Caro amigo

Há coisas às quais não damos grande importância até as perdermos. Em Portugal, nos últimos anos, desinteressei-me da televisão, ainda que tivesse à escolha meia centena de canais. Aqui tenho, com muito má qualidade de imagem, a RTP-África e a TCV, televisão de Cabo Verde. E agora confesso que sinto inveja quando me falas desses canais que passam por aí.
O ser humano tem coisas estranhas. Em vésperas de vir para Cabo Verde dizia-me uma amiga que estava triste porque iria ficar muito tempo sem me ver. Respondi eu que nem seria tanto assim, porque iria a Portugal pelo menos três vezes por ano e que, na verdade, aí em Lisboa, estávamos que tempos sem nos encontrar, às vezes um semestre inteiro.
É verdade, mas se estás cá sei que te posso encontrar quando quiser. Posso estar um ano sem te ver, mas sei que podemos encontrar-nos em qualquer momento, mas se estás longe já é diferente. Respondeu ela.
Passa-se um pouco comigo em relação à televisão. Sinto falta dos meus 50 canais. Se calhar não era para os ver, era simplesmente para os ter. Sentir-me-ia reconfortado saber que eles estavam lá, ainda que depois não lhes desse qualquer importância.
E depois, como por aqui quase toda a gente sintoniza em casa a SIC e a TVI, fico cheio de inveja por não ter acesso a esses canais, se calhar porque moro numa zona ribeirinha da cidade, onde o sinal de televisão é mais difícil de sintonizar.
Por isso, confesso-te, estou cansado da RPT-África e da TCV. A televisão de Cabo Verde faz-me lembrar a “nossa” RTP de há 30 anos. Abre às seis da tarde com o Sítio do Pica-Pau Amarelo, um documentário sobre a natureza e uma série brasileira, New Wave. Às 20:00 são as notícias e a seguir a telenovela, também brasileira. O problema vem a seguir, quando já não há programas para exibir e se recorre à música. Estou farto de tanta morna e coladeira, estou farto de tanto teledisco. É assim a TCV. Às 23:00 dão as últimas notícias, um resumo do noticiário das 20, e fecha a emissão. Aos fins-de-semana passa um filme e lá de vez em quando transmitem uma série. Já deram “Viúvas” e “Modelo e detective”. Por este andar qualquer dia estarei a rever “O barco do amor” ou o “Verão azul”, e com um bocadinho de sorte o “Espaço 1999” ou “O caminho das estrelas”.
Depois há a TV5-Afrique, uma espécie de RTP-África mas para a comunidade francófona. Tem uma preocupação de divulgar a língua francesa bem visível quando transmite filmes franceses legendados em francês. A RTP-África ainda não reparou como isso poderia ser útil mas a verdade é que também não transmite filmes portugueses. Prefere debates chatos e compridos, como a espada de D. Afonso Henriques, sobre as relações culturais entre a Galiza e o Norte de Portugal. Imagino que é tema que interessa a todo este continente.
E poderia ainda falar-te da Tiver, uma televisão privada aqui de Cabo Verde, que arrancou recentemente, ou da brasileira Record, que tem uma emissão para o arquipélago. Poderia se os sintonizasse lá em casa.
É por isso, também por isso, que estou mortinho para mudar para uma casa com antena parabólica. Assim já terei montes de canais e o prazer de não ver nenhum.

Um enfastiado abraço

Fernando Peixeiro


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