<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Atlântico expresso &#187; António Martins Neves</title>
	<atom:link href="http://atlantico-expresso.net/author/antonio-martins-neves/feed" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://atlantico-expresso.net</link>
	<description>Um mar de palavras e memórias</description>
	<lastBuildDate>Wed, 07 Jul 2010 08:26:41 +0000</lastBuildDate>
	<generator>http://wordpress.org/?v=2.9.2</generator>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
			<item>
		<title>Parti a caneta</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/portugal/parti-a-caneta/2010/02</link>
		<comments>http://atlantico-expresso.net/portugal/parti-a-caneta/2010/02#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 09 Feb 2010 08:00:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://atlantico-expresso.net/?p=1044</guid>
		<description><![CDATA[Resistente Fernando,
parti a caneta. Isso mesmo: escapou-se-me das mãos e foi direitinha ao chão de mármore do pátio da entrada. O aparo abriu-se, arreganhado, e nunca mais foi capaz de deixar sair um gatafunho que fosse. Não foi coisa recente. Há já uns meses que deixei de tomar notas com aquela vulgar caneta. Continuo a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Resistente Fernando,<br />
parti a caneta. Isso mesmo: escapou-se-me das mãos e foi direitinha ao chão de mármore do pátio da entrada. O aparo abriu-se, arreganhado, e nunca mais foi capaz de deixar sair um gatafunho que fosse. Não foi coisa recente. Há já uns meses que deixei de tomar notas com aquela vulgar caneta. Continuo a registar no papel, mas não é a mesma coisa. O que me consola é que ela vai voltar a exercer. Com um aparo novo. Telefonaram-me há dias a dizer: “A sua caneta vai ser reparada. Está na Suíça…”.<br />
<span id="more-1044"></span>Garanto-te que não é nada do que estás a congeminar. Não se trata de nenhum avião nem nenhum carro topo de gama com função acessória de escrever. É um discreto instrumento de escrita que me custou umas escassas dezenas de euros num sábado à tarde num centro comercial. Tem um depósito de tinta que deve ser abastecido de quando em vez para manter a eficácia, é leve, macia, desliza (deslizava) bem e afeiçoei-me a ela como quando simpatizamos com pessoas que conhecemos por acaso e de quem nos tornamos amigos. Caiu-me da mão um dia à noite quando repetia para enésima vez a frase que escrevo na correspondência que continua a chegar cá a casa em nome do antigo inquilino: “Destinatário desconhecido nesta morada”. Não faço ideia quem seja, mas há um banco que não pára de lhe escrever, mesmo recebendo de volta as cartas que deixo à disposição do carteiro. As mãos ocupadas, sacos, papéis, confusão e deixei cair a minha caneta preta. E tinha que ser logo com o aparo para baixo. Tem que levar um novo. Já me disseram que sim senhor, que teve que ir para a fábrica, imagina, só lá lhe podem pôr um aparo. Que seja. Quero-a de volta.<br />
Voltei às esferográficas de sempre, mas, insisto, não é a mesma coisa. É um escrever por escrever, um anotar porque tem que ser, a letra nem sai como antes, parece a de outro. E não tenho explicação. A não ser que tenha havido algum retrocesso ao tempo da escola primária, há quase 40 anos atrás. As esferográficas Bic eram então uma modernice e a professora era extremamente conservadora. Não senhor! Escrever tem que ser com caneta de aparo. E foi assim que arrumei as primeiras letras. Era uma caneta preta e verde, com um fole que se apertava e se largava depois de mergulhar o aparo no tinteiro. O sorvo enchia o depósito e lá saíam aquelas letras redondas, aquela escrita diferente de todos, numa altura em que ninguém imitava ainda as letras de forma batidas pelas máquinas de escrever, nem havia quem colocasse bolas em cima dos is.<br />
