Amanhã, pelas 16 horas

Caro amigo,

compreendo essa tua indignação sobre os moços que andam aí nessas “modernices” do nacionalismo. Visto assim de longe a coisa parece-me menos surrealista e acabo a classificá-la como um “fait-diver”. É normal, a distância ajuda a amenizar as situações, os sentimentos. Se eu te disser que ando furioso com a falta de pontualidade dos cabo-verdianos também deves achar, abanando a cabeça complacente, que lá estou eu a preocupar-me com coisas pequenas.Bem… pequenas depende dos dias. Mas o mais pequeno é sempre meia horita. Desde que aqui cheguei, nem uma única vez, repito, nem uma única vez, alguma coisa começou a horas.

Creio que se houvesse cinema em Cabo Verde nem as sessões iriam começar a horas. A começar por, exemplo, pelas conferências de imprensa das reuniões do conselho de ministros. São sempre com pelo menos meia-hora de atraso. Mas se for uma conferência de imprensa de um sindicato acontece o mesmo. E julgas que as sessões parlamentares começam a horas? E um espectáculo marcado para as 21:00 começa a essa hora? Ora, ora! A essa hora ainda nem sequer metade dos espectadores chegou.
É talvez por isso que todos, mas mesmo todos (bem… menos um), os comunicados a solicitar a presença dos jornalistas dizem que determinado acontecimento será pelas, por exemplo, 16 horas. E repara que não dizem que é às 16 horas. Pelas 16 horas dá-lhes uma margem de manobra. Pelas 16 é à volta das 16. Mais ou menos. Mais coisa menos coisa. Pode haver um ligeiro atraso. É uma hora de referência mas…enfim… há sempre contratempos… Pode ser um bocadinho depois. Assim uma hora depois.
Dou-te um exemplo. A Universidade Piaget convoca uma conferência de imprensa e explica que a mesma será PELAS 18 horas. Se fosse há uns meses, eu lia e se me interessava às 18 lá estaria eu. Hoje não. Olho para a frase e que me diz aquele advérbio amigo: às 18 horas ainda só lá estão três gatos-pingados.
Como a conferência é sobre arqueologia e não sobre animais domésticos, estou eu a beber um café quando o relógio marca 18 horas. Meia-hora depois pago a conta, meto-me no carro e conduzo calmamente. Demoro mais 15 minutos a chegar ao local. E depois, imagina, espero mais 45 minutos! O advérbio exagerou. Às 18 não haveria um único gato-pingado na sala.
E sabes, meu amigo, que nunca ninguém pede desculpas pelos atrasos? É verdade! Que eu me lembre, e louvo-a por isso, a ministra da Defesa, Cristina Fontes Lima, que também é campeã dos atrasos, já uma ou duas vezes pediu desculpas. De resto… ainda hoje uma cerimónia com o capitão da selecção portuguesa de futebol, Jorge Andrade, aqui na Praia, que estava marcada para as 18 horas, começou uma hora depois. Julgas que alguém disse alguma coisa? Julgas que houve assim como que um olhar constrangido, ao menos, dos representantes do futebol de Cabo Verde? Da Câmara? Do Governo? Nada.
Mas hoje, ahah!! (sorriso sádico), o comunicado de imprensa rezava assim: “A oficialização do apadrinhamento acontece às 18h00 no Centro de Estágios”. Não pelas! Às!
Eu, que a princípio chegava 20 minutos antes da hora marcada, ou melhor, sugerida. Eu, que aprendi depois a comparecer nos locais pelo menos 20 minutos mais tarde. Eu que comecei a achar normal que toda a gente se atrase e ninguém peça desculpa. Que estabeleci cumplicidades com aquela palavrinha…
Pois é caro amigo. Hoje foi o ruir desse mundo que fui construindo.Acabou-se! Se me marcarem uma conferência para as dez da manhã apareço às três da tarde. Se me disserem que é terça vou lá na quinta. E notícias sobre o Natal faço-as na Páscoa. Sem pedir desculpa.

Um abraço e até quando me apetecer.

Fernando Peixeiro


3 Responses to “Amanhã, pelas 16 horas”

  1. 1 ricardo

    Ó Peixeiro, agora que descobri esta modernice, embora também democrática, vou lendo e comentando. Desculpa qualquer coisinha. Mas, vou apenas contar uma estória. Uma certa vez, no Poeta que bem conheces, estava eu pouco depois de chegado ás ilhas, e mandei vir um bife à portuguesa ou coisa que o valha. Pedido feito, cerveja bebida, outra cerveja bebiba e, se não me engano, ainda outra sagres pelo bucho abaixo. Uma hora depois: “Ó mestre, então e o bife??!”. Resposta do empregado, que acabei por perceber que se tratava de um ajoia de criatura: “Mas o senhor está com pressa e vem comer a um restaurante, à noite, com uma lua destas - o Poeta dá para a baia da Praia e em noite de lua cheia é qualquer coisa especial - , não está bem, quem tem pressa come em casa, aqui olha-se para a beleza da baia, conversa-se…”. Dei-lhe razão. Não fora eu estar com fome e sozinho, ter-lhe-ia deixado uma gorjeta. Mas devia, porque aprendi muito com aquele cavalheiro.

  2. 2 Maria

    Eu odeio atrasos, e sempre, sempre fui pontual…mas confesso é bem coisa de brasileiro tb deixar tudo para última hora e atrasar.
    Primeiro pedido que fiz ao maridão quando o conheci, não me deixe “esperando” por vc, eu ODEIO! Pois muito bem, até hoje qunado marcamos algo, ele sempres chega antes, e nas raríssimas vezes que atrasou, era justificavel, mas geralemnte avisa, vou atrasar…
    Pois muito bem, aqui o costume é a noiva atrasar, dizem que é chic…EU NÃO ACHO! Pois bem, quando casei, era 18:00 horas na igreja, e a 18:00 horas, lá estava eu, tudo bem que eu não sou chic, sou apenas uma mulher que gosta de pontualidade, e de respeito, quando vc atrasa, vc está desrespeitando, quem o está esperando, não importa se é uma pessoa,ou uma multidão.
    Abraço bem brasileiro (isso significa grande e afetuso).

  3. 3 Maria João Carvalho

    Pois, camaradas, a minha cultura da pontualidade há-de causar-me dissabores até ao fim da vida. É genética, mas não a herdei do meu pai, e sim do pai dele. O meu avô chegava de véspera. Eu sou assim: chego sempre antes para não fazer os outros esperar. Como devem imaginar, acabo sempre com “um ganda melão”, “enxofradíssima” devido a longas esperas em quase 20 anos de profissão.
    O meu pai, advogado, esteve sempre do lado dos que fazem esperar. A começar pela família, sempre fez esperar toda a gente. Imaginem as discussões… e os silêncios pesadíssimos… as idas aos casamentos dos amigos de família, baptizados… nunca chegávamos a tempo das esperas à porta da Igreja… o problema era quando ele era o padrinho… enfim…não me curei… continuo a chegar antes dos acontecimentos e a ter de esperar pelos oradores… acho uma falta de respeito com os jornalistas (apesar de, há muitos anos, não fazer conferências de imprensa por não gostar de jogos de cintura dos políticos…sempre fui à fonte dos acontecimentos) … por isso considero a hipótese de mobilizar os mais jovens para começarem a desaparecer antes da chegada dos desrespeitadores de horário. Será interessante ver como resolvem a questão das audiências, esses primos afastados dos suíços.
    Ah, porque os suíços, ao contrário do que se pensa, não são nada apressados nem pontuais…dizem, com toda a fleuma que: “il n’y a pas feu au lac”!

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