A amiga vela

Caro amigo

Imagina viveres numa cidade na qual não sabes a que momento vais ficar sem água e sem luz eléctrica. Imagina que os cortes tanto podem ser a meio do almoço ou do jantar e que tanto podem durar quatro horas como 24. Imagina que depois ninguém te dá uma explicação nem justificação. A Cidade da Praia é assim.
A questão energética é, parece-me, o maior calcanhar de Aquiles do governo de Cabo Verde. Nunca ninguém, nesta cidade, pode estar descansado, com a ameaça pairando sobre as suas cabeças de a qualquer momento lá ter de ir buscar uma vela. Posso dizer-te, caro amigo, que na semana que passou só um dia não tive de me socorrer da amiga vela.
Esta semana, tudo indica, a coisa vai melhorar. Os cortes de electricidade na última semana, nas últimas semanas, deveram-se à falta de combustível para os geradores da Electra, a empresa distribuidora de energia e água. É que as dívidas da empresa aos vendedores de gasóleo e de fuel era já de 280 mil contos (560 mil contos portugueses) e estes pura e simplesmente fecharam a torneira.
No fim da semana passada o governo lá veio em socorro da Electra e fez uma transferência para os cofres da empresa no valor de 550 mil contos (um milhão e cem mil contos portugueses). O bastante para pagar as dívidas e ainda sobrar algum, um balão de oxigénio para os próximos meses e algum descanso para nós, se calhar até lá para o Natal.
Mas o problema de fundo persiste. Há quem roube electricidade, há outra que se perde não sei bem como, há quem consuma e fique a dever (só as câmaras devem dois milhões de contos).
A Electra foi, até Agosto do ano passado, gerida por um consórcio português formado pela EDP e pela AdP (Águas de Portugal). Na altura os cortes foram tantos e tão grandes que a população se revoltou e o governo seguiu-a. Em Julho do ano passado o primeiro-ministro de Cabo Verde chegou mesmo a dizer que gostava que as duas empresas portugueses saíssem o mais rapidamente possível de Cabo Verde.
Bem…e saíram. Logo no mês seguinte. Parece que então o primeiro-ministro disse que se houvesse mais um apagão se demitiria.
O primeiro-ministro até não está cá mas o ministro da Economia comentou este fim-de-semana os sucessivos apagões para dizer que não há nada a fazer. E depois pediu desculpa aos cabo-verdianos.
Eu acho isto espantoso. E olha, enquanto não descobrir como poderei adaptar uma vela ao meu computador peço-te desde já desculpa se um dia ficares para aí a falar sozinho. Eu estarei por aqui, à luz da amiga vela.

Um iluminado abraço

Fernando Peixeiro


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