Mas agora, e garanto-te que não  é capricho, escrever com uma qualquer esferográfica é assim como trocar umas botas confortáveis por uns chinelos de enfiar no dedo quando se viaja de transporte. Percorre-se a mesma distância, mas há sempre um desconfortozinho, aquele incómodo causado pela falta de aconchego. Perde-se o andar firme, dão-se passos porque é preciso. É o que me tem sucedido, Fernando. Claro que, quanto a escrever mesmo, em definitivo, no trabalho, dispensam-se canetas, esferográficas ou lápis. Basta bater com os dedos nas teclas que saem as letras iguais, todas certinhas, indiferentes. O normal portanto. Mas tem-me acompanhado este frio de meter a mão no bolso interior esquerdo do casaco e não estar lá a caneta. Mas, só por aquela senhora da loja me ter telefonado a dizer que dentro de dias me deverá contactar a avisar que já chegou a caneta, até me sinto mais animado e olho aqui para os caracteres com outro ânimo.<br />
Um renascido abraço.<br />
António Martins Neves</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;">
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://atlantico-expresso.net/portugal/parti-a-caneta/2010/02/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Coitada da Manuela&#8230;</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/portugal/coitada-da-manuela/2008/11</link>
		<comments>http://atlantico-expresso.net/portugal/coitada-da-manuela/2008/11#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 14 Nov 2008 09:30:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://atlantico-expresso.net/?p=698</guid>
		<description><![CDATA[Precavido Fernando,
não te quero alarmar nem deixar indisposto, mas se o PSD voltar ao governo e por vontade da sua actual líder a nossa profissão vai desaparecer. Vão ser os políticos que vão decidir o que se publica sobre si nos jornais, nas rádios e nas televisões. Informar vai passar a ser uma tarefa deles. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/manuelaferreiraleite3.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-699" title="manuelaferreiraleite3" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/manuelaferreiraleite3-299x300.jpg" alt="" width="299" height="300" /></a>Precavido Fernando,<br />
não te quero alarmar nem deixar indisposto, mas se o PSD voltar ao governo e por vontade da sua actual líder a nossa profissão vai desaparecer. Vão ser os políticos que vão decidir o que se publica sobre si nos jornais, nas rádios e nas televisões. Informar vai passar a ser uma tarefa deles. Diz Manuela Ferreira Leite que a sua mensagem não passa, a culpa é dos jornalistas, portanto&#8230;mate-se o mensageiro. Onde é que eu já ouvi isto, Fernando?<br />
<span id="more-698"></span>“Não pode ser a comunicação social a seleccionar aquilo que transmite”, disse a presidente do maior partido da oposição. Muito bem! Podia ter acrescentado que a partir de agora vai ser um de nós a determinar o sermão do padre, a fazer os programas dos partidos, o sapateiro passará as receitas no lugar do médico, o veterinário construirá as pontes&#8230;Ridículo? Nããã!!<br />
É dos livros que quando os políticos culpam os jornalistas pelo seu fracasso é porque estão verdadeiramente perdidos. Estão atolados, a culpa é exclusivamente sua, mas como não têm a coragem de o assumir, a culpa é da imprensa. Receita fácil, mas que já não colhe em lado nenhum. Ouvi uma vez, numa roda de conversa, um antigo e destacadao dirigente do PS assumir que ataques feitos pelos socialistas à imprensa tinham sido a última escapatória para o que não tinha escapatória possível. Os falhanços eram exclusivamente da responsabilidade deles, mas como não podiam assumir, dizia ele, lá alijaram a carga para os culpados do costume, os jornalistas.<br />
Manuela ferreira Leite, que eu acho ter chegado a líder do PSD empurrada pela imprensa que levou o actual Presidente da República ao Palácio de Belém, deve ter-se inspirado em antecessores seus e em quem dizem ser o seu ideólogo.<br />
Como te deves recordar, quando Cavaco Silva era primeiro ministro e o ex-presidente do PSD Luís Marques Mendes ministro com a tutela da RTP, dizia-se que o alinhamento do telejornal da RTP ia a despacho ao seu gabinete diariamente. Pela mesma época, José Pacheco Pereira, o intelectual sobrevivente de serviço no PSD que estava na liderança da bancada parlamentar (maioritária) do mesmo partido, teve a ideia peregrina de dar as “notícias” apenas à boa imprensa, aos jornalistas parlamentares que se “portassem bem”. E quis impedir a livre circulação da imprensa pelos corredores da Assembleia da República. Resquícios estalinistas que lhe ficaram e ainda parecem sobreviver.<br />
