Caro amigo

Das nove ilhas habitadas de Cabo Verde não pude conhecer duas, Brava e S. Nicolau. Também não conheci Santa Luzia, habitada, desabitada, de novo habitada e hoje sem ninguém. Passei ao lado, fumei um cigarro a apreciar as extensas praias, mas não pus lá os pés. A história que te conto hoje foi-me também contada assim.
Santa Luzia fica entre S. Vicente e S. Nicolau, mais perto de S. Vicente, e não é atractiva porque não tem água. A última pessoa que lá viveu foi um pastor solitário que terá morrido há cerca de 12 anos. Contaram-me que segundo o médico legista o homem morreu de morte natural, mas também me disseram que pouco tempo antes ele tinha descoberto um carregamento de haxixe lá escondido e que desatou a vender o produto para pessoal de S. Vicente. Era um corrupio de barcos a caminho de Santa Luzia, pelo que me disseram. As mesmas pessoas que admitiram que a morte natural podia ter sido um bocadinho forçada.
Mas passemos à frente. O homem, a bem ou a mal, morreu há uns aninhos e ponto final. E quando isso aconteceu, ao que parece, a família meteu-se num barco, ou em vários, e foi lá buscar tudo a que tinha direito. O burro, as ovelhas e as cabras, as galinhas… enfim… tudo o que valesse a pena.
Mas, por acaso ou não, deixaram inquilinos. Três gatos, donos e senhores de uma ilha cheia de lagartos, algumas aves, e um pescador ou outro de vez em quando.
Os anos passaram assim e hoje, contam-me, os gatos reproduziram-se e os lagartos desapareceram. E não terá sido por magia.
Mas depois aconteceu outra coisa curiosa. Os gatos, naturalmente, tornaram-se selvagens e adaptaram-se de tal maneira que a própria pelagem se tornou da cor do terreno. Podem estar a poucos metros de ti que nem os vês, ao que me disseram.
E conta quem viu que aconteceu ainda esta coisa fantástica. Os gatos, que por norma gostam menos de tomar banho e de água do que os povos do norte da Europa, e que são pouco amigos de alinhar em grupos, aprenderam a pescar nas lagoas e fazem-no em conjunto.
Se durante o dia não lhes pões os olhos encima, quando chega a noite deslocam-se em matilhas até às lagoas, entram nelas, e em grupo cercam as tainhas, que apanham à boa maneira dos ursos, basicamente à sapatada, ou à patada, porque a evolução ainda não chegou a tanto.
Repito que não vi estes estranhos gatos. Mas achei a história interessante para te contar, tanto mais agora que se comemoram os 200 anos do nascimento de Charles Darwin e que tanto se fala e vai falar do homem e da teoria da selecção natural.
E quando voltar a Cabo Verde, além da Brava e de S. Nicolau, lá terei de ir a Santa Luzia. Se os gatos entretanto não criarem barbatanas e guelras. Ou asas.

Um abraço

Fernando Peixeiro


2 Responses to “A ilha dos gatos”

  1. 1 Monica

    adorei a história!!!!!!!!!!!!!!
    OBRIGADA!!!!!!!!!!!!!!!!

  2. 2 Cláudia

    Ainda bem que a contaste!!!!! OBRIGADA!


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