Caro amigo

Outros tempos. Hoje, na verdade, já não sabemos viver sem eles. Foi pelo telemóvel que ontem, falei com uma amiga, para me ajudar a ir ao médico, foi para o telemóvel que o Ricardo, de Viseu, me ligou a pedir-me para “não facilitar” e ir imediatamente ao hospital. Nos telemóveis como em tudo na vida às vezes há exageros, é certo. Mas não digo mais nada porque tenho “o rabo entalado”.
Tenho-o porque sou também um exagerado. Um casamento aqui, no meio do campo, não é exactamente a mesma coisa que um casamento aí no meio do campo. Em Portugal é raro acontecer mas seria até saudável, entre as árvores, se calhar no meio de um prado verdejante e ao lado de um regato. Aqui não. No campo significa no meio do pó, sem árvores e com o calor a bater desde manhã cedo nos tachos da comida, na água e na carne.
Para os cabo-verdianos é naturalmente saudável, para estrangeiros pode ser mortífero. Um estrangeiro que venha passar férias a Cabo Verde e que saia do ambiente acético dos hotéis deverá ter o máximo cuidado. Conheço casos de pessoas que foram parar ao hospital porque beberam uma coca-cola com gelo. O problema, obviamente, não foi a coca-cola. Simplesmente é porque não estamos preparados, é porque o nosso organismo não tem defesas para as bactérias que por aí andam.
Eu, como já estou por aqui há seis meses, devo ter pensado que já me tinha imunizado. Erro meu. Nem foram precisos dois dias para sentir na pele o quanto estava errado. Primeiro febre, tanta que nem me recordo bem em que circunstâncias te escrevi da última vez, depois vómitos, diarreia, cólicas e tudo e tudo e tudo. E a Arlinda, coitada, vendo que desta vez o caso era mais sério, andava por aqui à minha volta, sem saber o que fazer.
Uma dose única de um antibiótico fortíssimo terá, aparentemente, resolvido o problema. Em Cabo Verde, devo dizer-te, o sistema de Saúde funciona muito satisfatoriamente, eu diria mesmo que só não funciona melhor por falta de material médico, muito dele caríssimo, que muitas vezes o país não tem condições para comprar. Mas a verdade é que não há um único concelho neste país que não tenha um posto de saúde. E o governo quer abrir mais, ao contrário de outros governos de outros países, que querem fechar os que têm.
Por isso, meu amigo, foi falhada esta minha tentativa de me tornar um pouco mais cabo-verdiano. Ainda não estou preparado, dirás tu. E eu concordo contigo. Por isso, no dia em que já me sinto melhor mas ainda incapaz de atravessar uma rua a correr, te deixo aqui uma promessa: até ir de férias não haverá mais festas e alimentação só a que é feita em casa. Também só faltam três semanas!

Um cauteloso abraço

Fernando Peixeiro


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