O fim disto tudo já se está a ver: o PSD vai rebolar aos trambolhões até ao fundo do abismo, a culpa vai ser nossa, dos jornalistas, Sócrates arrisca-se a ver a maioria absoluta renovada, iremos sobreviver, mas no lodaçal que aí está e&#8230;pronto! Ah, e Manuela Ferreira Leite já tem desculpa para ser humilhada. Não digas que não te avisei, Fernando!</p>
<p>Um abraço independente.<br />
António Martins Neves</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://atlantico-expresso.net/portugal/coitada-da-manuela/2008/11/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Aventura, desconhecido, coisas novas</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/portugal/aventura-desconhecido-coisas-novas/2008/10</link>
		<comments>http://atlantico-expresso.net/portugal/aventura-desconhecido-coisas-novas/2008/10#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 31 Oct 2008 11:25:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://atlantico-expresso.net/?p=672</guid>
		<description><![CDATA[Viajante Fernando,
recordas-te de te ter falado daquele casal que atravessou meio mundo de bicicleta, indo da Europa até à Ásia em quatro anos e percorrendo 38 mil quilómetros, quase os cerca de 40 mil que tem de perímetro a Terra no Equador? Como prometera, volto à epopeia. Fiquei cá com a pulga e consegui a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/sri-lanka.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-680" title="sri-lanka" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/sri-lanka-198x300.jpg" alt="" width="277" height="419" /></a>Viajante Fernando,<br />
recordas-te de te ter <a href="http://atlantico-expresso.net/portugal/amor-duas-bicicletas-e-uma-tenda/2008/08">falado</a> daquele casal que atravessou meio mundo de bicicleta, indo da Europa até à Ásia em quatro anos e percorrendo 38 mil quilómetros, quase os cerca de 40 mil que tem de perímetro a Terra no Equador? Como prometera, volto à epopeia. Fiquei cá com a pulga e consegui a “morada” deles. Escrevi-lhes, e muito amavelmente esclareceram-me algumas das dúvidas que continuava a alimentar depois de ler o livro onde relatam a odisseia. E sabes que mais? Se não lhes tivessem nascido dois filhos, a esta hora andariam a pedalar devagar pelo mundo&#8230;<br />
<span id="more-672"></span>Primeiro, vou já dizer-te qual a “receita” de João e Valérie para andarem assim pelo mundo, em cima de duas rodas:  “É preciso gostar muito de aventura, do desconhecido, de ver e viver coisas novas”. “O mais difícil é pôr o pé na estrada” imagina!  “Tudo o resto, dormir o que calha, comer o que aparece, pedalar, passa a ser o &#8216;normal&#8217; dia-a-dia” e conseguir “pôr os hábitos de lado”: “Não ter medo de ficar muitos dias sem tomar banho, não ter café depois das refeições, comer sopa ao pequeno almoço”. Quis também saber o que lhes vem primeiro à cabeça quando recordam os quase 1500 dias de aventura. Dois sonhos antigos, dizem-me. Ela a chegada a Lassa, a capital do Tibete, ele a viagem que fizeram num navio cargueiro entre o Bangladesh e Singapura.<br />
Mas como andar assim com a casa em cima de uma bicicleta causa os seus amargos de boca, o português e a helvética também me confessaram quais os momentos mais aflitivos. O pior de Valérie ocorreu-lhe na China, quando ficaram numa pensão sem aquecimento e a temperatura era de zero graus. Pediram algo com que se pudessem aquecer e  levaram-lhes um balde com carvão. Deitaram-lhe fogo para fazer brasas e debruçaram-se sobre elas, única forma de sentirem o calor. Já imaginas o que aconteceu. Os gazes tóxicos libertados pela combustão do carvão fizeram-na desmaiar, mas quando João pediu socorro apareceram cinco chineses aflitos que resolveram a questão tirando o balde do quarto. “Tive a sensação que ia morrer”, confessa agora.<br />
