A matança com hora marcada

Caro amigo

Agora que o Natal já lá vai sinto-me na obrigação de te falar de um assunto triste. Em Cabo Verde, duas semanas por ano dizimam milhares de aves em vias de extinção, numa reserva natural, à vista de toda a gente. Isto é, acho eu, mesmo muito triste.
Já te tinha falado aqui da matança das tartarugas marinhas mas o que os cabo-verdianos fazem às cagarras é também de, como se costuma dizer, bradar aos céus.
Este ano, só entre 5 e 20 de Outubro, mataram 13.000. E o que é mais espantoso é que tudo isto numa ilha (Ilhéu Raso) que é reserva natural desde 2003.
Em Cabo Verde costuma dizer-se que o país tem leis para tudo mas que elas não são cumpridas. E no caso das cagarras era tão simples! A ilha onde as aves nidificam só tem um local que permite a acostagem, por isso bastava um barco, um polícia que fosse. E sabes tu que antes de 5 de Outubro alguma imprensa avisou para a mortandade que se avizinhava? Fizeste alguma coisa? Assim fez o governo.
No mundo existem três espécies de cagarras, que são aves migratórias de longa distância, que passam a maior parte do tempo voando sobre o oceano e só vão a terra para se reproduzir. Há as cagarras de Cabo Verde, as dos Açores e Madeira, e outras na costa atlântica do Brasil e da Argentina.
Em Cabo Verde, 75 por cento da população mundial da cagarra local e única no mundo (Calonectris edwardsii) nidifica no Ilhéu Raso, perto da ilha de S. Vicente. Pois desde a década de 40 que a população anda a matar as aves. Nessa altura para matar a fome e hoje para vender como petisco nos restaurantes de Santo Antão.
Há três anos, disse-me um biólogo cabo-verdiano, mataram entre 30 a 35 mil cagarras que estavam quase a sair do ninho. No ano passado mataram no Ilhéu Raso 27 mil crias. Este ano não chegou a 13.000. Mas não julgues que foi por qualquer consciência ambientalista tardia. Mataram 13.000 porque foram essas as que encontraram. Ou seja, caro amigo, as cagarras de Cabo Verde estão a chegar ao fim.
Actualmente a população de cagarras não chega já aos 15 mil exemplares, segundo o ambientalista José Melo (de S. Vicente), que diz que se nada for feito em três anos as pobres aves deixam de existir.
José Melo mostrou-me um vídeo medonho. Homens a pegar nas crias e a torcerem-lhes placidamente os pescoços e depois um monte enorme de cagarras já mortas. E tudo isto para aproveitar 55 gramas de carne. Com o dinheiro que custa esses 55 gramas compra-se um frango inteiro!
Podia falar-te de outros atentados ambientalistas que se cometem pelas ilhas, e irei faze-lo, mas por hoje deixo-te apenas as cagarras. Porque já nos pesa a morte de 13.000, há poucos meses, e um homem não é de ferro. Ainda bem, que com coisas destas se fossemos já estávamos todos enferrujados.

Um, mais uma vez, triste abraço

Fernando Peixeiro


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