As tristes ribeiras da Praia

Caro amigo

Ontem dizia-me um amigo meu, a sorrir, que agora é boa altura para comer peixe porque ele está mais gordinho. Barriga cheia de tanta porcaria que as enxurradas levaram para o mar, nas primeiras águas do ano. Nestes dias que levo de Praia é da falta de consciência ambientalista, um tema recorrente, que me ocorre queixar-me outra vez. Ainda vou a secretário de Estado. Ou a primeiro-ministro.
Nas ilhas, como sabes, chove pouco. A época das chuvas vai de Agosto a Outubro, mais ou menos, e por norma chove duas ou três vezes em grandes, grandes, quantidades. A água corre montes abaixo, inunda estradas, provoca grandes derrocadas, forma ribeiros, autênticos rios, lava até as almas mais negras, e torna as cidades impraticáveis, inviáveis, principalmente as duas maiores: Praia e Mindelo.
Na Praia existem várias ribeiras, agora secas, a maior parte do ano sequíssimas, grandes buracos a rasgar a cidade, atravessados por pontes. Tristes ribeiras estas, ali plantadas um ano inteiro para encher duas ou três vezes por ano e mesmo assim durante um dia ou dois.
E no resto do ano? Perguntas tu. No resto do ano servem de lixeiras. São nove ou dez meses a acumularem-se porcarias: pneus, sacos de plástico, montes de lixo doméstico, pedaços de electrodomésticos até. E são uma óptima casa de banho para quem se quer aliviar ao ar livre, indiferente a quem passa pelas estradas que circulam ao lado.
Ao fim de tantos meses só não vê quem não quer. Não sei se a Câmara, não sei se o Governo, não sei se os cidadãos, mas alguém devia ter a iniciativa de descer por ali e fazer uma bela fogueira com a quantidade de detritos que se juntam. Mas não, a lógica é deixar acumular que as chuvas se encarregarão de levar tudo para o mar.
E levam! E o mar fica a rebentar de garrafas de vidro e de plástico, embalagens de tudo e mais alguma coisa, sapatos velhos, tampas de tachos, um garfo, colheres pequeninas de plástico, vidros partidos, metade de um CD, pilhas, maços vazios de cigarros. O que tu quiseres.
Ficarão por ali, até que as marés as levem mar adentro, ou algumas mais indigestas as devolvam às praias, elas próprias agora também pouco aconselháveis até para molhar os pés.
Vai demorar meses, anos, até que ele consiga assimilar toda aquela quantidade de tralha. E quando ele já estiver recomposto o mais certo é que receba mais um presente, quando a água que cair nas montanhas tiver pressa de regressar a casa.
Este ano, antes da época das chuvas, honra lhe seja feita, vi uma vez uma equipa, julgo que da Câmara, a limpar uma das ribeiras. É bom. Mas seria melhor ainda que os cidadãos desta terra pensassem duas vezes antes de mandarem lixo para as ribeiras. E se duas não chegassem pois que pensassem três, quatro, cinco, vinte vezes.
Quem o faz devia ser processado. Aqui ou em qualquer lugar do mundo. Os que enchem os rios e os mares de porcaria deviam de ir para a cadeia.
Mas que fazer, caro amigo? Aqui é proibido, como já te falei algumas vezes, matar tartarugas. Há três meses que se vende carne de tartaruga por todo o lado, incluindo pelo centro da capital, onde também chegam camiões carregados de tartarugas ainda vivas, para consumo. Pergunta-me, caro amigo, quantas pessoas foram multadas ou presas. A resposta é fácil: nenhuma.
Entristecem-me estas coisas. Mas sou um optimista. Eu acredito que um dia, em Cabo Verde, até quem cuspir para o chão será apontado a dedo.

Um abraço limpinho

Fernando Peixeiro


1 Response to “As tristes ribeiras da Praia”

  1. 1 ricardo

    Um dia destes ainda verei o Peixeiro a escrever sobre a lixeira que queima a céu aberto na estrada da Cidade Velha. E por falar em lixeira, ó Peixeiro, se não for no mar(ribeiras), onde poderia a autarquia empilhar as toneladas de lixo que a cidade produz todos os dias.
    Que construa um aterro decente que o problema poderá ser minimizado. Mas com tempo, com tempo…
    É que, agora, limpar as ribeiras é quase redundante. A merda vai directa, intecta, para o mar anos após ano ou vai indo, devagarinho, diariamente, na forma de cinza, com os ventos, que, na sua formatação a Leste, vai deixando a porcaria logo ali ao lado da Praia(cidade).
    Vou gostando de vos ler.

Leave a Reply





PARCEIROS