Foi mera coincidência a má memória com que João ficou quando chegou a Diu, um dos territórios indianos administrados por Portugal até a Índia nos ter expulsado de lá na década de 50 do século passado. Uma dor associada a uma mancha vermelha numa perna teimavam em atormentá-lo já havia um mês, de tal modo que pensava já que teria de voltar para casa. “Esse pensamento deixava-me aterrorizado”, contou-me ele. Afinal, era só líquido linfático infectado que desapareceu com uns vulgares antibióticos.<br />
Quis também saber que país, povo, civilização mais os tinha fascinado: “Assim, de repente, a civilização indiana. Um mundo completamente à parte. Pela diversidade, pelo misticismo, pela junção de crenças, de etnias, de povos, de línguas etc. A variadade de acontecimentos singulares numa cidade é fascinante, como por exemplo em Nova Deli, ver macacos a passear, ou vacas a comerem plásticos na rua, manadas de búfalos a irem sozinhos para casa, dentistas na esquina de um prédio, etc. O facto de muitos animais serem deuses e serem tratados como tal, elefantes no meio de avenidas montados por um homem. É uma lista sem fim, um filme autêntico do qual não conseguimos despregar os olhos” a que acrescantam ainda “as minorias no montanhoso noroeste do Vietnam. Em cada vale que passávamos víamos uma minoria diferente com vestidos originais” e “os tibetanos pela crença ardente em Buda e no seu Dalai Lama”.<br />
Ciclista desencartado que sou, também quis matar a curiosidade sobre as máquinas: “Consumimos 15 pneus. No fim só o quadro era o mesmo o resto tinha sido tudo mudado. Em Singapura fomos à  fábrica de Shimano que, ao ver o que andávamos a fazer, ofereceu-nos material novo e montou-o nas nossas bicicletas. Furos tivemos mais de 100, muitos na China pela falta de bons pneus. Em Macau conhecemos um português, Luis Filipe, que nos tranformou a bicicleta com bom material e me deu uma grande lição de mecânica”. E já agora saber a ideia que tinham ficado sobre a forma de deslocação escolhida: “Para nós é um meio de transporte. Mas, se não tivesse filhos e voltássemos à estrada, não hesitávamos em escolher outra vez a bicicleta como meio de transporte. Par nós é um meio não &#8220;o&#8221;, mas é o melhor. Indo devagar, &#8220;vai rápido&#8221; e muito longe sem despesa de energia. É ecológico e quer queiramos quer não deixa-nos numa forma física excelente. Pela minha experiência e conhecimento de outros ciclistas viajantes, viajar de bicicleta, é, simplesmente viciante. Afinal, quase que poderia dizer que é &#8220;o&#8221; meio de transporte!”.<br />
Saudades? Pelos vistos, muitas! “Continuamos a andar frequentemente de bicicleta, continua a fazer parte do nosso dia a dia e das nossas vidas.”<br />
E agora senta-te, Fernando. O que disseram antes e escreveram no livro fica tudo ainda mais claro com o que vem a seguir. “Por enquanto não temos nenhuma viagem programada, temos muitos sonhos, mas tanbém temos dois filhos que adoramos e com os quais fizemos uma pequena viagem de um mês a Marrocos”. Estamos entendidos!.</p>
<p>Um abraço cheio de pedalada.<br />
António Martins Neves</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://atlantico-expresso.net/portugal/aventura-desconhecido-coisas-novas/2008/10/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A vida sem uma mousse</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/portugal/a-vida-sem-uma-mousse/2008/10</link>
		<comments>http://atlantico-expresso.net/portugal/a-vida-sem-uma-mousse/2008/10#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 26 Oct 2008 09:30:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://atlantico-expresso.net/?p=657</guid>
		<description><![CDATA[Guloso Fernando,
estava eu confrontado com um arroz de pato quando ouvi nas minhas costas as curtas frases que me deixaram de garfo suspenso. Era uma voz feminina, quase de falsete, daquelas que parecem em agonia, a desvanecer-se, a ameaçarem deixar de se fazer ouvir a qualquer momento. Uma mistura de travo amargo, desespero e má [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-full wp-image-656" title="mousse-amarga" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/mousse-amarga.jpg" alt="" width="322" height="241" />Guloso Fernando,<br />
