Caro amigo
Já te falei aqui um dia das acácias e dos seus frutos, os belos saquinhos de plástico que têm a particularidade de vingar todo o ano. Por estes dias, aqui pelas ilhas, fala-se muito de um em especial. Azul de sua cor mas filho enjeitado, não das acácias mas do governo. Continuo burro. Para mim a coisa é mais cinzenta do que azul!
A história conto-a em três parágrafos, que hoje estou cansado, com dores de garganta e sem grande vontade de dar ao dedo. Há dias assim e quando eles chegam o melhor é arrumar os chinelos (sim, que aqui não se usam botas) e meteres-te na cama, a sonhar com um belo chá de limão e mel, coisas que, por acaso, não tenho em casa mas que eventualmente troco por um belo copo de grogue.
No mês passado um jornal aqui fez manchete com um relatório da Inspecção-Geral de Finanças que deu brado. Os inspectores detectaram aquilo a que chamaram um “verdadeiro saco azul” no Cofre Geral da Justiça, que dava para pagar tudo, e tudo inclui coisas legais e ilegais.
No meio de um rol do que chamam irregularidades algumas decorei-as porque as achei caricatas. O Cofre terá pago o mobiliário da casa onde vive o ministro da Justiça, financiado casas para magistrados, lanches, subsídios para associações e até dois fatos do ministro da Justiça e a limpeza dos sofás da casa onde vive uma magistrada.
Isto foi em Setembro e, como em qualquer país normal a oposição veio logo pedir “a cabeça” do ministro da Justiça e de mais os dois ministros da tutela que lhe antecederam. Pelo menos não são pobres a pedir.
O governo entretanto foi assobiando para o lado, com ar distraído, a dizer que na altura certa iria reagir. E ontem o Ministério da Justiça respondeu ao Ministério das Finanças, num relatório demolidor. Só faltou mesmo chamar aos inspectores aquilo que eu disse na última carta que era.
Li os dois relatórios e ambos se apoiam em leis e decretos e todas essas coisas legais para dizerem que têm razão. A Justiça nega que alguma vez tenha havido um “saco azul”, diz que é chocante que possam admitir tal coisa, e desmonta o relatório das Finanças ponto por ponto.
Financiou sim senhor o recheio da casa do ministro, porque é a casa de um titular de um cargo público e não a casa do senhor. O que lá está é pertença do Estado. Financiou a lavagem dos sofás porque os sofás também são para usufruto da magistrada mas pertencem ao Estado. E por aí adiante. Apenas numa coisa o ministro admite que possa haver irregularidades, na compra de dois fatos.
O relatório do ministro chama ainda a atenção para um fato, ups, facto: como é que o documento das Finanças vai parar à mão da imprensa quando ainda não tinha havido o contraditório? Quando o ministro em causa ainda não tinha sido ouvido?
Himm, homm… eu na minha pouca inteligência também me parece que não foi inocente. Mas o que mais me irrita no meio disto tudo nem sequer é que o ministro tenha comprado dois fatos (a não ser que sejam do Estado e depois os devolva, no final do mandato), o que mais me irrita é que a tal magistrada, que usufrui de uma casa e respectivo recheio pertença do Estado seja a mesma que autoriza uma limpeza dos sofás.
Já a imagino sentada num sofá caríssimo, a ver a novela, sem ligar a mínima que os putos estejam a comer um gelado de chocolate empoleirados em cada um dos braços, e que o cão se tenha acabado de refastelar ao seu lado, a deitar baba por todo os lados.
Se eu fosse contribuinte cabo-verdiano preferia paga dois fatinhos ao ministro, para representar condignamente o país, do que a limpeza de um sofá que sei lá em que circunstâncias ficou todo porco.
A lei até pode estar do lado dela, mas a razão essa deve andar a milhas. A razão e o bom-senso.
Olha… já ultrapassei e muito os três parágrafos. Deixo-te já aqui um abraço e despeço-me. O bom-senso sugere, a garganta pede e o grogue insinua.
Fernando Peixeiro

