A campainha, o negro e o quadro eléctrico
Publicado por Fernando Peixeiro 4 Maio 2007 em Cabo Verde.Caro amigo,
lembrei-me também de um aperto de mão estranho, o início daquela que iria ser a minha pior noite desde que estou em Cabo Verde. Resultado de preconceitos, talvez, inseguranças, bem provável, mas sobretudo de falta de atenção. Tudo junto deu essa noite mal passada e montes de dúvidas sobre se devia ou não estar ali, naquela terra estranha. Foi a única vez que as tive. E também a única que dormi mal.
Começou tudo num belo fim de tarde, estava eu sozinho na casa que alugámos em Cabo Verde havia dois dias. Ainda me arrumava por ali quando soou a campainha da porta. Aos primeiros toques não liguei, ocupado que estava com caixotes e malas, roupas e coisas afim. Só quando me libertei de um molho de papeis inúteis e espreitei pela janela é que vim um homem negro, ainda novo, que perguntava por mim aos vizinhos do andar de cima.Lembro-me que, como não o conhecia, ter como primeira reacção assobiar para o lado, ou seja fingir que não estava em casa. Mas como o homem insistia lá fui eu ao portão que dá para a rua. Pareceu-me que ficou surpreendido com a minha presença (esperava o anterior inquilino), mas não deixou de me estender a mão. Respondi ao cumprimento mas o que me incomodou foi aquele olhar. O tipo ficou a agarrar-me a mão e a olhar-me, sem dizer palavra. Assim, uns segundos intermináveis e constrangedores. E quando tentei retirar a mão não deixou ao mesmo tempo que dizia: “Não tenha medo de mim”. Ri-me, mas penso que de nervoso. Disse-lhe que não tinha medo dele, que pelo menos até aquele momento não tinha razões para isso. Mas ao mesmo tempo, no fundo, fiquei irritado, porque tinha deixado transparecer algum receio. Para encurtar conversa o homem, como aliás é frequente lá por casa, estava a tocar-me à campainha para me pedir dinheiro. Que tinha fome, que não tinha dinheiro para comprar comida… a conversa do costume. Dei-lhe algumas moedas e voltei para casa, confesso, aliviado, ainda que preocupado porque ele se manteve por ali, a vigiar o meu regresso ao “castelo”. Nem se tinham passado 15 minutos quando a campainha toca de novo. “Lá está ele outra vez, agora não me larga”, pensei. E deixei-me ficar. Mas era só o princípio. Nem tardaram 10 minutos e a campainha outra vez. E outra e outra. E como se tudo isto não bastasse o quadro eléctrico começou, de repente, a fazer um barulho sinistro. Nessa altura, caro amigo, nem queria acreditar naquilo. Imaginei que a qualquer momento rebentaria qualquer coisa, no mínimo, ou que a casa ainda pegava fogo. E lá fora continuavam a matraquear a campainha. Imagina que foi assim até me ir deitar. E julgas que consegui dormir quando, altas horas, a campainha ia tocando de tempos a tempos e o quadro ameaçava explodir a qualquer momento? Não foi fácil. Lembro-me que pensei várias vezes que não devia estar ali. Que raio! Estava tão bem em Lisboa, quem me mandou ir para ali, numa casa onde a instalação eléctrica ameaçava desfazer-se e com um desconhecido a noite inteira a tocar-me à campainha para me pedir mais dinheiro. Acabei, naturalmente, por adormecer. E no dia seguinte, bem cedo, disse à Arlinda, a mulher que trata de mim, que tínhamos de chamar um electricista com urgência. “Para quê? Isto não é o quadro, é a campainha que está avariada, por isso é que está sempre a tocar”. Fiquei sem fala. Afinal a casa não estava para explodir e não havia nenhum tipo ameaçador com uma faca nos dentes a noite toda a rondar-me a casa. Senti-me ridículo e idiota. E com sono, claro está! Até hoje o quadro eléctrico da casa não deu problemas, a campainha tem fases que avaria mas já não lhe ligo e o tal homem já me pediu mais uma vez dinheiro, o que faz dois pedidos em quatro meses: uma média aceitável. Se estivesse com atenção deveria distinguir uma campainha de um quadro eléctrico. Era o mínimo. Mas se calhar sentia-me inseguro. E já agora com medo, do tal homem de aperto de mão estranho. Mas pergunto-me se sentiria o mesmo se ele fosse um europeu como eu. Estas relações entre pretos e brancos às vezes dão-me que pensar. Um dia destes escrevo-te sobre isso. Para já, queria que ficasses descansado. Já distingo a diferença entre campainhas e quadros eléctricos e não me assusto com apertos de mão, por mais estranhos que eles sejam. E garanto-te hoje, caro amigo, que está para nascer a campainha ou o quadro que me tire o sono.
Um abraço, por agora bem desperto
Fernando Peixeiro



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