Caro amigo,

lembras-me com a tua carta outra grande mulher de Cabo Verde. Fugiu da miséria na serra da Malagueta, fugiu do regime colonial, fugiu da tirania portuguesa em S. Tomé e criou a primeira associação de mulheres do país. Foi homenageada duas vezes pelo Estado, é voluntária da Cruz Vermelha e participa num grupo de batuque que vai editar um CD. É cega desde a adolescência.
Já te tinha até falado, assim por alto, de Isadora Correia. Tem 77 anos e vive numa casa simples na Cidade da Praia, sem muito recheio, para que não ande a tropeçar em inutilidades, mas a transbordar de alegria.
Isadora, desde sempre Nnha (sinónimo de senhora) Balila, é das pessoas mais alegres que já conheci. Encheu-se de alegria quando lhe telefonei a pedir-lhe para nos encontrarmos e contou-me a história da vida dela entre sorrisos, risos, gargalhadas e frases que me deixaram a pensar. E quando a deixei tive de lhe prometer que havia de lá voltar, para conversarmos mais um bocadinho.
Balila vive sozinha. Talvez por isso se entretenha a ligar para tudo quanto é programa de rádio que permite a participação de ouvintes. E em Santiago não há ninguém que a não conheça: os mais novos pela sua prestação radiofónica e os mais velhos porque não esquecem o protagonismo que teve na luta a favor da independência.
Isadora nasceu na Serra da Malagueta, no interior do país, onde a água apenas se encontra no fundo de desfiladeiros e onde as torneiras eram na altura um objecto desconhecido. Contou-me que já não via quando tinha de ir buscar água, atada por uma corda, a um desses buracos. Conta-me que subia com uma vasilha à cabeça, tacteando com os pés as saliências rochosas, muito devagar para não cair e não derramar a água, qual das duas coisas pior.
Uma vida difícil. Tão difícil que desde cedo procurou algo melhor em S.Tomé, nas roças do café e do cacau, porque o seu analfabetismo não lhe dava para mais.
Mas lá a coisa também não foi fácil. Vivia-se nesses tempos de S. Tomé, um autêntica escravatura. Balila tem marcas no corpo, de chicote e de catanas, mas mesmo assim fez duas safras. E só não fez mais porque à terceira perceberam que ela não via quase nada e não a deixaram embarcar.
Não esmoreceu Nha Balila. E depois em S. Tomé já tinha visto de tudo, incluindo os corpos massacrados de roceiros no massacre de Batepá, em 1953.
Em Cabo Verde, já cega, dedicou-se à luta pela independência do país. Saía de casa, noite dentro, e promovia reuniões de esclarecimento. Debaixo da cama guardava panfletos contra o colonialismo, mesmo quando as autoridades a avisavam para se deixar de políticas.
Mas não podia. Estava-lhe no sangue. Ainda nova, contou-me, trabalhou para um morgado que só aparecia com um guarda para fazer a colheita.
Numa dessas vezes o tal morgado dividiu a colheita ao meio, metade para ele e metade para os trabalhadores, e depois tirou mais um quinto dos trabalhadores dizendo que era o dízimo.
“Corri a ele e ao guarda com pedras. Fizeram queixa ao meu pai e o morgado apresentou queixa na polícia”, contou-me.
Nasceu assim, garante-me essa mulher que gosta de tocar nas pessoas, a maneira de as ver. Revoltou-se contra a descriminação em Cabo Verde, quando se morria de fome no país, já vai para 50 anos, e mal teve oportunidade formou um grupo para a independência, parece que dos primeiros nas ilhas.
Uma mulher tesa esta Isadora! Justa, honesta, sofrida, sábia e alegre. E ainda que sendo do PAICV, partido no poder e que geriu os destinos do país durante muito tempo como partido único, tem a seguinte ideia sobre o assunto: “Um partido único com 15 anos, se não fica coxo anda de muletas. Tem de haver mais de um partido. Sem luta não pode haver liberdade, sem liberdade não pode haver independência, sem independência não pode haver democracia”.
Emocionou-me conversar com esta mulher. Analfabeta e cega. Às vezes penso nela e onde poderia ter chegado se tivesse estudado e fosse poupada ao problema físico que lhe tolheu os movimentos a vida quase toda. Um dia destes tenho de voltar a casa de Nha Balila.

Um abraço sem sacrifícios

Fernando Peixeiro


1 Response to “A verdadeira história de Isadora Correia”

  1. 1 Eugénia

    Bela, a história de Nha Balila.
    Fernando, dá-lhe um beijo meu, de uma desconhecida, aqui em Portugal.
    Gena

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