A magia da 22ª
Publicado por Fernando Peixeiro 21 Maio 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Quando aqui cheguei estranhava a bela discussão que todos as segundas-feiras pela manhã estava armada à porta do sítio onde trabalho. Cheguei a pensar que, por ser segunda-feira, o pessoal estava irritado e dava-lhe para gritar uns com os outros. Depois percebi duas coisas, uma que aqui é como aí, quanto mais o assunto é entusiasmante mas se eleva a voz, e outra que o futebol do fim-de-semana é tratado na segunda de manhã.
O futebol e a política. Se há coisas que dão belas e saudáveis discussões são essas duas. Agora, que o campeonato português acabou e o cabo-verdiano não suscita assim grandes arreganhos sentimentais, devias ver o folclore que por aqui vai à volta da política.
As eleições autárquicas ainda, e parece-me que está para durar. São 22 câmaras, 10 ficaram na mão do MpD, partido da oposição, outras 10 na mão do PAICV, partido no poder, e uma foi para um grupo independente, chefiado por um médico, que já há quatro anos governa a câmara do Sal.
Falta a 22ª. E na 22ª é que está o problema, porque é a capital, a Cidade da Praia, a mais apetecível e a mais importante. E imagina lá, o azar, os dois principais candidatos, um de cada partido, quase estão empatados.
Felisberto Vieira e os que o apoiam acharam que era favas contadas e no domingo à noite ainda cedinho já estavam a festejar. Depois aconteceu qualquer coisa e aquilo murchou para o lado do PAICV, ao mesmo tempo que o Ulisses Correia e Silva e a malta do Mpd vieram cantar vitória. Na verdade andam a cantar desde domingo, temo que já estejam meio roucos.
Domingo, noite dentro, já segunda, Felisberto Vieira disse que não, que ainda não estava nada decidido, que ainda havia votos por contar. A gente ouve e até pode acreditar, mas sabes quando a boca diz uma coisa e a expressão diz outra? Pois o desânimo do homem, e dos que estavam ao seu lado, era total.
Segunda-feira o dia até que foi calminho, tanto mais que era feriado, mas ontem, terça-feira, continuou a função. O MpD dá uma conferência de imprensa para dizer que sim, que ganhou, e que não entende porque é que Felisberto Vieira não assume a derrota. O PAICV dá outra para dizer que está à espera que a CNE diga quem ganhou. Ao mesmo tempo um jornal diz, citando fontes próximas de Felisberto Vieira (isto é importante) que houve irregularidades e que até houve delegados que levaram as urnas para casa. A presidente da CNE vem depois dizer que não, que ela própria esteve a receber todas as urnas até às seis da manhã. E quando pensavas que o caso estava, por hora, arrumado, vem o PAICV outra vez dizer que se o fez é uma irregularidade, porque segundo a lei não compete à presidente da CNE receber as urnas mas sim aos delegados.
Hoje, quando me estiveres a ler, já estou a caminho para papar pelo menos mais uma conferência de imprensa. E garanto-te que não acabo o dia com mais não sei quantas declarações e contra-declarações.
E olha, eu não sei quem ganhou, porque resultados oficiais só lá para o fim do dia ou para amanhã. Mas uma coisa é certa, o MpD apresenta números, garante que ganhou. E o PAICV apenas diz que quer ver os resultados oficiais mas nunca, desde a noite de domingo, disse ainda que foi ele quem ganhou. E também não apresenta os seus números, limitando-se a jogar à defesa. Estou convencido que isto não é mais do que uma derrota difícil de digerir.
Mas olha, seja como for, e à falta de uma bela futebolada, nada como uma disputa partidária para animar as hostes. Por mim é-me completamente indiferente quem vai para a câmara. Mas se fosse mágico dava uma prenda a esta gente, não aos candidatos mas ao povo: deixava as coisas assim pelo menos umas duas semanas, ou mais, até já não aguentar tanta conferência de imprensa. O futebol está no defeso e mais eleições só em 2011.
Um abraço
Fernando Peixeiro



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