Acordos e guerras na Prainha

Caro amigo

Disse-te que estou cansado de cartas que escorrem sangue e pedi-te para falarmos de passarinhos. Tu na resposta voltaste a deixar-me deprimido mas eu, espero, vou deixar-te mais bem disposto. Não te falarei de passarinhos mas sim de formigas, baratas, aranhas e ratos. Eu sei que não são passarinhos mas posso assegurar-te que pelo menos estas baratas voam.
É com esses animais que eu convivo, mais ou menos harmoniosamente, aqui em casa. Fazemos assim: eles evitam chatear-me muito e eu fecho os olhos à sua presença. É uma espécie de acordo de cavalheiros que, confesso-te, corre mal para o lado deles quando quebram as regras.
Dou-te um exemplo. Convivi lindamente com um rato durante duas semanas. Ele andava lá pela cozinha quando eu não estava, ou estava distraído, roía-me umas coisas e deixava-me umas caganitas pelo chão. Tudo bem. Mas um dia, azar, lembrou-se de ir para o meu quarto e começar a roer qualquer coisa atrás do roupeiro. Pior, às sete da manhã de um sábado. Olha… tive de o matar.
Na semana passada tive outro. Simpático, pequenino e “vivaço”. Chamámos-lhe Francisco. Mas o Francisco começou logo mal. Ao fim do segundo dia já me tinha deixado umas caganitas encima do açucareiro. Olha… meti-o no carro e fui deixá-lo a meio caminho entre a Cidade Velha e Porto Mosquito. Confesso que senti alguma pena quando o larguei e ele ficou por ali uns minutinhos antes de dar três pinotes e se enfiar pelos pastos.
Com as formigas passa-se mais ou menos o mesmo. Elas sabem que podem andar pela cozinha desde que discretamente. Na cozinha funciona uma espécie de tirania: mais de três ou quatro juntas já é considerado uma manifestação. E eu reprimo as manifestações com insecticida.
Já com as baratas é diferente. Além de um convívio mais duradouro há menos paciência entre nós. Na verdade acho que elas têm nojo de mim. Quando por exemplo entro na cozinha e andam por lá a primeira coisa que fazem é fugir a esconder-se. Eu finjo que não dou por elas. Mas quando às vezes, uma ou outra, num acesso de raiva, em vez de fugir investe contra mim eu… olha… mato-a.
Finalmente as aranhas. Com as aranhas funciono mais ou menos como com os mosquitos. Prefiro que sejam eles que não dêem por mim. Com os mosquitos às vezes é impossível a sã convivência e, confesso-te, há alturas em chegamos a vias de facto. Quase sempre ganho eu, com a ajuda do insecticida quando já não há diálogo possível. Mas as aranhas são mais matreiras e furtivas. Atacam-me pela calada da noite, quando estou a dormir. Esta semana surpreendi uma a passear-se pela minha cara. Ainda não percebi se gostam de mim ou, como as baratas, me odeiam.
E isto tudo para concluir, caro amigo, que estou farto de amores não correspondidos, ódios declarados, jogos de homem e de rato, guerras de insecticidas, acordos tácitos que não são cumpridos e acrobacias aéreas sem autorização. Vou mudar de casa.

Um abraço

Fernando Peixeiro


1 Response to “Acordos e guerras na Prainha”

  1. 1 ricardo

    Naturalmente que percebo a parcimónia com que o Peixeiro trata as animálias com que está obrigado a conviver. Passei três anos naquele especioso zoológico e, no fim de todas as parcelas somadas, jamais me foi possível dizer que tinha ganho uma guerra que fosse, excepto se se contabilizar que eu sobrevivi, prova disso mesmo é que estou aqui a escrevinhar esta prosa, e, se bem me lembro, pelo caminho ficaram uns milhares de baratas, uns milhões de mosquitos, formigas não as matava, nem aranhas, mas ratos, os tais pequenos e vivaços, só de uma vez, com um tubo de cola enfiado em dois ou três pedaços de cartão, eu, a Arlinda e o Eduardo, que aos quatro anos já era um especialista em desratizações e desbaratizações, despachamos uns 12. Foi um fartote, mas já não havia pachorra para tanto barulho ao longo da noite. A coisa chegava ao ponto de os maltrapilhos estarem especados algures à espera que a mala saisse para ir, de um salto bem aviado, despachar uns restos de migalhas que ficavam pelas imediações. Curioso era ver uma pessoa que eu cá sei mas não digo o nome, a trepar para cima da cadeira quando um vivaço aparecia e o Eduardo, corria logo para a cozinha em busca da vassoura. Risadas. Mas o pior foi quando, nos bons tempos em que ainda havia TV Cabo lá em casa, a National Geographic dizia, assim, sem mais nem menos, que um tipo vulgar engolia, em média, 10 aranhas enquanto dormia, ao longo da vida. Eu devo ter dado cabo desta média apenas em três anos. Claro que a malta não se sente bem a matar os tais vivaços de cara simpática. Não resisto a contar isto: uma altura houve em que a casa, agora do Peixeiro, por pouco temo, já se encherga, estava toda ela repleta de uma espécie de vias únicas erguidas com recurso a cadeiras deitadas, cartões, etc etc, em direcção à porta aberta da rua, e, depois, com tachos a bater, lá se dirigiam os tipos para a rua. A coisa funcionava. E assim umas dezenas sairam. O problema foi quando se descobriu, a custo, com pesada factura, que por via aérea e em sentido contrário, a mosquitada se instalava onde melhor se sentia. Nos quartos. Noites desgraçadas.

    Boas mudanças, camarada Peixeiro!

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