A ver navios
Publicado por Fernando Peixeiro 7 Maio 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Andas tu muito calado por aí. Se fosses uma criança diria que, com tanto silêncio “ou já a fizeste ou estás para a fazer”. Asneira, claro está. E por falar em asneira… sabes que ontem foi mais um barquito ao fundo, aqui no arquipélago? Dramático! Afundam mais rápido do que num jogo da batalha naval!
É que há um mês um dos barcos que aqui fazia a ligação entre as ilhas, o Barlavento, afundou ali para os lados da Brava, depois de ter encalhado. Salvaram toda a gente mas o barco e a carga descansam agora entre peixinhos.
Quem se lixou foi o povo da ilha do Maio, que sem avião lhe valia o Barlavento. Agora, se queres ir Maio vais de barco de pesca, que leva uma vintena de pessoas e carga nem por isso. Valeu-lhe também o Musteru, que ainda há poucos dias abasteceu a ilha de alimentos e de materiais de construção.
O Musteru servia principalmente as ilhas da Brava e do Fogo. Era para onde ia anteontem à noite quando, por volta das cinco da manhã, devido ao mau tempo, a carga deslizou e pôs o barco a andar de lado, como os caranguejos.
O capitão resolveu fazer meia volta e regressar à Praia mas pela manhã ainda estava um pouco longe. À vista de Santiago, perto de Porto Mosquito, mas ainda a alguns quilómetros da Praia. E foi por essa altura, pelas nove da manhã, que o Musteru não aguentou mais. Tanta inclinação foi ela que começou a meter água. E quando começou foi só preciso menos de meia hora para desaparecer. Valeu à tripulação e passageiros, mais de cem pessoas, os olhos avisados da malta de Porto Mosquito, que já lá estava com tudo quanto era barco.
Assim todos se salvaram, dentro de botes, a ver o Musteru ir por ali abaixo, com carga que valia mais de um milhão de euros.
Alguns deles encontrei-os ontem à tarde aqui na Praia, desconsolados, desorientados, sem saber como ir para a Brava ou para o Maio, agora que se foi mais um dos barcos que ligava as ilhas.
Ainda há poucos meses te falava aqui do Moura, o tal que comprou uns catamarans e que prometeu ligar as ilhas. Pois olha, os catamarans desapareceram em pouco tempo. E agora afundaram dois barcos.
É uma pena dizer isto mas as ilhas de Cabo Verde, um país de rendimento médio, orgulhoso de todos os índices de desenvolvimento que apresenta, exemplo em África, estão cada vez mais isoladas. E quem se lixa, para variar, é o povo que não tem dinheiro para andar de avião e que vai ficando, cada vez mais, a ver navios.
Um abraço
Fernando Peixeiro



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