22 arquipélagos que se afundaram no mar
Publicado por Fernando Peixeiro 15 Outubro 2007 em Cabo Verde.
Caro amigo
Arriscava-me a dizer que em Cabo Verde a falta de bananas causa mais problemas do que a sua existência. Estou a escrever-te num dia em que, por acaso, choveu, mas é a seca intensa e prolongada que torna este país dependente do exterior em quase 80 por cento. Aqui não são as cascas de banana que matam. A principal causa de morte tem um nome apenas, chama-se “desconhecida”.
Parece estranho, num Cabo Verde que em Janeiro próximo vai entrar para o grupo dos países de desenvolvimento médio, que se esteja ainda nesta situação. Mas é verdade! Segundo um relatório do ano passado desconhecem-se as causas da maior parte dos óbitos, o que revela uma grande carência em termos de meios de diagnóstico.
Provavelmente porque aqui só há dois hospitais centrais, um na Praia e outro no Mindelo, pelo que as pessoas que morrem nas outras ilhas, ou em pequenas aldeias, não chegam a ter acesso aos mais modernos meios, não fazem análises ou radiografias ou todos esses exames que hoje são comuns.
É certo que há um sistema de transporte de doentes inter-ilhas, e também, em casos mais graves, de doentes para Portugal (serviço público, como julgo existe aí em relação à Madeira e Açores), com todos os sacrifícios que isso acarreta.
Imagina, caro amigo, que uma pessoa que precise de fazer hemodiálise não pode viver em Cabo Verde, porque pura e simplesmente não há esse serviço aqui (embora esteja prometido). Então o que lhe acontece? É simples. Tem de ir viver para Portugal.
A dependência em termos de médicos do exterior é também enorme. Eu já tive de ir cá ao médico e foi um cubano que me atendeu. E parece que em algumas especialidades a totalidade dos médicos que exercem são estrangeiros.
Mas já que estou neste assunto, e sem querer maçar-te muito, ficas também a saber que as três primeiras causas (conhecidas) de mortalidade aqui no arquipélago são as que resultam de traumatismos/envenenamentos, de tumores malignos e de doenças cérebro-vasculares.
E ao facto de os traumatismos estarem à frente não serão alheios os acidentes rodoviários, porque aqui conduz-se muito mal, como já te disse algumas vezes.
Mas… e a Sida, estarás tu a perguntar-te a esta hora. É certo que a propagação do vírus é responsável pela maioria das mortes em África, mas em Cabo Verde, felizmente, a prevalência ronda os 0,5 por cento.
Não tenho conhecimento de nenhum caso de Sida em crianças aqui neste país, mas foi o vírus que matou no ano passado, em todo o mundo, 290 mil crianças com menos de cinco anos.
É mau. Mas se pensarmos que no ano passado, em todo o mundo e segundo a UNICEF, morreram 9,7 milhões de crianças com menos de cinco anos…É um país como Portugal a morrer. Ou 22 Cabo Verdes onde só viviam crianças que se afundaram no mar. Há estatísticas terríveis não há?
Um vivo abraço
Fernando Peixeiro



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