A face oculta da Lua

Caro amigo

Da janela da minha cozinha vejo o prédio iluminado das Nações Unidas na Achada de Santo António, colina em frente. É o único em toda esta parte da cidade, morta, escura, e se não fosse Cabo Verde até um pouco fria.
Como peixe no forno, preparado como sempre maravilhosamente bem pela Arlinda. As três velas que acendo não apagam o brilho das Nações Unidas, não sei se também eles ofuscados pela sua própria luz, sem ver a cidade morta a seus pés, capital de um país que promoveram, que já não merece estar ao lado dos pobrezinhos de África e da Ásia mas antes no mesmo barco de gigantes como a China.
Misturo o peixe com um Borba de 2006. Estaria por certo guardado para melhores momentos, mas depois de um dia inteiro sem luz e sem água, com o computador a dar as últimas pela hora de almoço, sem puder trabalhar, parece-me um desses bons momentos.
A Electra, empresa responsável pelo abastecimento de água e luz, não se atreve a dizer quando haverá outra vez energia. Lá fora só a luz da lua ainda não conseguiram apagar, embora se me dissessem que já tinham tentado não me admirasse.
Ao cair da noite ligaram por um bocadinho os geradores do prédio e tive o privilégio de ter água por meia hora. Pelo menos para encher, e voltar a despejar, os autoclismos. Ainda pensei tomar um banho mas desisti vendo como a água saia devagar das torneiras, a ameaçar voltar só lá para… quando calhar.
Há uma vela quase no fim, chama incerta, como a água, e que nem o vento que entra por debaixo da porta afasta o cheiro de cera queimada.
Leio e tento esquecer as notícias que não mandei, os telefonemas que devia ter feito e os mails que não li. A cidade lá fora parou e a vela morreu ingloriamente, deixando um cheiro a igreja. Abro meia janela e o vento entra furiosamente e apaga a segunda vela. Invento um café no fogão. Da janela aberta sobem-me os sons dos grilos e das cigarras.
Olhando agora a única vela acesa imagino que cantam à Lua. À Electra por certo não teriam coragem.

Um abraço

Fernando Peixeiro


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