As ruas de Santa Maria
Publicado por Fernando Peixeiro 16 Abril 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Não se está mal no Sal, não senhor, mas é da Praia que te escrevo agora, regressado de mais uma viagem pelas ilhas, que isto não há fome que não dê em fartura. Mas o Sal, com tanto guindaste, tem quase um sabor amargo. A sorte é que os turistas parecem ter palas, como os burros. Ou então são os muros altos, dos hotéis. Ou então é mesmo do sal, que lhes turva a vista.
E digo isto, caro amigo, porque me faz alguma confusão aquele turismo no Sal. Então as pessoas compram um “pack” (um pacote, mas a malta gosta muito de dar nomes ingleses às coisas) que inclui a viagem e a estadia completa. Depois aí vêm eles, de avião, até ao Sal, onde os espera um carro do respectivo hotel do “pack” e lá vão por uma estrada alcatroada até ao dito.
Ai chegados são acomodados no hotel e durante uma semana saem de lá para a praia, normalmente mesmo em frente, e da praia para o hotel, porque o “pack” é um “pack” completo. Almoçam e jantam no hotel, que se encarrega de lhes arranjar uns gajos que vão lá cantar umas musicas em crioulo, para se lembrarem que estão em Cabo Verde, metem protector de nível baixo para apanharem ao menos um escaldão, que assim sempre se vê que estiveram na praia, e uma noite vão todos em rebanho a comer num restaurante de Santa Maria, com transporte providenciado pelo hotel, que naturalmente aconselha o lugar. Já se vê.
Muitos deles voltarão a casa felizes e descansados. Não conheceram nada além dos hotéis e das pulseiras coloridas que lhes meteram nos braços, nem sequer a vila de Santa Maria, o centro urbano do Sal turístico.
Andei, por estes dias, pelas ruas de Santa Maria. E bastante porque estive sempre a trabalhar. À tardinha, pela fresca, ao anoitecer, quando depois de um dia estendido ao sol o que apetece mesmo é desentorpecer as pernas, noite dentro, antes e depois da hora de jantar. Turistas? Nem vê-los.
Uma dessas noites, só para te dar um exemplo, jantei com um amigo num restaurante simpático da vila, com esplanada virada para o mar, a 50 metros da rebentação. Quando chegámos estava um casal a jantar e depois chegou um senhor com ar abatido e ausente. Saímos cedo e eu fui para o “meu” hotel, onde ainda fui beber um café. O restaurante estava à cunha.
Imagino que nessa noite, ontem, hoje, será assim. Hotéis cheios de turistas que comem pizzas e bebem coca-cola e as ruas de Santa Maria, por sinal eternamente em obras, a ver se algum se distrai e por ali passa.
Não sei o que ganha Cabo Verde com isto. Os “packs” são pagos no local de origem. Os hotéis servem comida que importam da Europa, usam carros próprios e até têm lojas de artesanato, para que nada falte ao turista, na hora de largar a pulseirinha.
E não julgues que é os empregos. Porque os bons não me parece que sejam para os cabo-verdianos. É um negócio que só tem um ganhador, os hotéis. Porque de resto até os turistas, coitados, são uns perdedores, que de Cabo Verde não conheceram nada. Se ficarem lá nas terras deles e forem à piscina o efeito é o mesmo e sempre sai mais barato porque serão sempre, mas sempre, férias sem sal.
Um insonso abraço
Fernando Peixeiro



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