estava eu confrontado com um arroz de pato quando ouvi nas minhas costas as curtas frases que me deixaram de garfo suspenso. Era uma voz feminina, quase de falsete, daquelas que parecem em agonia, a desvanecer-se, a ameaçarem deixar de se fazer ouvir a qualquer momento. Uma mistura de travo amargo, desespero e má criação. Esperei um minuto que pareceu uma tarde de Inverno para ver a autora. Ainda tentei vislumbrar, disfarçadamente, por cima de um ombro e do outro, mas nada. Confesso que me agradou a breve ideia de que a boca que deixara escapar aquelas as palavras não existisse. Mas lá surgiu ela à frente de um corpo, que passou entre mim e o balcão.</p>
<p><span id="more-657"></span>“Mousse de chocolate? Nem dada! Nem se você ma oferecesse eu a comia&#8230;”, eis a frase lapidar, uma lâmina daquelas que também servem para cortar os pulsos. A proprietária do pequeno restaurante acabava de fazer uma sugestão de sobremesa e deve ter ouvido do pior que alguém pode escutar. Ai quer-me adoçar? Quer que eu coma algo que me reconforte, um doce daqueles de que toda a gente gosta? Pois tire o jumento da chuva! A mulher passou por mim e foi pagar ao balcão. Ia com outra senhora. Usava calças de ganga, uma parka, cabelo curto, grisalho, e aparentava menos de 60 anos. A voz não encaixava naquela corpo, mas tinha sido ela. A proprietária do restaurante deixou de se ouvir e deverá ficar uns meses bons a ganhar coragem para fazer uma nova sugestão de sobremesa a qualquer cliente. “Nem se você ma oferecesse eu a comia”. A rejeição, a quase repulsa contida nas oito pequenas palavras não dava margem para qualquer resposta. <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Lobo_Antunes">Lobo Antunes</a> escreveria uma belíssima crónica com uma criatura assim a fazer tricot e a ver telenovelas da TVI enquanto o marido roncava ao lado antes de ir para mais uma noite de insónia. Quem rejeita assim a doçura servida numa taça de vidro sobrevive mergulhada em azedume, em vinagre da pior espécie, feito com pó, a martelo. Como é que alguém a quem fazem uma sugestão para agradar responde com um morteiro, Fernando? Como consegue sobreviver quem vive assim? Será só da crise? Não. A crise ali tem a idade das pernas que a fazem andar. Tudo correu sempre mal. Quem é incapaz de ficar calado perante uma proposta pretensamente agradável e que afronta um gesto bonito com um condensado de repulsa que nunca testemunhei jamais teve razão para sorrir&#8230;Ia dizer na vida, mas aqui acho que se adequa mais afirmar na morte. Ali não estava quem sobrevive sequer, mas quem já desistiu, tendo como grande inimigo o corpo, que continua a resistir e a fazer andar cá pela terra um cadáver com vida. Aquela mulher não deve sequer ter naperons em cima da televisão, vasos com flores nas janelas, deve praguejar contra os pombos, estar de relações cortadas com todos os vizinhos, irritar-se com o sol, vociferar contra a chuva, abominar o vento. Nunca tal tinha ouvido, Fernando. Pois, eu não gosto de doces, mas se fosse uma frutazinha até comia, mas o colestrol e a diabetes obrigam-me a fazer dieta&#8230;Não, nada! Detesto que me sugiram algo de agradável e repugnam-me as pessoas que gostam do que quer que seja. A não ser gostar de detestar e de rejeitar. Isso é que me faz sentir menos morta. Isso e dizer que não. O resto são banalidades e coisas vulgares que me recuso a aceitar, sentimentos bons sem razão de ser. O mundo é negro e não entendo porque querem torná-lo menos deprimente, dar-lhe às vezes uns tons de azul ou até de verde.  Nem mesmo aquele castanho diarreico da mousse de chocolate é cor alternativa às trevas onde estou. Sejamos todos muito infelizes, conclui eu enquanto me esforçava por terminar o almoço.</p>
<p>Um abraço muito optimista.</p>
<p>António Martins Neves</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://atlantico-expresso.net/portugal/a-vida-sem-uma-mousse/2008/10/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Cão com sorte</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/portugal/cao-com-sorte/2008/10</link>
