Aguinha santa
Publicado por Fernando Peixeiro 8 Janeiro 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Ao fim de mais de três horas de avião para sul as nuvens que te vão acompanhando dão lugar a uma mancha castanha. Adivinhas que estás a chegar a Cabo Verde porque o pico da ilha do Fogo surge a furar esse manto. Olhas pela janela e lembras-te do dia, do fim de Novembro, que estavas lá. E pensas que se não fossem os instrumentos automáticos do aparelho o piloto estava bem tramado para encontrar a Praia, no meio de tanto pó.
É assim caro amigo. Cabo Verde, como de costume, atrai mais as nuvens de pó do deserto continental e menos as nuvens. E quando o avião desce o suficiente para veres Santiago e depois a Praia é a costumeira paisagem castanha que te dá as boas vindas, farta de tanta poeira e doente por uma boa dose de nuvens a sério.
Por aqui, além do ano, nada parece ter mudado. O pó castanho deve preservar estas ilhas e os seus habitantes, como o gelo também o faz, onde o há. No aeroporto a mesma fila de táxis e as mesmas caras, ávidas de um cliente, mal saímos à porta.
Que não, que não preciso de táxi porque tenho o carro mesmo ali. E o taxista não se acanha. No momento seguinte já não é o homem do volante mas sim um eficiente carregador de malas, trepando escada acima com o peso todo, e eu, atrás, conformado, encolhendo os ombros, procurando onde raio estará o jipe, inconfundível com a sua cor que uns dias me parece verde e outros azul.
Hoje, ao lusco-fusco, parecia mais baço. Mas o resto estava igual. Não consegui deixar de sorrir quando, na avenida do aeroporto, o carro que circulava à minha frente parou sem aviso prévio, o mesmo é dizer sem fazer sinal de piscas. E na rotunda que divide o trânsito entre a Avenida Cidade de Lisboa, a marginal e a Prainha a confusão do costume, com os usuais espertos a meterem-se numa faixa que sabem que não tem saída só para te passarem uns lugares à frente.
Acendo um cigarro e o rádio. Os anúncios do costume àquela hora. Os óbitos, uma pessoa que perdeu o passaporte. E depois umas coladeiras para animar. Na rua há os desportistas quase noctívagos, a correr nas bermas, os que fazem exercícios numa barra à beira da estrada, crianças sentadas em muros e montes de areia, soprada do mar da Gambôa pelo vente leste.
Agora que te escrevo recordo há dois dias, quando choveu o dia inteiro no Alentejo. Aquela “aguinha santa”, como os entendidos dizem, porque de tão subtil que cai “fica toda na terra”. Recordo o coaxar dos sapos, “a adivinhar (mais) chuva”, a terra empapada, farta de água, o lodaçal em que se transforma a estrada para a minha casa, o barulho dos regatos e da ribeira, o musgo nos sobreiros junto ao chão e os limos das pedras escorregadias e sempre molhadas.
Recordo sem saudade. Não estou, não penses, para aqui a carpir-me de ter deixado esses momentos, essa terra que respira vida. Estou apenas a lamentar. No ano passado, que eu me lembre, choveu duas vezes aqui em Cabo Verde.
Que bom que era que em vez desta mancha castanha tivesse sido, ontem à tarde, um belo manto de nuvens. E já agora que fosse também uma “aguinha santa”, daquela que fica toda na terra.
E hei de lamentar sempre, cada vez que chegar aqui, que a natureza teime em oferecer pó a este país, afinal aquilo que ele tem de sobra.
Um cabo-verdiano abraço
Fernando Peixeiro



Amigo,
Que saudades que me deu do Alentejo… do teu Alentejo Fernando… do sorriso da tua mãe e dos abraços fortes do teu pai… da horta em frente à casa… dos porcos lá bem ao fundo e pelo caminho as ovelhas… ao lado o pormar e o poço… das laranjas… do canito sempre a saltar à nossa volta e à volta das coitadas das galinhas… que saudades do teu Alentejo amigo e de ti.
beijos daqui para aí