A indignação de Paula Fortes

Caro amigo

Conheço Paula Fortes “de voz”. Falei com ela algumas vezes ao telefone tanto mais que era enfermeira e anestesista aqui em Santiago mas está agora destacada no Sal. É dela a história que hoje te vou contar, que escreveu com toda a indignação no jornal A Semana. Sem mais comentários, lê que vale a pena.
Porque tem casa e toda a família na Praia, era aqui em Santiago que Paula fortes estava a passar a quadra festiva quando recebeu um telefonema da Delegacia de Saúde do Sal, para regressar no primeiro avião à ilha, porque estava em causa a vida de uma pessoa.
Essa pessoa era uma mulher com uma gravidez ectópica, ou seja, que se estava a desenvolver fora do útero. Estes casos são raros mas por vezes o óvulo fixa-se no espaço entre o ovário e o útero. Com algumas semanas de gravidez, esclarece Paula Fortes, o embrião vai avolumando, a membrana rompe e provoca uma hemorragia e a pessoa morre se não for operada.
Ora era o que estava a acontecer no dia 28 de Dezembro de manhã, quando a Delegacia contactou os TACV, transportes de Cabo Verde, para providenciarem o transporte urgente da mulher para a Praia, a fim de ser operada.
Mas a coisa não era assim tão simples, o avião que podia transportar uma maca só saía do Sal a partir das 21:30, pelo que a Delegacia pediu à Paula para regressar o mais rapidamente ao Sal, para aí poderem operar a pobre da mulher.
E… boa!!! Havia um avião, com lugares, que partia da Praia para o Sal às 15:40 (meia hora de voo).
Munida de duas bolsas de sangue, Paula Fortes lá foi para o aeroporto às 14:30 e quando lá chegou uma pequena contrariedade, porque nestas coisas o tempo pode significar salvar uma vida: o avião estava 20 minutos atrasado.
Cumpridas as formalidades, e como chegada a hora do voo nada se passava, Paula Fortes conseguiu saber que afinal o avião ainda estava no Sal, o que foi confirmado pouco depois pelo painel de informação (que normalmente até os aeroportos mais rascas têm): o voo só se realizaria às 17:00.
Mais uma mentira. A essa hora chegou o avião. E julgas que levantou voo pouco depois? Naaa!! Esteve mais 45 minutos parado para, agora espanta-te, lhe tirarem cadeiras para colocar uma maca, a fim de transportar um doente que estava em fase de recuperação. No tal avião, que não podia transportar uma maca do Sal para Santiago, ainda que uma mulher pudesse morrer a qualquer momento.
Paula Fortes conseguiu chegar ao bloco operatório da Delegacia de Saúde às 19:15, onde havia horas a restante equipa a esperava e uma mulher agonizava.
Ainda assim, podes pensar, um final feliz, porque a mulher foi salva. Eu não acho. Nunca podem haver finais felizes enquanto existirem empresas assim.
Diz a Paula que quando vinha passar o Natal à Praia o voo estava marcado para as 18:40 do dia 21 de Dezembro. Estava marcado mas só saiu do Sal às 00:30 do dia 22. E sabes a que horas apareceram as malas? Às cinco da manhã!!
São situações que põem em perigo o tão desejado desenvolvimento que Cabo Verde persegue e a imagem de credibilidade que tem vindo a tentar construir.
As palavras não são minhas. São da Paula Fortes.
Olha, não são mas podiam ser.

Um atempado abraço

Fernando Peixeiro


1 Response to “A indignação de Paula Fortes”

  1. 1 Paula Fortes

    Fico agradecida e contente por saber que o meu artigo teve eco no seu blog. Pena é que quem de direito que deva reagir não o fez. Almejo o dia em que situações dessas deixarão de acontecer na nossa querida Pátria.
    Cordealmente
    Paula Fortes

Leave a Reply





PARCEIROS