A vida de Omar
Publicado por Fernando Peixeiro 19 Março 2007 em Cabo Verde.Companheiro,
Não passei o domingo estiraçado, nem sequer ao sol, porque o vento levanta a areia miudinha e não dá grandes vontades de estender uma tolha à beira mar. Passei-o à sombra, à volta de uma mesa, a ouvir contar histórias de São Tomé, do Estado Novo, de Cabo Verde, de África.
Mas a propósito da tua carta a falar de Isidro C., não é de são tomenses ou cabo-verdianos que te vou falar agora, nem tão pouco africanos. Aqui, da capital de Cabo Verde, quero apresentar-te Omar Camilo, cubano, realizador de cinema, fotógrafo, ou melhor, alguém que tira fotografias, como ele gosta de dizer, e grande contador de histórias.
Omar foi o meu primeiro amigo aqui em Cabo Verde. Foi-o a partir do primeiro fim-de-semana que aqui passei, no momento em que me telefonou a querer saber o que estava a fazer, como me estava a sentir e se queria ir ter a casa dele, porque ele, disse-me na altura, também sabe como é chegar a um país novo e não conhecer ninguém. E a solidão, quando não é algo que se quer, pode ser como o vento que levanta a areia miudinha, não mata mas mói.
Omar vive em Cabo Verde há cinco anos. Realizador de cinema, artista em Cuba, teve um convite para vir para Cabo Verde. Perguntou onde raio ficava esse país e que língua se falava. E quando lhe disseram que era o português não pensou duas vezes.
Mas não foram fáceis estes cinco anos, a começar por ver que as promessas que lhe fizeram ainda em Cuba não foram cumpridas. Deixou um filho em Havana, passou mal e chegou a viver em casa de amigos. Depois casou com Nair, cabo-verdiana, foi aos poucos endireitando a vida e hoje, da sua casa no Palmarejo, um bairro da parte oeste da Cidade da Praia, já faz planos para voltar à sua Cuba, um dia destes.
Ainda na semana passada Omar teve uma colecção de fotos suas expostas na Câmara da Praia e a sua cabeça fervilha de ideias e projectos, por norma muito facilmente transpostos em palavras.
Omar não se cala um segundo. E a propósito de tudo tem uma história para contar, vivida em Havana, onde nasceu já lá vão 42 anos, ou em Cabo Verde, a terra que adoptou como sua quando conheceu Nair.
Conta-as com piada, sem pausas, quase como se fossem anedotas, num espanhol perfeito, porque nestes cinco anos nunca aprendeu crioulo ou sequer o português.
Rio-me quando o imagino, de cabelo comprido, a partilhar uma casa com dois amigos homossexuais, quando na verdade dos três era ele quem tinha um ar mais “estranho”. E Omar ri-se também a contar as peripécias desses tempos.
E depois conta como ficou sem parte de um orelha numa desaguisado qualquer ou a história de um assalto frustrado por parte de um temido bandido de Havana, que ele meteu num hospital e com quem acabou depois por ter uma relação de respeito.
Volto a rir-me quando me conta, com pormenores, o “duelo” que teve com a sua própria sombra, um dia ainda na capital de Cuba. E rimo-nos todos com as anedotas sobre Fidel Castro, ou com as histórias, algumas tristes, pelas quais tem passado ao longo da vida.
Ao contrário do “teu” Isidro, Omar não conta como reais histórias do mar que tinha mais peixe que água nem da raposa de sete léguas. Mas imagino que os dois, em certo sentido, sejam parecidos. Com factos reais ou inventados têm aquela capacidade de nos prender com cada palavra, de colorir o seu mundo antes de fazer dele também o nosso mundo.
E, caro António, neste caso eu fico a ganhar. Porque tu não conheces pessoalmente Isidro C. e Omar é meu amigo.
Fernando Peixeiro


