Albertino
Publicado por Fernando Peixeiro 19 Dezembro 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Admiro a coragem das pessoas que, não tendo sorte na vida, conseguem tirar felicidade do pouco que têm. Não sei se Albertino é um homem infeliz mas não me parece. Tem 36 anos, muitos projectos, e o prognóstico de um médico que lhe disse que, com cautela, viveria até aos 40. Talvez seja só uma previsão, disse-me ele.
Conheci o Albertino umas duas semanas antes desta conversa, sentados num muro perto da casa onde está a viver, aqui na Praia. Quando lá fui ter com ele já éramos quase amigos, depois de uns tempos antes me ter pedido boleia para ir também conhecer a ilha de Santiago, quando fazia aqui uma visita guiada a um amigo aí de Portugal.
No regresso deixei-o em casa e voltei lá uns dias depois para lhe pedir uns minutos para falarmos mais sobre o problema dele, de coração, que ele me tinha falado por alto e que desde os 10 ou 11 anos o tornou um menino frágil.
Nesse dia tive sorte e encontrei-o a chegar a casa, vindo de um curso de formação para jornalistas. Combinamos para o fim-de-semana seguinte, de manhã, o vento como de costume, nós sentados no muro, a baloiçar as pernas, e a vida do Albertino, triste como aquele sábado sem sol e de poeira pelo ar.
Albertino é de Sinagoga, na ilha de Santo Antão, onde há 25 anos os médicos, depois de muitos exames, concluíram que ele tinha um problema de coração.
Também não era difícil perceber, mesmo na altura, que qualquer coisa de anormal se passava. Cansava-se de tudo e de nada e volta e meia ficava com o corpo coberto de manchas de sangue.
Foi internado no hospital da Ribeira Grande, lá na ilha, fizeram exames, deram medicamentos, mandaram-no embora. “Ia para casa e acontecia-me novamente. As manchas de sangue, muito cansado, às vezes nem sequer conseguia andar”.
Ao fim de dois anos destas andanças lá descobriram o problema e logo a solução: o Albertino Ribeiro tinha de ir a Portugal para ser operado. Coisa fácil, porque nessa altura como hoje há um acordo entre os dois governos, o de cá paga viagens e estadia e o de aí aceita 300 doentes por ano, que não pagam nada pelos tratamentos.
Mas não foi assim. Há 25 anos que Albertino corre médicos e hospitais, que toma diariamente medicamentos caríssimos, que os pais, os dois reformados, mal têm dinheiro para pagar, e até agora nem sequer o mandaram a uma junta médica, o primeiro passo para ser levado para Portugal, para a tal operação.
“Há um ano e tal um médico disse-me que mais tarde tenho de ir a Portugal. Ficam sempre a dizer isso”.
Não sei, e ele também não sabe, se as reticências em mandá-lo aí é porque acreditam que não vale a pena.
“Na Praia disseram-me que fazer uma junta médica é devagar, custa muito dinheiro e há muita gente à espera”, contou-me ele, ar de menino, aparência frágil, enérgico nos projectos e muita fé de que tudo ainda se vai resolver.
Não acredito, e ele também não, que haja listas de espera de 25 anos. Não sei, e ele também não, se uma operação em Lisboa lhe resolveria o problema. Mas sei, e ele sabe melhor, que tem uma vida interrompida desde a infância, que nunca pode jogar à bola, correr, brincar, que nunca pode ir dançar e beber um copo com os amigos, que nunca pode comer comida com sal ou óleos, que nunca pode ter um trabalho decente e que nunca pode sequer casar e ter filhos porque o sexo também é uma actividade cansativa.
É certo que as manchas não lhe têm aparecido, mas, que triste que é, também é certo que as coisas vão piorando. “Antes ainda corria um bocadinho, agora ando mais devagar”. E depois, ora vê, disse-me isto: “Antes sentia-me bem, com 20 e tal anos. Mas aos 36 anos… às vezes tenho pena…”.
Albertino não chorou, não aparentou tristeza, quando falámos naquela manhã, sentados no muro. Só quando me disse que às vezes tem pena, olhando em frente, como se eu não estivesse ali, notei um brilho diferente nos seus olhos. E uma tristeza muito, muito profunda.
Mas logo passou. É certo que quando fala, se calhar inconscientemente, leva muitas vezes a mão ao coração. Mas está a adorar o curso, quer fazer jornalismo e gosta de trabalhar com fotografias. Isso não me disse nessa manhã, telefonou-me dois dias depois para me contar, assim, simplesmente: esqueci-me de te dizer que gosto de trabalhar com fotografias.
Albertino tem esperança de que o curso lhe dê um emprego quando regressar a Santo Antão. Mas não sabe. Presentes estão sempre as palavras do tal médico: “Se quiser viver até aos 40 anos tenho de ter uma vida normal”. E depois, Albertino? Baloiçando as pernas, sentado no muro, parece olhar para muito longe, para Santo Antão, para a vida que passou ou para os quatro anos que lhe faltam para os 40. “Depois… não sei… talvez seja só uma previsão”.
Um abraço
Fernando Peixeiro
PS: Quebrei a promessa de não falar de coisas tristes até ao Natal. Mas mais triste seria não te falar do Albertino.



Obrigada amigo por me ires lembrando como tenho uma vida boa. E que as minhas dificuldades são tão pouco, se calhar até mesquinhas.
Por razões diferentes, senti-me perto do Albertino.
Cada vez mais aproveito as coisas que tenho na vida. E tenho tantas. E isso dá-me força para continuar a lutar por mais e melhor.