Caro amigo
A propósito do que me falavas ontem, do muito que se promete e do pouco que se faz, não resisto a lembrar-te aquele decreto do governador do Distrito Federal do Brasil, José Roberto Arruda, que se lembrou de proibir o uso do gerúndio no governo, por ter perdido a paciência com aqueles que estão “fazendo, providenciando, estudando, preparando, encaminhando”. Aqui também já há quem defenda que o decreto devia ser aplicado em Cabo Verde.
O governador justificou o decreto como um recadinho contra a ineficiência, contra os que estão fazendo e que nunca fazem, projectando mas que nunca concluem, pensando, concretizando, finalizando… enfim.
Na verdade o verbo é amigo dos que não se querem comprometer. Eu posso sempre dizer que estou pensando acabar um trabalho. E posso estar nesse estado e espírito amanhã, daqui a uma semana, para o mês que vem e para o ano 2024, se ainda for vivo.
E isto pode aplicar-se a mim ou a um governo. Um governo, qualquer ele, pode dizer que está iniciando um estudo para combater a pobreza que não se compromete. Depois espera um ano e vem anunciar que esteve pensando na questão e no ano seguinte vai dizer que está trabalhando no dossier. Ao fim de cinco anos, na campanha eleitoral, dirá que está concluindo uma lei que vai acabar com a pobreza. É limpinho, caro amigo.
Em Cabo Verde também não se foge à tirania do verbo. Nunca vi um país com tantos workshops, ateliers, seminários, conferências, reuniões, meatings, breafings, debriefings, jornadas e congressos.
E para quê? É simples, é o “Cabo Verde sentado”, como alguns dizem, projectando, definindo, estudando, decidindo, sugerindo, propondo, enfim… preparando um futuro glorioso para o arquipélago.
Esta semana, a propósito de se andarem a matar cagarras por esta altura do ano (as tartarugas essas já se fartaram de ser mortas e já se foram embora), o jornal A Semana escreve que o governo tem sempre meios quando é preciso participar num workshop no exterior mas que depois não tem maneira de parar a mortandade.
“De que valem tantos funcionários e serviços, organizar dezenas de ateliers e encontros, falar e discursar tanto sobre ambiente, cabimentar tantas verbas, etc, se quando chega a hora da prática não saem da mesma cantilena: não há meios, não há condições”.
É isto que diz o jornal. Mas se perguntarmos ao governo ele dirá com certeza que está estudando um projecto e implementando uma solução.
E depois admiram-se se o povo se está marimbando para os políticos! E isto para ser simpático, porque conheço muitos que usam um termo parecido com o nome das aves, no gerúndio, para manifestar os seus sentimentos quanto àqueles que estão mandando em nós.
E ficamos por aqui, caro amigo. Vou andando.
Um abraço
Fernando Peixeiro

