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Enamoramentos

Pândego Fernando,
gosto muito dos dias e perco-me pelas noites, mesmo quando são curtas. É bom sair quando o escuro já domina e ir por aqui sentir o viver, a pacatez animada, onde se passa o tempo da melhor forma que se pode, porque ele não falta, porque não é preciso correr atrás da vida, porque ela vem ter connosco. Gosto daquela meia-luz, em que se vê o que é importante e nada mais.

Memorado Fernando,
acontece-me quase sempre no final de Agosto. Gosto de vir para esta casa simples, que é dos meus. Calmaria completa, embora a estrada nacional fique a menos de 100 metros. Ninguém por baixo, ninguém por cima, raros carros na rua. Só que do outro lado do asfalto que liga Lisboa ao Algarve há uma herdade com um abastado rebanho de vacas. E é sempre em Agosto que oiço o que não quero, pois sempre por esta altura tiram os vitelos às mães. Sabes o que isso significa?

Instantâneos

Distendido Fernando,

as férias não proporcionarão os melhores motivos para escrever. A mim, assaltam-me as ideias nos momentos, mas depois esvaiem-se na hora de as transmitir. Quando não é logo ali, sem algo onde alinhavar aqueles arrelampamentos, lá se vai a ideia banal que parecia genial. Por essas e por outras, deixo-te alguns “quadros” de que pude usufruir nos últimos dias.

Um ilustrado abraço.

António Martins Neves

Refastelado Fernando,

quando começou a guerra na Geórgia fui aqui à estante reler o que escrevera sobre aquele país o falecido grande repórter Ryszard Kapuscinski no livro “O Império” quando por lá passou em 1967, em pleno vigor da depois extinta União Soviética. Lembrava-me que o destaque principal era sobre a forma como os georgianos faziam conhaque. Esquecera-me do pormenor de que a célebre aguardente - nascida por aquelas bandas do Cáucaso (é a bebida nacional na vizinha Arménia), onde a humanidade também deu os primeiros passos – é avessa a agitações e violências.

Distendido Fernando,

ouvi uma mulher a chorar em directo na televisão.Telefonou para um daqueles programas de desabafos que se chamam sugestivamente Opinião Pública e lavou-se em lágrimas. Disse que era brasileira e estava num farrapo. O assalto a um banco em Lisboa realizado por conterrâneos agravaram-lhe ainda mais o sentimento de segregação que já vinha sentindo pelo sotaque. É assim que se vive na União Europeia, no século XXI. E muito pouca gente se importa. Acho que a maioria até elogia, a avaliar pelo que se lê na Internet.

Veraneante Fernando,

amor, duas bicicletas e uma espécie de tenda. Isso mesmo: uma receita diferente da habitual, mas que apresenta resultados surpreendentes: o casal andou quatro anos nas máquinas de pedalar, que resistiram admiravelmente e tudo se prolongou por longos 38 mil quilómetros. Começou na Suiça e acabou na Tailândia.

Descansado Fernando,

ficou-me aquele matraquear para a vida. Depois de um dia exaustivo de viagem e das malas arrumadas, o mundo virava e eu podia ver outra página. Logo ao acordar. Os cascos  dos burros, das mulas, um cavalo ou outro, que desfilavam ali à frente do quintal, rente ao muro de pedra. Ainda o sol não se tinha erguido e já a vida desfilava ali nos meus ouvidos. Era só vestir-me a correr e observar as pessoas a rumarem lentamente à procura da vida, que veria depois em cima daquelas lombadas no regresso, quando o calor já apertava.

Fernando,

a Marisa Serafim mandou-nos esta carta da Guiné-Bissau. Aqui a deixo. Vais gostar.

Vivido Fernando,
arrisco que também bebeste laranjadas quentes. Sei que já nem há tal bebida e abundam os frigoríficos, mas esse espírito acutilante formou-se no tempo em que predominavam aquelas bebidas amareladas e as baixas temperaturas eram mais garantidas por um poço do que pela electricidade. Ocorreu-me isto tudo há dias quando passei num local daqueles que não deixam marcas mas ficam registados na memória. Porque bebi lá laranjadas quentes.

Espantado Fernando,
o meu silêncio tem uma justificação muito simples: não foi nenhuma âncora que arrancou o cabo que leva e trás esta correspondência, também não faltou a luz por carência de combustível para geradores que não existem, mas tudo se resumiu a confiar nas novas tecnologias que depois falham assim como as notas falsas. Quando estamos a contar com elas afundam-nos, arrasam-nos a reputação, empurram-nos para a cadeia… um chorrilho de desgraças. Descansa que não me aconteceu tudo isto, mas quase podia.




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