A África do Sul que perdeu o norte

Caro amigo

Exageraste tu na última carta. Falei-te dos coentros mas o que queria mesmo era dizer mal dos hotéis do Sal. E tu passas-te por isso como gato por salada e achaste que ando por aqui morto de saudades. Pois descansa que eu, nisso de saudades, sou pouco português. E aqui vende-se salsa, coentros, orégãos e tudo e tudo. Hoje podia falar-te de uma barata que me apareceu na cozinha ou da explosão racista na África do Sul.
Podia. Da barata porque me faz confusão que essas senhoras, casa a estrear, já andem por aqui sem que ninguém lhes tivesse pedido opinião. No outro dia, imagina, vi uma no saco de cebolas que me preparava para comprar. Chegam-nos nas compras, as porcas.
E de caminho, por falar em coisas porcas, gostava de ouvir a tua opinião sobre a violência xenófoba na África do Sul. Aquilo não podia acontecer pois não? Andam há 15 dias a enxotar pessoas só porque não são do país deles, andam há 15 dias a incendiar casas, a destruir bens, e a matar gente. Parece que pelo menos 50. E esses são os que sabem. Sem falar das 20 mil pessoas que tiveram de fugir de casa.
Imagina lá tu que agora, aí, se juntavam grupos de portugueses desempregados e começavam a desancar brasileiros, romenos, ucranianos, cabo-verdianos… Faria algum sentido? No mínimo Portugal era apontado pelo mundo inteiro como um país horrível e os portugueses como os energúmenos-mor.
Não foi bem assim mas ontem o presidente sul-africano, Thabo Mbeki, disse, e com razão, que os ataques contra os imigrantes africanos são uma desgraça e uma vergonha.
“Esta violência criminosa manchou a imagem da África do Sul, os actos vergonhosos de alguns mancharam a imagem da África do Sul”, disse o homem. Ah pois! Eu digo-te, se fosse sul-africano andaria agora de cabeça baixa e rabo entre as pernas.
Então aquela gente já se esqueceu do que sofreu para ser um país livre? Já se esqueceu do racismo? Do apartheid? De Nelson Mandela? De Frederik de Klerk? Do massacre de Sharpeville? Dos anos que o Congresso Nacional Africano andou na clandestinidade? Da revolta do Soweto, em 76, que custou a vida a mais não sei quantos jovens? Dos anos de ferro de Botha?
O que é que eles queriam nessa altura? Aquilo que negam agora aos que estão a expulsar. Uma vida digna, com segurança, com direitos iguais, com direito ao trabalho, a um salário, a ter comida, uma cama à noite para se deitarem, sem medos, sem fome, sem dor, sem racismo, sem divisões, sem ódios, sem inseguranças, sem discriminação, e se possível felizes.
Thabo Mbeki, ontem falava disso quando disse aos sul-africanos que não deveriam de esquecer algumas coisas e uma delas era a sua própria luta de libertação.
A violência, avisou, está a manchar a reputação de homens como Nelson Mandela, “que sempre perceberam que são locais e continentais” e que nunca aprovariam “esta selvajaria”. “Devemos estender a mão amiga aos nossos visitantes estrangeiros que não são mais do que seres humanos como nós”, concluiu Mbeki.
Ora nem mais. E os sul-africanos deveriam lembra-se disso, mais do que muito boa gente por aí.
A sério. Dá-me raiva. Como as porcas das baratas que já me descobriram aqui, apesar de sair todos os dias de casa de óculos escuros. Mas para estas, ao menos, há solução.

Um abraço

Fernando Peixeiro