A indignação de Paula Fortes
Publicado por Fernando Peixeiro 12 Janeiro 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Conheço Paula Fortes “de voz”. Falei com ela algumas vezes ao telefone tanto mais que era enfermeira e anestesista aqui em Santiago mas está agora destacada no Sal. É dela a história que hoje te vou contar, que escreveu com toda a indignação no jornal A Semana. Sem mais comentários, lê que vale a pena.
Porque tem casa e toda a família na Praia, era aqui em Santiago que Paula fortes estava a passar a quadra festiva quando recebeu um telefonema da Delegacia de Saúde do Sal, para regressar no primeiro avião à ilha, porque estava em causa a vida de uma pessoa.
Essa pessoa era uma mulher com uma gravidez ectópica, ou seja, que se estava a desenvolver fora do útero. Estes casos são raros mas por vezes o óvulo fixa-se no espaço entre o ovário e o útero. Com algumas semanas de gravidez, esclarece Paula Fortes, o embrião vai avolumando, a membrana rompe e provoca uma hemorragia e a pessoa morre se não for operada.
Ora era o que estava a acontecer no dia 28 de Dezembro de manhã, quando a Delegacia contactou os TACV, transportes de Cabo Verde, para providenciarem o transporte urgente da mulher para a Praia, a fim de ser operada.
Mas a coisa não era assim tão simples, o avião que podia transportar uma maca só saía do Sal a partir das 21:30, pelo que a Delegacia pediu à Paula para regressar o mais rapidamente ao Sal, para aí poderem operar a pobre da mulher.
E… boa!!! Havia um avião, com lugares, que partia da Praia para o Sal às 15:40 (meia hora de voo).
Munida de duas bolsas de sangue, Paula Fortes lá foi para o aeroporto às 14:30 e quando lá chegou uma pequena contrariedade, porque nestas coisas o tempo pode significar salvar uma vida: o avião estava 20 minutos atrasado.
Cumpridas as formalidades, e como chegada a hora do voo nada se passava, Paula Fortes conseguiu saber que afinal o avião ainda estava no Sal, o que foi confirmado pouco depois pelo painel de informação (que normalmente até os aeroportos mais rascas têm): o voo só se realizaria às 17:00.
Mais uma mentira. A essa hora chegou o avião. E julgas que levantou voo pouco depois? Naaa!! Esteve mais 45 minutos parado para, agora espanta-te, lhe tirarem cadeiras para colocar uma maca, a fim de transportar um doente que estava em fase de recuperação. No tal avião, que não podia transportar uma maca do Sal para Santiago, ainda que uma mulher pudesse morrer a qualquer momento.
Paula Fortes conseguiu chegar ao bloco operatório da Delegacia de Saúde às 19:15, onde havia horas a restante equipa a esperava e uma mulher agonizava.
Ainda assim, podes pensar, um final feliz, porque a mulher foi salva. Eu não acho. Nunca podem haver finais felizes enquanto existirem empresas assim.
Diz a Paula que quando vinha passar o Natal à Praia o voo estava marcado para as 18:40 do dia 21 de Dezembro. Estava marcado mas só saiu do Sal às 00:30 do dia 22. E sabes a que horas apareceram as malas? Às cinco da manhã!!
São situações que põem em perigo o tão desejado desenvolvimento que Cabo Verde persegue e a imagem de credibilidade que tem vindo a tentar construir.
As palavras não são minhas. São da Paula Fortes.
Olha, não são mas podiam ser.
Um atempado abraço
Fernando Peixeiro



Fico agradecida e contente por saber que o meu artigo teve eco no seu blog. Pena é que quem de direito que deva reagir não o fez. Almejo o dia em que situações dessas deixarão de acontecer na nossa querida Pátria.
Cordealmente
Paula Fortes