foto de omar camilo para lusa

Caro amigo,

demorei algum tempo a responder-te que tenho estado a pensar em quem seria o homem de bigodinho, alemão, que falaste. Tem mesmo de ser de outro país que em Cabo Verde não é costume encontrar homens de bigode. E olha… mulheres ainda menos. E barba igual, nem eles nem elas. Cabelo curto quase sempre, mais eles que elas. Há tempos conheci um que tem barba e bigode. Vasco. Músico.
Mas custei a encontrá-lo. Trocou este homem, de bigode e de barba, a casa que tinha no Mindelo, na ilha de S. Vicente, por uma que mandou fazer num vale, onde o vento, as nuvens e as sombras inspiram uma obra que já vai em nove sinfonias, dezenas de outras músicas e até uma opera.
Não achei especialmente bonito o lugar, inóspito e seco como são todos os de Cabo Verde (o correcto seria chamarem-se as ilhas DO cabo verde e não DE cabo verde, que sempre foi seco, o cabo verde era no Senegal, onde hoje fica Dakar), ainda que rodeado de algumas palmeiras e depois girassóis e um tamarindo, com uma rede na sua sombra, a convidar a prolongadas sestas.
Mas é ali que este homem, nascido em Portugal, filho de pai cabo-verdiano e mãe portuguesa, se sente feliz, dois pianos dentro de casa, sombras, montes e nuvens à volta e música dentro dele.
Claro que quer ir à Índia, ao Tibete, a lugares místicos, mas é S. Vicente que o inspira e onde vai depois regressar, para compor as suas músicas que um dia serão de todos nós.
“Quero ir. A tendência é dizer que tudo está visto e depois consumimos na televisão. A experiência tem de ser feita através da observação”, disse-me ele há tempos, afirmando que se calhar ainda este ano, embora tenha ficado com dúvidas que assim seja.
Mas não ficará a ver na televisão, nem na Internet, que Vasco Martins não é dessas modernices. Aliás, como ele conta, viveu em Paris, foi convidado para dar aulas, e está há anos isolado ali exactamente por se ter cansado das “modernices de Paris”.
É ali que tem a bruma do Monte Verde, o nascer e o por do sol, as montanhas, o deserto, as matizes dos castanhos, do céu, a natureza, as nuvens e as sombras, que o inspiram, que o fazem levitar, escrever poesia às vezes, criar sons outras, especialmente pelas manhãs.
Magro, olhos fundos e penetrantes, Vasco Martins anda por ali desde 1985, a compor, a investigar e a estudar música e ritmos. Não se arrepende de ter deixado a Europa, de ter deixado a cidade do Mindelo, a 15 minutos de carro mas também tão longe, onde as luzes, as casas e as pessoas não o deixam sentir as cores e os sons da natureza.
Tem oito sinfonias feitas, trabalha na nona, coisa trabalhosa porque a sinfonia é “um acto de fé”, onde o músico põe “o conteúdo da sua alma”.
Apaixonado por Stravinsky, Beethoven e Debussy, Wagner, Puccini ou Verdi, Vasco Martins é o único compositor de música sinfónica em Cabo Verde, com mais de 30 peças e 22 discos.
É, como tudo o que é precioso e raro, difícil de encontrar. Ou não. Quando as nuvens passarem baixo no Monte Verde e o vento assobiar entre as ramas do tamarindo, quando o sol se puser e cobrir a terra de um castanho mais intenso, quando as trevas subirem montes acima e as estrelas descerem, Vasco estará por lá. E se estiver de braços esticados não penses que está a procurar chegar-lhes. Não o interrompas. Se estiveres com atenção vais ouvir a sua música.

Um abraço

Fernando Peixeiro


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