A fome, essa maluca

Caro amigo

Hoje é domingo, Portugal ganhou aos turcos lá no Europeu e aí, pelas minhas contas, até deve estar um belo dia. Não quero chatear-te muito, só partilhar contigo uma preocupação, a de que, amanhã, meio mundo não tenha que comer. Perante isto o dia devia ficar cinzento e a vitória de Portugal ser um pormenor. Não fica. Não é. Ainda que não sei quantas crianças tenham morrido de fome no tempo que levas a ler isto.
A mim, visto aqui de África, o caso parece-me preocupante. E não é só a fome. O Expresso, na edição desta semana, diz, a propósito da cimeira da agência das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, que decorreu em Roma, que há um risco real de a actual crise alimentar degenerar em guerras nos países subdesenvolvidos, muitos deles, como sabes, neste continente de onde te escrevo.
Diz o Expresso que, por exemplo, a Guiné e o Madagáscar reconheceram que “cobriram” os recentes aumentos dos alimentos recorrendo ao Orçamento e à ajuda internacional, recursos finitos cujo uso apenas adia o problema.
Entrevistada pelo Expresso, a coordenadora do Gabinete da FAO para o Aumento dos Preços dos Bens Agrícolas, a portuguesa Cristina Amaral, assegura que a ONU tem  planos para resolver alguns problemas imediatos.
Pois pois. Problemas imediatos… Mas o problema imediato é dar de comer a quem tem fome hoje. Esquecemo-nos nós que a fome, essa maluca, regressa amanhã? E que nós desenvolvemos desde a mais tenra idade este mau hábito de ter de comer todos os dias?
Esta semana o primeiro-ministro de Cabo Verde dispôs-se a falar aos jornalistas para explicar a imposição de uma taxa rodoviária que vai encarecer a gasolina e o gasóleo em seis cêntimos por litro, mas começou a conversa com um aviso dramático: está aí a pior crise do século XXI.
É certo que as autoridades aqui têm dito que há alimentos em stock pelo menos até Julho, mas isso não impediu que José Maria Neves tivesse alertado os cabo-verdianos para a necessidade de se prepararem para “a mais profunda crise do século XXI”, provocada pelo “aumento exponencial” dos combustíveis e dos cereais.
A crise mundial, disse, vai afectar sobretudo as pequenas economias, como a cabo-verdiana, e provocar “calamidades públicas em vários países se medidas não forem tomadas”, avisou o homem, pedindo aos cabo-verdianos para se prepararem e para que acompanhem a situação “e tomem consciência do que está a acontecer”.
Dramático? Sem dúvida. É o caso assim tão grave ou José Maria Neves estava só a levantar um fantasma para tentar desviar as atenções da burrice que foi impor assim uma taxa tão elevada, como aqui já te falei?
Queria acreditar que é só conversa. Infelizmente não me parece. Só aqui em África 21 países precisam de ajuda externa para alimentar a sua população. No mundo 854 milhões de pessoas adormeceram ontem à noite com fome. E hoje vão morrer 40.000 crianças devido a problemas de má-nutrição e doenças por ela causadas. Faz as contas, vê quantas morreram desde que começaste, lá encima, a ler a frase “hoje é domingo”. E guarda o número para ti porque ninguém quer saber. Se não, repara nos jornais de hoje.

Um abraço
Fernando Peixeiro


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