		<comments>http://atlantico-expresso.net/portugal/cao-com-sorte/2008/10#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 20 Oct 2008 09:30:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://atlantico-expresso.net/?p=639</guid>
		<description><![CDATA[Leal Fernando,
quando te estou a escrever estas linhas, ele deve estar a viajar com a “família” entre o Ribatejo e Lisboa, refastelado com as crianças no banco de trás. Mal abram a porta do carro, vai ser o primeiro a sair e não se vai preocupar com malas nem carrinhos. Depois de uma semana fora, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/odie.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-638" title="odie" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/odie-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a>Leal Fernando,<br />
quando te estou a escrever estas linhas, ele deve estar a viajar com a “família” entre o Ribatejo e Lisboa, refastelado com as crianças no banco de trás. Mal abram a porta do carro, vai ser o primeiro a sair e não se vai preocupar com malas nem carrinhos. Depois de uma semana fora, provavelmente vai querer matar saudades da casa e do gato. Se chegar de dia e lhe permitirem, ainda vai dar uma volta pelo bairro e rever os amigos da cidade, antes de tornar para conforto do lar. Segunda-feira lá volta à rotina. Sair de manhã e regressar apenas ao fim do dia, como fazem todos lá em casa.</p>
<p><span id="more-639"></span>Falo-te de “Odie”, um cachorro especial que conheci há poucas semanas. Não sabe o que é uma trela e devia ficar com uma depressão incurável se o amarrassem. Deixou-me fazer-lhe uma festa porque estava com os donos, o João e a Cláudia. Caso contrário que tirasse da ideia essa mania que os humanos têm de passar a mão pelo pêlo de um cão a sério. Está a meio (tem oito anos) de uma vida intensa e como quase todos nós nunca teve o destino nas mãos. Uma tragédia ia colocando ponto final a uma vida que acabou por se recompôr. Mas como nem tudo é mau na vida, a Cláudia viu o gesto assassino de quem atirou o cachorro janela fora ali para os lados do Pinhal Novo numa noite fria de Fevereiro. Para quem achar que a vida de um cão tem obrigatoriamente que ser má, “Odie” cá está para provar o contrário. Escapou daquele voo quase fatal e ganhou uma família a sério. E parece não se ter esquecido. Não é de esquisitices quando é hora de comer, gosta do campo e da cidade, de andar a pé ou de carro e nem levantou a voz quando um gato pequeno passou a viver lá em casa. Friorento como é, até aceitou dividir a cama com ele. Sem ponta de preconceito.<br />
Falemos então da rua, onde o nosso cão preto passa os dias. Na idade do atrevimento, num passeio nocturno decidiu ir descobrir mundo e no meio das trevas desapareceu em plenos Olivais. Chamaram, procuraram, esperaram e&#8230; nada. O casal conformou-se: o “Odie” desaparecera. Preparavam-se para fazer o luto quando, na madrugada seguinte, ao sair de casa, Cláudia deu de caras com o vadio. “Ah voltáste?! Então espera&#8230;”, conta-me o João ter pensado na altura. Pensou e fez. Quando saiu levou-o consigo, enfiou-se sózinho do carro e acelerou. Ele lá ficou na rua. Até hoje nunca mais levou a mal aquele gesto e aprendeu a passar os dias em liberdade, situação bem mais adequada a qualquer cão do que ficar a vida fechado num apartamento a contocer-se de bexiga cheia porque os donos têm que se esfalfar lá nos empregos e apertos de cão não são argumento que se apresente ao chefe para sair antes do trabalho concluído.<br />
O João calcula que já tenha sido atropelado dezenas de vezes e as cicatrizes não enganam. Mas se uma vida em muitos prédios e poucos jardins pode não ter segredos para um cão atrevido, também a realidade campestre pode ser dominada e usufruída. Em determinada altura a família morou no Ribatejo, onde fez amigos para a vida. Quando lá regressa, é certinho que vai reviver o passado e trocar umas lambidelas e dar umas corridas a campo aberto. Se der tempo, um silvado que emane cheiro a coelho pode ser um belo desafio e fazer até esquecer que há regresso. Aconteceu da última vez: não deu pelo tempo passar e quando voltou já os donos tinham partido. Lá ficou uma semana de “férias” com o ramo da família residente na aldeia. Sem sombra de problemas, pese embora um cão também seja atacado pelas saudades.<br />
