Caro amigo
Fiquei cheio de vontade de ver a tal novela de que me falaste. Vá lá explicar-se isto. É como com os filmes, quando se diz muito mal de um filme, mas muito mal mesmo, fica sempre a apetecer-me ir ver se é assim tão mau. Deve ser típico nosso. Lembras-te de que criámos o Zé Cabra?
Com as novelas deve passar-se o mesmo. Quanto pior, melhor. E depois, olha, se passas o dia inteiro a levar com um chefe que te mói o juízo todo o santo dia, que é prepotente, arrogante, ditador, incompetente e coisas assim, chegas a casa e alivia-te ver que ainda há pessoas que sofrem mais do que tu.
É certo que aquilo é tudo ficção, mas… e depois? Não temos nós capacidade de chorar a ver um filme lamechas qualquer, estando tão certinhos de aquilo é tudo treta? Imaginamos nós os baldes de lágrimas que foram derramados aqui há uns bons anos com o filme Kramer contra Kramer, vencedor de cinco Óscares e que conta a história da luta de um casal pela guarda do filho? Era de fazer chorar as pedras da calçada, toda a gente sabia, mas não foi uma correria às salas de cinema? Até os Óscares devem ter enferrujado.
Lembro-me da primeira vez que fui ao cinema. Era pequeno, vivia numa aldeia onde quase nem televisões havia ainda e aproveitei uma feira na tua terra, em Grândola, para me enfiar num cinema. Eu e mais dois amigos, da minha idade, felizes por aquela nova experiência, pouco preocupados com o que ia passar-nos pelo ecrã.
Não foi uma experiência traumatizante mas a verdade é que ainda hoje me lembro. Saiu-nos um filme indiano com o belo título A força do destino. Passei a segunda parte do filme a chorar copiosamente, ainda por cima às escondidas para que os meus amigos não vissem, porque tinha morrido um elefante. E eles fizeram o mesmo, porque quando o bicho foi enterrado e as luzes se acenderam os nossos olhos inchados e vermelhos não enganavam ninguém. Mas olha… se queres saber… adorei.
Nas novelas é o mesmo. Queremos ver pessoas mais más, mais desonestas, mais corruptas, estúpidas e mentirosas do que as que conhecemos. Queremos irritar-nos com a excessiva bondade de outras, com uma paciência que nem Cristo teria. Queremos sentir-nos satisfeitos com as vitórias dos mais fracos perante os mais fortes, chatear-nos com os planos diabólicos dos maus da fita e que sempre dão certo. Quanto mais intensos forem os sentimentos que nos despertam melhor se passarão esses 40 minutos. E amanhã lá estamos outra vez, agarradinhos à televisão, como se aquilo fosse uma droga. E se calhar é.
Pois.
Olha.
Distraí-me com a conversa… não devia estar para aqui a falar disto.
Cabo Verde cá vai. Ainda ontem o líder da oposição se encontrou com o primeiro-ministro numa cerimónia pública e chamou-lhe mentiroso, alto e bom som.
Não é novela mas tem o mesmo efeito.
Grande abraço
Fernando Peixeiro

