A ilha
Publicado por Fernando Peixeiro 6 Abril 2008 em Cabo Verde.
Caro amigo
Cada ilha de Cabo Verde é um mundo. Mas se quisermos podemos encontrar semelhanças entre o Sal, a Boavista e o Maio, com os seus extensos areais e a água azul clara. São as ilhas do turismo, de massas infelizmente, dos hotéis com sabores italianos, dos resorts, dos condomínios, dos hotéis e aparthotéis, complexos turísticos, villages, houses, guest-houses, cottages ou lá o que lhes queiram chamar. Depois há as outras. E Santo Antão.
Santo Antão é a segunda maior ilha, a seguir a Santiago. Fica do outro lado, a caminho já do Brasil, depois de S. Vicente, meia horinha de barco pelo estreito, pelo canal se te apetecer lembrar Vitorino Nemésio.
Da Laginha, a bonita praia de S. Vicente, vês, imponente, Santo Antão ao fundo, como a vês de toda a baía do Mindelo. Mas são mais, muitos mais, os que olham do outro lado, da ilha das montanhas, para as luzes da Laginha ou para a marginal do Mindelo. Muitos a desejar passar o canal, para a ilha das oportunidades, se mais não seja a oportunidade de apanhar um barco ou um avião para emigrar para qualquer lado.
Santo Antão tem tanto de bonito como de pobre. Chega-se pelo mar a Porto Novo, uma vila, ou cidade, sem grande coisa para contar, encravada no sopé de uma montanha, e a vontade é logo meter pés a caminho e ver o que está do outro lado.
É fácil em Porto Novo encontrares alguém que te leve estrada acima, curvas contornando os montes, até lá ao alto, de onde te podes debruçar para o que foi em tempos um mar de lava e hoje é apenas uma antiga cratera fértil.
E estás então num dos sítios mais bonitos de Cabo Verde, não duvido, entre montanhas, precipícios, estradas íngremes no meio de pinheiros, vales profundos, gargantas agrestes, montanhas e mais montanhas, escarpas a perder de vista, que com o fim do dia vão perdendo a cor e dando tons diferentes à medida que estão mais longe, a fazer lembrar um dos fundos de ambiente de trabalho propostos pelo sistema operativo Windows.
É melhor ainda. Sentes-te esmagado. Paras ali no fim de uma curva e vês uma mulher sentada à porta das traseiras da casa, os pés a baloiçar para o vazio, o abismo, e lá ao fundo os restos de uma plantação de milho. Não sabes como lá se chega, não sabes como aquela mulher tem a coragem de estar ali, assim, como se na sua frente estivesse um jardim florido, a 20 centímetros dos seus pés.
Mas espera. Pinheiros? Escrevi pinheiros? É verdade caro amigo! O único sítio do país onde nascem, provavelmente trazidos por um português saudosista, há muitos anos, e que por ali ficaram e cresceram, aproveitando o lado mais fresco da ilha.
Estendem-se por todo o lado, galgam montes e vales, e descem até ao mar, ladeando por vezes a estrada que faz figas aos precipícios.
É assim Santo Antão, uma ilha de duas faces, uma seca e árida, outra verde e plena de vida, até à Ribeira Grande de Santo Antão, até à Ponta do Sol, até ao Paul, onde há água todo o ano, onde se pode semear couves e alfaces, tomates e melancias.
E onde se faz dos melhores grogues de Cabo Verde, assim os produtores não sejam mau carácter, como já aqui te falei.
Mas ainda que sem grogue, sem a mulher nas traseiras que dão para o vazio, sem os pescadores da Ponta do Sol, a estrada marginal até ao Paul, o café caseiro da Ribeira Grande, o almoço em Pedracin… sem tudo isso… Santo Antão continuaria a ser A Ilha.
Um ilhéu abraço
Fernando Peixeiro



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