A gravata ou a t-shirt
Publicado por Fernando Peixeiro 19 Junho 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
Vi, ainda que pelo canto do olho, as comemorações do 10 de Junho, dia de Portugal, na RTP-África, as mesmas que tu terás visto e à mesma hora. Nesse dia creio que fui à praia, de tarde, e à noite meti a minha melhor gravata, o meu melhor fato, e estive na residência da embaixadora, numa recepção que esta ofereceu à comunidade portuguesa na Praia. Ambiente agradável mas vim embora cedo. Gravata é adereço que mal se aguenta aqui. E sabes porquê?
Há tempos falei-te de uma razão para não visitares Cabo Verde: o preço, quer das viagens quer dos bens e serviços. Hoje falo-te de uma para visitares: a temperatura, sempre agradável, mesmo quando em Lisboa o termómetro desce aos zero graus. E o que é melhor é que a amplitude térmica é mínima, isto é, se de dia estão 26 graus de noite poderão estar 23 ou 24, às vezes 25.
Talvez por isso, digo-te, caro amigo, que nestes quase seis meses de Cabo Verde a única “doença” que tive foi uma ligeira constipação, há cerca de duas semanas. E depois a água do mar, não sendo quente, também não é o “gelo” que temos de gramar aí, na maior parte das vezes.
É certo que aqui, pelo menos na ilha de Santiago, as praias não são aqueles lugares paradisíacos que muitos pensarão. A areia é escura, o vento sopra forte com frequência, e há pouco cuidado em manter o areal limpo. Por aqui a preocupação parece ser sobretudo limpar o areal, tanto que há praias que hoje são apenas rochas, depois de terem “limpado” toda a areia para usar na construção civil.
Mas não quero que te desanimes por isso. O Tarrafal, por exemplo, a norte da ilha, tem aquela que para mi é a praia mais bonita, com o atractivo de ter palmeiras a poucas dezenas de metros da rebentação, coisa rara nestas paragens. E depois, encima da praia, tens dos melhores restaurantes da ilha: come-se bem a olhar para o mar, os barcos de pesca que chegam ou partem, os mergulhadores que se fazem ao largo para explorar uma das, dizem, melhores zonas de mergulho das redondezas.
Depois, mais para sul, pela costa oeste, tens dezenas de enseadas e pequenas praias, a maior parte delas deserta, onde só meia dúzia de jovens disputa uma bola nas tardes de domingo. Pela costa chegas a uma praia também lindíssima, ainda que de areia escura: Praia Baixo, uma vila de pescadores cheia de gente simpática, simples, educada e muito hospitaleira. Também aqui, ao lado das ondas, tens um “grande” restaurante, onde podes comer moreia frita acompanhada de uma cerveja gelada.
Em Cabo Verde, se calhar porque faz sempre muito calor, a preocupação para com a temperatura da cerveja é uma constante, quer numa festa particular quer no mais simples café de beira de estrada. Asseguro-te, caro amigo, que bebi aqui as cervejas mais frescas da minha vida, tanto que quando te são colocadas na frente o truque é só lhe tocares no gargalo, porque de contrário congelam-te na mão. Já me aconteceu. E sabes como eles fazem: metem-nas no congelador dentro do “pack” de cartão em que são compradas. Assim as garrafas não rebentam. Vá lá saber-se porquê.
Depois tens as praias da Praia. Há dias falei-te da poluição de que sofrem. Pois é. O que vale é que o mar é generoso e esta semana as praias voltaram a estar aceitáveis. E o sol, esse, nunca é preocupação, porque está sempre presente.
Por isso, caro amigo, se há dias te sugeria que pensasses duas vezes em vir de férias a Cabo Verde, hoje peço-te que penses só uma. Especialmente se na terceira semana de Junho chove em Portugal e se andam a preocupar-se com a transmissão televisiva na íntegra, ou não, das comemorações do 10 de Junho.
Sempre te digo que prefiro a minha preocupação comemorativa: usar uma gravata quando apetece andar de t-shirt.
Um abraço quente
Fernando Peixeiro



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