agora, quando fores ao supermercado e carregares as compras num saco, quando fores à farmácia e te derem um saquinho com o xarope ou os comprimidos (ou seja lá o que for que vais comprar à farmácia), quando passares na rua e veres toda a gente com um saco de plástico na mão (90 por cento dos lisboetas, que me lembre, anda sempre a carregar um) já sabes de onde vêm todos.
A partir de hoje, caro amigo, também eu vou olhar com muito mais respeito para estas árvores raquíticas e às vezes feias que por aqui abundam. E sabes tu que elas dão “frutos” todo o ano? É verdade. Desde que aqui estou mal saio da cidade e é vê-las, carregadinhas de sacos de plástico coloridos, de várias marcas, de várias cores, de vários tamanhos. Saquinhos de plástico madurinhos, prontinhos a ser apanhados e depois, naturalmente exportados.
Confesso-te que ainda não assisti à apanha dos sacos, aliás, nem sabia que essa deverá ser uma das principais exportações de Cabo Verde, mas por onde quer que passe e haja acácias garanto-te que elas estão sempre carregadas. É certo que algumas, menos férteis, criam apenas um ou dois, mas outras… ah maravilhosa e fecunda natureza!… estão carregadas de sacos coloridos.
Há, parece-me a mim, dois problemas, e desde já te deixo aqui o alerta, para o caso de chegar aí a falta de sacos de plástico. Um é que deverá haver falta de mão-de-obra. Porque o governo já veio dizer que era preciso que os cabo-verdianos fizessem um esforço para livrar as árvores daquele fardo. O outro problema pareceu-me mais grave e é com profunda tristeza que to digo: aquelas belas frutinhas das acácias têm um predador! Soube-o há alguns dias, de conversa com um pastor, quando este se queixava de que as cabras lhe morriam porque comiam sacos de plástico. Parvas! Comos se não tivessem mais nada para comer!
Mas compreendi. Quando era jovem lembro-me de, nos pastos do Alentejo, me morrerem ovelhas porque comiam alfavaca. Poucas, é certo. Nem todas as ovelhas, nem todas as cabras, são estúpidas. E depois, aqui, felizmente, seria necessário um grande exército de cabras estúpidas para acabar com os frutos das acácias. E por isso, caro amigo, acredito que no futuro continuarei a ver, pendurados nas árvores deste país, sacos de plástico de supermercado, de lojas de roupa, de talho, de lavandaria, de companhias aéreas, de autarquias, de campanhas ambientais, de adubo, de comida congelada, de rações para animais, de papelaria…
Tudo enfim, caro amigo, todos os sacos que, em qualquer parte do mundo, nos facilitam a vida e nos fazem mais felizes. Benditas as acácias e o seu fruto!

Um abraço ecológico

Fernando Peixeiro


1 Response to “Benditas as acácias e os seus saquinhos”

  1. 1 Maria

    Bom descobri, através de seu artigo que os rios daqui de minha região, além de peixes, produzem e produzem muito,embalagens “pet” aquelas garrafas plásticas, que eu tb julgava serem derivadas de petróleo; então são frutos dos rios, e tb tem de todas as marcas, tranparentes, verdes, pequenas, grandes…Que pena não é mesmo? ” O homem é o unico animal que cospe na água que bebe” (Benedito Rui Barbosa - escritor brasileiro).Um abraço ecologicamente preocupada e triste!!!

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