Caro amigo

Quando eu e a Carla bebíamos café há tempos numa pastelaria que já nem existe percebemos que nem um nem outro tinha um isqueiro ou fósforos para acender um cigarro. Que fizemos? Nada. Esperamos calmamente que chegasse um estrangeiro. Um senhor com ar de português sentou-se numa mesa perto e pediu um café. Tiro e queda. A seguir acendeu um cigarro! Uma das características dos cabo-verdianos é, bom para eles, a pouca apetência para os cigarros. Mas há outra muito saudável.
A outra é visível diariamente mas, provavelmente por isso mesmo, ainda não te tinha falado assim muito dela, porque já nem a vejo. É esta tendência parva que nós temos para deixar de ver aquilo que mais se nos mete olhos dentro.
Na semana passada estiveram aqui, a passar férias, duas amigas, vindas aí de Portugal, onde o Verão tardou em chegar e onde a luz dos escritórios não é assim a mais recomendável para uma bela tonalidade de pele.
Não admira, por isso, que a semana tivesse uma grande componente de praia, que por acaso é aqui ao lado de casa e que, quer a Cláudia quer a Mónica apelidaram no primeiro momento de um gigantesco ginásio.
Não sabia eu que vivia ao lado de um ginásio chamado Quebra Canela mas hoje sei-o porque elas mo mostraram. Sentadinho na toalha, basta olhar e já ficas cansado. Jogging, musculação, abdominais, flexões, bíceps, o que tu quiseres e mais tudo quanto é desporto com bola e no final, claro, natação. Havia dias, há dias, que metade da praia está a fazer ginástica, especialmente homens e cabo-verdianos, porque os estrangeiros quase sempre se limitam a arrastar-se da tolha para dentro de água e vice-versa, e umas horas depois, quando a pele já estala, para os jipes estacionados à sombra das acácias. Pelo caminho ainda são capazes de ter fumado uns cigarritos, levando com eles as pontas, um grande hábito já instalado na Europa e que nem toda a porcaria que aqui os cabo-verdianos deitam na praia faz esmorecer.
Pois se o pessoal não tem cuidado com a praia o mesmo não se pode dizer quanto ao corpo. Ficarias cansado, caro amigo, só de ver a quantidade de flexões que esta gente consegue fazer, às vezes em terreno inclinado. Cabeça para a parte mais rasa da areia, sol escaldante e meia dúzia deles ali, para baixo e para cima. Todo o tipo de ginástica que possas imaginar, desde a simples caminhada à beira mar à corrida manhãs inteiras e ao salto mortal com um pneu de camião como trampolim. E até uma estrutura de ferro, que em tempos terá servido de ponto de observação para um nadador-salvador que nunca vi, serve na maravilha para fazer elevações.
A elas foi o que mais as impressionou de Cabo Verde. Lembro-me que já te tinha falado aqui, a propósito da morte, no ano passado, da jornalista Lúcia, do salutar hábito de metade da cidade caminhar à beira mar todos os fins de tarde. Ou das pessoas que fazem ginástica à seis da manhã, na praia.
A pedido falei-te hoje dos outros que, a qualquer hora, em todos os lados e na praia, cuidam do corpo e da saúde.
Se alguém aí se põe, um belo dia de Verão, a fazer flexões à beira da água deve ser considerado tão bizarro como aqui devemos ser nós, que perdemos tempo a carregar uma tolha para a praia para apenas nos deitarmos nela, sem nos mexermos.
Por mim podes ficar descansado que aí, se algum dia formos à praia, não te farei passar essa vergonha. Agora uma bela caminhada à beira mar… acho que já me converti. As toalhas, pobrezitas, que descansem.

Um abraço um cadito saudável

Fernando Peixeiro


1 Response to “As toalhas, pobrezitas, que descansem”

  1. 1 Monica

    :-)
    espero que tenhas continuado com as nossas caminhadas depois de eu me ter ausentado!
    qdo chegares a lisboa faremos umas mais à séria. Sim pq eu “sobrevivi” aos caminhos de Santiago caro amigo… restará saber se sobreviverei ao regresso às luzes do escritório que não me trazem boas cores!!!!

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