Caro amigo

Não te respondo eu daqui com outro mistério mas é quase um aquilo que Augusto Vaz faz (fica mal… Vaz… faz… mas o homem faz, que hei de eu fazer? oops… escrever?). De folhas de milho faz escravos, de cascas de bananeira peixeiras, de pedaços de árvore tocadores de funaná, de vidros surfistas. Não, não é milagre, é paciência e jeito. Bem haja.
“Gosto de trabalhar com desperdícios, coisas recicláveis. Sou de uma família de agricultores e trago para casa material do campo, como casca de milho”. Também gosto da filosofia de Augusto, 35 anos, que encontrei um principio de tarde destes numa vila aqui de Santiago.
Foi militar, até tentou seguir essa carreira, mas o que gosta mesmo é de fazer bonequinhos, cenas do quotidiano de Cabo Verde, do seu imaginário, de episódios contadas pelos mais velhos, da História enfim.
As ferramentas são essencialmente as mãos, alguma cola, alguma tinta. E pronto, o homem sonha, a obra nasce. E nasce ali à porta de sua casa, numa esteira no chão, aquilo que por agora constitui o seu atelier.
“São todos materiais que não servem para nada”, que “podem ser prejudiciais ao ambiente” e “assim aproveito para fazer coisas melhores mais bonitas”, diz-me enquanto mostra uma lavadeira feita de folhas de milho, cabelo e tudo. Bonito.
Ela e os outros vão ficar ali, à espera dos turistas que ao fim-de-semana passam em carros a caminho do Tarrafal, porque os seus compatriotas gostam mas não compram.
O dinheiro até ajuda a pagar os estudos, porque Augusto quer formar-se em artesanato, porque já perdeu demasiado tempo a deixar o seu sonho para trás, porque o pouco dinheiro é compensado pelo muito prazer.
“Porque o que gosto mesmo é isto, fazer estas coisas”, porque em criança já fazia carrinhos de lata, para vender a outros, que não tinham o mesmo jeito.
É este o mundo e o sonho do Augusto. Rodeado de lavadeiras, peixeiras, carros de bois, mulheres a moer o milho. Já fez mais de 150 miniaturas, todas originais, peças únicas em todo o arquipélago.
E não tem dúvidas de que é aquele o seu mundo. “Desde pequeno, no ciclo, na disciplina de trabalhos manuais, tinha talento, as pessoas motivavam-me. Quero formar-me em artesanato, quero mostrar o meu trabalho”. Eu oiço o seu entusiasmo e quero também que ele se forme em artesanato, quero que mostre o seu trabalho, quero que tenha um sítio de verdade para trabalhar e não apenas aquela simples esteira, no chão da porta de casa.
Mas não desdenhemos a esteira. É dali que saem as suas criações, é nela que, especialmente aos fins-de-semana, vende a turistas a caminho do Tarrafal um boneco que já foi milho, por cinco ou 10 euros.
E é nela que Augusto Vaz está a construir, a pouco e pouco, o seu sonho. Às vezes é preciso tão pouco para construirmos os nossos sonhos, não é?

Um abraço

Fernando Peixeiro.