Quero tê-los mas não os quero ver
Publicado por Fernando Peixeiro 19 Outubro 2007 em Cabo Verde.
Caro amigo
Há coisas às quais não damos grande importância até as perdermos. Em Portugal, nos últimos anos, desinteressei-me da televisão, ainda que tivesse à escolha meia centena de canais. Aqui tenho, com muito má qualidade de imagem, a RTP-África e a TCV, televisão de Cabo Verde. E agora confesso que sinto inveja quando me falas desses canais que passam por aí.
O ser humano tem coisas estranhas. Em vésperas de vir para Cabo Verde dizia-me uma amiga que estava triste porque iria ficar muito tempo sem me ver. Respondi eu que nem seria tanto assim, porque iria a Portugal pelo menos três vezes por ano e que, na verdade, aí em Lisboa, estávamos que tempos sem nos encontrar, às vezes um semestre inteiro.
É verdade, mas se estás cá sei que te posso encontrar quando quiser. Posso estar um ano sem te ver, mas sei que podemos encontrar-nos em qualquer momento, mas se estás longe já é diferente. Respondeu ela.
Passa-se um pouco comigo em relação à televisão. Sinto falta dos meus 50 canais. Se calhar não era para os ver, era simplesmente para os ter. Sentir-me-ia reconfortado saber que eles estavam lá, ainda que depois não lhes desse qualquer importância.
E depois, como por aqui quase toda a gente sintoniza em casa a SIC e a TVI, fico cheio de inveja por não ter acesso a esses canais, se calhar porque moro numa zona ribeirinha da cidade, onde o sinal de televisão é mais difícil de sintonizar.
Por isso, confesso-te, estou cansado da RPT-África e da TCV. A televisão de Cabo Verde faz-me lembrar a “nossa” RTP de há 30 anos. Abre às seis da tarde com o Sítio do Pica-Pau Amarelo, um documentário sobre a natureza e uma série brasileira, New Wave. Às 20:00 são as notícias e a seguir a telenovela, também brasileira. O problema vem a seguir, quando já não há programas para exibir e se recorre à música. Estou farto de tanta morna e coladeira, estou farto de tanto teledisco. É assim a TCV. Às 23:00 dão as últimas notícias, um resumo do noticiário das 20, e fecha a emissão. Aos fins-de-semana passa um filme e lá de vez em quando transmitem uma série. Já deram “Viúvas” e “Modelo e detective”. Por este andar qualquer dia estarei a rever “O barco do amor” ou o “Verão azul”, e com um bocadinho de sorte o “Espaço 1999” ou “O caminho das estrelas”.
Depois há a TV5-Afrique, uma espécie de RTP-África mas para a comunidade francófona. Tem uma preocupação de divulgar a língua francesa bem visível quando transmite filmes franceses legendados em francês. A RTP-África ainda não reparou como isso poderia ser útil mas a verdade é que também não transmite filmes portugueses. Prefere debates chatos e compridos, como a espada de D. Afonso Henriques, sobre as relações culturais entre a Galiza e o Norte de Portugal. Imagino que é tema que interessa a todo este continente.
E poderia ainda falar-te da Tiver, uma televisão privada aqui de Cabo Verde, que arrancou recentemente, ou da brasileira Record, que tem uma emissão para o arquipélago. Poderia se os sintonizasse lá em casa.
É por isso, também por isso, que estou mortinho para mudar para uma casa com antena parabólica. Assim já terei montes de canais e o prazer de não ver nenhum.
Um enfastiado abraço
Fernando Peixeiro



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