Achada Baleia, três da manhã
3 comentários Publicado por Fernando Peixeiro 9 Julho 2008 em Cabo Verde.
Caro amigo
Não sabemos nós, claro, o que se passa na terra ou no mar que o avião em que viajamos sobrevoa. De dia vêem-se contornos, às vezes casas e estradas se o aparelho voa baixinho, como o tal crocodilo russo. De noite são apenas as luzinhas que nos prendem, se prendem, à janela. Há três dias, quem viajava da Praia para Lisboa no avião da TAP e se estivesse atento e viajasse do lado esquerdo, poderia talvez ver por breves instantes uma luz no meio de coisa nenhuma, escassos minutos depois de levantar voo. Poderia ser um barco, as luzes de uma casa, porque para farol de carro eram muito ténues. Não imaginaria que naquele momento cinco malucos andavam rebolados na areia, quase às três da manhã.
Lembrei-me quando vi passar o avião que lá encima ninguém lhe passaria pela cabeça que, àquela hora, cinco pessoas, húmidas, sujas e felizes, estariam ali a olhar para o ar. E achei que quando for de férias a Portugal, e apanhar o mesmo avião, vou pensar que alguém estará por ali, pelas praias da ilha de Santiago, tão feliz como eu estava naquela noite. E vou, naturalmente, lembrar-me dessa noite.
O que me levou ali, à praia de Achada Baleia, às três da manhã, começou uns dias antes, quando combinei com o Nuno que domingo à noite iria acompanhá-lo na vigilância das praias para tentar impedir a morte de tartarugas, coisa de que já aqui te falei e que me incomoda, digamos, bué (o meu dicionário ainda dá a palavra como um erro).
Aproveitava o facto de estarem cá dois amigos, a Vera e o Miguel, que se não sentiam o mesmo incómodo tinham o mesmo entusiasmo um pouco estranho em ir passar uma noite ao relento numa praia isolada da maior ilha de Cabo Verde.
E na noite de domingo pois lá fomos, eles, Vera e Miguel convencidos de que sim senhor, iríamos encontrar alguma tartaruga marinha, eu mais cauteloso, que já era repetente na experiência, da qual guardei apenas a espuma do mar a brilhar com a luz das estrelas.
E a noite pareceu pender para o meu lado quando nem sequer encontrámos o Nuno, professor da Universidade do Algarve que dirige aqui um projecto de defesa das tartarugas. Depois de corrermos uma praia de ponta a ponta regressávamos já ao carro para voltar a casa quando a mulher do Nuno, Geisa, acendeu uma luzinha de esperança ao ver um ponto luminoso muito ao longe e disse: aquela parece a lanterna do Nuno.
Era. Com o António, cabo-verdiano, hoje um defensor dos animais também, regressavam de uma vigilância a uma praia onde acabaríamos mais tarde por ir todos parar, Achada Baleia.
Noite escura, sem lua, mar calmo, humidade e nenhum frio. Ficámos todos sentados mais de meia hora, pela areia, depois de termos andado de lanterna em punho, e de tartarugas nada. A Vera começou a ter frio e o Miguel queixava-se de dores nas costas.
Nada de grave. Porque tudo passou quando o António foi dar uma volta pela praia e regressou com a notícia: uma tartaruga tinha saído da água e estava a fazer o ninho.
Depois, olha, nem demos pelo tempo passar. Arrastamo-nos pela areia e ficámos o mais perto que podíamos, em silêncio, a adivinhar primeiro e depois a ver (com uma luz de lanterna muito fraca) a abertura do buraco na areia com as patas de trás, e depois a postura. Ficámos ali, maravilhados, a ver a tartaruga a agitar-se de cada vez que punha mais um ovo, bolas de bilhar de aspecto macio e brilhante, cinquenta mais ou menos.
E seguimos por ali, agora com quase holofotes apontados ao pobre bicho, a ver como tapava com areia o buraco, como disfarçava o lugar do ninho, como dava meia volta de regresso ao mar.
Mal sabia ela que ainda tinha de pagar tanto estrelato, tantas fotografias e tantos filmes. Imagino como se deve ter sentido confusa quando o António lhe tapou os olhos com as mãos e o Nuno lhe saltou encima, a mediu, a marcou e lhe tentou tirar um pouco de sangue. Estrebuchou, encolheu-se, agitou as patas, e só a meio caminho da água, por certo cansada, parou uns segundos para a “foto de família”. Eram quatro da manhã quando tudo terminou e ela voltou para o aconchego do mar. Voltará por certo por estes dias para deixar num buraco na areia mais 50, 100, 150 bolas de bilhar.
Por certo nós não iremos lá estar. E espero que os outros, os que também andam pelas praias mas para as matar e comer, também não. Se tiver sorte pode ser que para o ano, e durante muitos anos, regresse ali a deixar mais ovos. E que mar dentro, daqui por 50 dias, já nadem as crias que domingo deixou com tanto esforço na praia de Achada Baleia. Eu ainda gostava de a ver de novo porque o espectáculo, caro amigo, merece ser repetido. Se tiver sorte. Por certo.
Um abraço
Fernando Peixeiro


tchiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii… estou a ver que tenho de ir aí outra vez!!!
primeiro chuvas e agora a desova das tartarugas?!?!?!?! os teus amigos que se seguiram a nós foram na “época alta”
bjssssssssssssssssss
Peixe, eu tinha-te dito, a caminho da aventura nocturna, que a tartaruga ia lá estar porque eu tinha ligado para o 238 TARTARUGA a encomendar uma com ovos e vontade de os pôr. Tu é que estavas com dúvidas do serviço por não o conheceres e por terem sido dois turistas a darem-te conhecimento dele.
Abraços
fernando,
saudações atlânticas, caríssimo.
tomei a liberdade, aqui:
http://setevidascomoosgatos.blogs.sapo.pt/1666034.html
abraço do
Rui Vasco Neto