As tartarugas dos ovos de ouro

Amigo António,

há animais de que se gosta naturalmente. Os cães, já falámos deles, são um exemplo. Mas também há outros que nos são simpáticos, como os golfinhos, os cavalos, as baleias ou as tartarugas. Em Cabo Verde chegam, no Verão, milhares de tartarugas para desovar. Os cabo-verdianos comem os ovos e matam as tartarugas. Há quem diga que a carne é boa. Isso a mim enoja-me.
Eu sei que não devia dizer-te estas coisas assim a seco, mas só o faço porque não sofres do coração. O caso das tartarugas, a mim, deixou-me perplexo, classificando-o logo no meu íntimo como um atentado ambiental dos mais vergonhosos.
Eu, que já fui ver as tartarugas desovar na Costa Rica, onde os animais são protegidos e nem se permite que os turistas usem máquinas fotográficas, fiquei estarrecido a imaginar a matança que por aqui vai, nas praias, entre Junho e Outubro.
Emanuel Oliveira, conhecido aqui por Monaya, mergulhador e defensor dos animais, disse-me há dias que neste país não há o mínimo de consciência ambiental e que se constroem casas e resorts mesmo à beira da água, o que afasta as tartarugas, e que além disso também há cada vez menos praias, porque aqui se vai buscar a areia da praia para construir casas.
Ainda por cima as tartarugas que aqui chegam pertencem à espécie Caretta caretta, ou tartaruga-comum, classificada como estando em vias de extinção.
Monaya diz-me que a caça aos animais e aos ovos não é uma questão de sobrevivência. É assim porque sempre foi assim. E imagino que deve ser um festim. As tartarugas podem fazer em cada ano seis ou sete desovas (se as deixarem), cada uma com 30 a 50 ovos, semelhantes a bolas de pingue-pongue. E imagina tu que só  na ilha da Boavista se registam entre três a cinco mil saídas de tartarugas do mar para pôr os ovos na praia em cada ano. Cada um desses bichinhos medindo até um metro de comprimento.
Esta espécie de tartaruga é como as andorinhas: volta sempre à praia onde nasceu, normalmente depois de 20 a 25 anos. Agora imagina tu os perigos por que têm de passar durante todo esse tempo para depois voltarem a “casa”e morrerem, inglória e literalmente na praia.
Segundo o ritual, chegam primeiro os machos. Ficam à volta das ilhas, dentro de água, à espera das fêmeas. Depois do acasalamento, elas nadam até à costa, depositam os ovos e voltam de novo para os machos que as esperam.
Novo acasalamento, novas postura, nova missão arriscada até à costa. Se mesmo assim sobreviverem, mesmo fazendo vários buracos na areia para despistar, como é hábito, há sempre um cabo-verdiano de vara em punho a furar a areia. E quando ela vem molhada sabe que descobriu um ninho de ovos de tartaruga. Lá se vai a postura.
Cabo Verde acolhe a terceira maior população mundial, está correcto, mundial, de tartarugas comuns. Agora pergunto eu, até quando? Com a ambição dos empreiteiros que se vê por aqui, com muito boa gente a deixar praias de pedras onde antes havia areia, com esta mania de comer as tartarugas e os ovos que elas põem, não deve ser por muito mais tempo.
E depois, meu amigo, irrita também tanta falta de visão. Muitos milhares de turistas pagariam de bom grado o que fosse preciso para verem ao vivo aquilo que os programas televisivos sobre a natureza mostram. Em Cabo Verde, em vez de protegerem os animais e lucrarem com eles, destroem o ambiente e perdem uma excelente oportunidade de ganhar dinheiro.
É assim meu amigo, o mau ambiente anda por todo o lado. E Cabo Verde ainda vai ficar na história por matar a tartaruga dos ovos de ouro.

Naturalmente, com um abraço.

Fernando Peixeiro