Caro amigo,
fixo-me na última parte da tua carta para te dizer que as férias, coitadas, estão de resto. Para a semana, a próxima carta, se tudo correr como previsto, já será enviada de Cabo Verde, agora sim, pelo que me contam de lá, verdadeiramente verde. Disseram-me alguns cabo-verdianos que até já estão fartos de chuva, imagina.
Te contarei, prometo, o que de novo por lá encontrar, assim eu consiga acordar os meus dois neurónios, que todos os anos, nas férias, decidem hibernar. É culpa deles que tenha escrito pouco estes últimos tempos, que mal ouviram a palavra mágica e lá se enroscaram como um ouriço, sem ponta por onde lhes pegar.
Digo-te agora, que um já está com um olho meio aberto e focinho à espreita, que regresso segunda-feira à Praia, depois de uns tempos de preguiça, entre Lisboa e o Alentejo, entre festas e noites serenas, inspeccionando o que de melhor os canais de televisão generalistas vão dando às pessoas e, confesso, às vezes com saudades da “minha” RTC.
Porque somos todos um pouco assim admito que algum dia destes, lá onde faz sempre calor, me entre alguma nostalgia dos entardecer no Sul, quando a passarada se recolhe e fica assim aquele silêncio, antes dos ralos (sabes o que são? uma espécie de grilo mas mais feio mas que canta só à noite?) começarem a cantilena e os mochos, corujas e rouxinóis entrarem na azáfama.
Ou mesmo de Lisboa, claro, das pessoas e dos lugares, dos pasteis de nata do Baloiço ou dos bifes da Sete Mares, da comida japonesa, da FNAC e do Bairro Alto. Nada disso tenho lá onde faz sempre calor, onde posso ir à praia todos os dias e não preciso de mais do que uma t-shirt mesmo à noite, onde os bifes de atum fresco são os melhores e se tem ainda tempo para quase tudo.
Prometo, pois, ser mais prolixo e contar-te de essas e outras coisas, assim consiga acordar os meus ouricinhos. Da tua parte espero cartas com boas notícias. Não me fales das taxas de juro sempre a subir, dos assaltos, do preço da gasolina, da confusão que foi a nossa participação nos jogos olímpicos de Pequim. Nas ilhas, com o tempo, vou esquecer-me delas. Agora que eles estão prestes a acordar terão, por certo, outras coisas com que se entreter.

Um calmo abraço

Fernando Peixeiro


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