A face visível da Lua

Caro amigo

Da janela do meu quarto vejo o mar. Não está limpo o céu mas as nuvens altas não conseguem impedir o luar e por isso da janela do meu quarto vejo o mar e a espuma branca a bater nas rochas. Os grilos e as cigarras acompanham, sem se cansarem também, o som das ondas.
Em Lisboa estão ainda na ressaca de uma das piores tempestades nocturnas dos últimos anos, pelo Algarve e Alentejo o mau tempo continua à solta, mas aqui apenas o som irritante do alarme de um automóvel quebra esta calma. É a Lua que ilumina tudo, porque a Electra de Cabo Verde não consegue. Da janela do meu quarto vejo os prédios à volta, adormecidos, todos sem qualquer luz, ainda que de vela fosse, as plantas no jardim, e ao fundo o mar, sempre ele e as suas ondas.
Da janela do meu quarto sinto o cheiro a café, acabadinho de fazer. Passo-o lentamente para uma chávena pequenina e fico assim, sentado numa espécie de sofá que perdeu os fundos antes de eu chegar aqui e que continua confortável, ainda que agora relegado para a varanda, quem sabe uma promoção.
Da varanda do meu quarto, sentado no sofá que perdeu o fundo, promovido a simples sofá de varanda, bebendo agora um Grant´s sem gelo, desejo que o raio da bateria do carro acabe depressa.
A cidade adormeceu cedo esta noite. E as “Ondas do Mar” também. O sítio onde vivo agora. Porque as outras, as reais, as verdadeiras, estão ali, iluminadas pela Lua, aproveitando que a Electra, a empresa que devia fornecer energia e água a esta terra, ainda não descobriu como se faz um apagão lunar. Diz a luminosa Electra que a culpa é da empresa que anda a pavimentar as ruas, por sinal portuguesa, a MSF, que está a cortar cabos subterrâneos à mesma velocidade com que eu mudo de camisa. E eu, caro amigo, asseguro-te, porco não sou.
Da varanda do meu quarto, de um sofá que já foi de sala, nem quero saber! E as dezenas de cortes de energia ao longo de todo este último ano, quando nem uma pedra de calçada foi movida?
Mas também quem se interessa? Está uma noite bonita e a Lua ilumina tudo o que preciso. Se houvesse luz estaria por certo lá dentro, pregado à televisão, a ver uma telenovela brasileira ou um programa musical requentado.
Assim, da varanda, vejo o mar e vejo a Lua, enquanto a bateria do carro dá as últimas. Deixo baixinho o último disco do Tito Paris nos meus fones (podes escutá-lo mesmo ao lado, nesta página, na música do dia). Dentro de pouco tempo fico só eu com o mar e as ondas. E por certo os grilos e as cigarras. Nesta noite só podem estar a cantar para mim. Ou para a Lua. Para a Electra não teriam coragem.

Um bucólico, e feliz, abraço

Fernando Peixeiro