800 milhões de pessoas
Publicado por Fernando Peixeiro 3 Dezembro 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
No início da semana em que vai acontecer aí, em Lisboa, a segunda cimeira Europa-África venho, pela primeira vez, falar-te do assunto. Já me referiste algumas vezes, a presença de não sei quantos ditadores, e estou farto de ler sobre a ida ou não de Robert Mugabe a Portugal. A verdade é que no tempo que demoras a ler isto mais uns milhares de pessoas morrem em África. De fome, de doenças, vítimas de guerras. Ainda não vi ninguém falar delas.
Num continente rico, com petróleo, diamantes, madeira, zonas férteis para agricultura, morre-se de fome todos os dias. É certo que há grandes problemas, grandes secas, grandes cheias, lembra-te da Etiópia ou do Sudão, na década de 80, mas não seria possível evitar, caro amigo, que neste momento, neste preciso momento em que me estás a ler, 200 milhões de pessoas estarem a sofrer com fome em África?
E que vontades serão necessárias congregar para evitar o flagelo, a catástrofe, a calamidade… enfim… faltam-me as palavras para qualificar o problema que é a propagação da Sida no continente, a principal causa de morte, com quase dois milhões de novos casos em cada ano.
A Sida mata dois milhões de pessoas por ano, infecta neste momento quase 25 milhões, é responsável por 12 milhões de órfãos. Estou só a falar de África. Estou a falar da África do Sul, com 5,5 milhões de infectados, estou a falar da Nigéria, com quase três milhões, estou a falar de Moçambique ou do Zimbabué, com quase dois milhões cada, estou a falar do Tanzânia ou do Quénia, com quase milhão e meio.
Que vontades serão necessárias para evitar que quase um milhão morra de malária em cada ano no continente africano, esse continente que é responsável por metade das mortes mundiais por meningite e por um terço das mortes por tuberculose?
E como fazer para melhorar as condições sanitárias da população? Para evitar que metade dos africanos não disponham de água potável? Para evitar tantas mortes de crianças provocadas pela diarreia e ausência de saneamento básico?
E depois, caro amigo, o que é que nós podemos fazer para parar o conflito armado na República Centro-Africana? Que dura há 10 anos? E que obriga as pessoas a deixarem as suas casas? Que obriga populações inteiras a trocar os campos de cultivo por campos de refugiados?
E como parar a crise no Darfur, Sudão, que já provocou mais de 200.000 mortos e 2,4 milhões de deslocados?
E como evitar que se repitam guerras como as do Congo? Do Ruanda? Do Burundi? Do Chade? Da Somália? Da Libéria? Da Serra Leoa? Da Etiópia? Da Eritreia? De Angola? De Moçambique? Da Costa do Marfim? Do Uganda? Do Mali? Da Guiné-Bissau?
Talvez a Cimeira do próximo fim-de-semana pudesse dar uma ajuda. E talvez nós, jornalistas, pudéssemos dar uma ajuda também. É isso que 800 milhões de pessoas esperam deles, os políticos. Esperam de nós.
De hoje a oito dias falamos. Mas não tenho muitas dúvidas de que seremos os primeiros a defraudar essa gente, ao limitar-nos a dar-lhes um punhado de notícias sobre cada passo, cada espirro, cada gesto, de Robert Mugabe.
Da Cimeira, aposto, ficará isso: a passagem de Mugabe por Lisboa, a tenda de Kadafi, as frases mais truculentas de um ou outro dirigente, o fait-divers, o acessório. Porque o futuro de 800 milhões de seres, esse, vai passar-nos ao lado.
Um abraço
Fernando Peixeiro



Meus amigos,
O problema é mesmo esse: faltam as vontades. Mas não é só em África. E esse esse o grande flagelo, a enorme calamidade mundial - a falta de vontades.
E porquê? Porque não dá jeito. Porque dá trabalho olhar para fora dos quintais. Porque as fortunas pessoais se sobrepõem ao bem estar comum.
Deixo-vos uma história, ilustrativa.
Cenário: Final de Domingo, entrada de um supermercado, na Lapa. Último dia da Campanha do Banco Alimentar Contra a Fome.
Personagens: Eu e uma “tia”, professora de Moral num colégio XPTO, Carérrimo, da zona. As duas como voluntárias do BAlimentar. Ela a distribuir os sacos, eu nos transportes, entre supermercados e o armazém.
Diálogo:
“Tia” (não se esqueçam do sotaque): então, como estão a correr as coisas este ano?
Eu: Muito bem.
“Tia”: Ai, ainda bem. Há muita fome em Portugal, não acha?
Eu: A situação é pior, mais grave. Não é só fome. Há muita miséria, muita miséria humana.
“Tia”: Pois. Hoje tive uma sorte, consegui estacionar o carro aqui pertinho.
Beijos aos dois