Para quem já usufruiu de duas casas em Lisboa e deslocava-se diariamente entre uma e outra várias vezes ao dia, nada de anormal. Uma era perto da Rotunda do Aeroporto, a outra ao fundo da Avenida Marechal Gomes da Costa, depois à direita, mais umas voltas sem marear, alguns quilómetros nas patas, e pronto, chegava ao outro lar. O João diz que nunca ninguém soube como atravessava a avenida, que nem é permeável nem a um cão destemido. Provavelmente ia mesmo pelas passagens aéreas como os outros peões. Mais insólitos? Bem, uma vez trincou duas lâmpadas que apanhou a jeito e nem azia lhe fizeram. Um estômago de aço como convêm. Deixei para o fim a mais radical das experiências do cão a quem baptizaram com o nome do infeliz canídeio que teve a sina de ir morar para casa do gato Garfield. O cenário foi uma praça de vacas em Castelo de Vide. O povo juntou-se como de costume para ver e realizar umas alarvidades com umas vitelas e “Odie” deve ter achado o desafio à altura. Sem que ninguém desse por ele, desceu das bancadas, deu as voltas que era preciso e foi acolhido com uma gargalhada geral quando deu de focinho com uma vaca espavorida . Foi um agora corres tu atrás de mim, ora agora vou eu a chegar-te aos calcanhares. Uma tarde memorável, e diferente, claro está. Conta o João que ainda agora em Castelo de Vide, onde está outro ramo da família e onde também não há beco estranho, a veia tauromáquica do animal é comentada. Posto isto, deixa-me só dizer-te, antes de terminar, que nunca mais vou usar aquela triste expressão da “vida de cão”. É que alguns têm “vida de Lordie”.</p>
<p>Um canino abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://atlantico-expresso.net/portugal/cao-com-sorte/2008/10/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Um neo-nazi na valeta</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/portugal/um-neo-nazi-na-valeta/2008/10</link>
		<comments>http://atlantico-expresso.net/portugal/um-neo-nazi-na-valeta/2008/10#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 18 Oct 2008 09:31:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://atlantico-expresso.net/?p=624</guid>
		<description><![CDATA[
Liberal Fernando,
um pequeno apontamento para levar uma notícia carregada de simbolismo. Quase passou despercebido aqui e calculo que aí também. O líder da extrema-direita austríaca, Joerg Heider, morreu precisamente há uma semana num acidente de viação. A terra lhe seja leve. O que se soube depois é que o paladino da moral e dos bons [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.spiegel.de/img/0,1020,225405,00.jpg" alt="http://www.spiegel.de/img/0,1020,225405,00.jpg" width="128" height="154" /></p>
<p>Liberal Fernando,<br />
um pequeno apontamento para levar uma notícia carregada de simbolismo. Quase passou despercebido aqui e calculo que aí também. O líder da extrema-direita austríaca, Joerg Heider, morreu precisamente há uma semana num acidente de viação. A terra lhe seja leve. O que se soube depois é que o paladino da moral e dos bons costumes conduzia perdido de bêbado quando se despistou.</p>
<p><span id="more-624"></span>Não podia deixar passar este folhetim em claro. Soube das circunstâncias da morte nos cinco parágrafos que o jornal Público lhe dedicou na quinta-feira. O auto-intitulado modelo de conduta, como todos os neo-fascistas aliás, que se achava superior e odiava os emigrantes que ajudaram a transformar a Áustria no  grande país onde ele queria mandar, morreu como sempre viveu: sem honra. Sucumbiu na valeta da estrada e da vida. Como um dos sem-abrigo que ele discriminava.</p>
<p>E não penses que uma cerveja a mais, Fernando. Tinha estado numa discoteca e sabia que ia fazer uma viagem. A autópsia, disse o presidente do partido que Heider liderou em tempos, revelou que tinha 1,8 gramas de álcool por litro de sangue. Até em Portugal dava logo detenção. Imagina na Áustria. O Público enganou-se nas contas e diz que ele tinha uma taxa de alcoolemia três vezes superior ao permitido (0,25) no país.  Não! Tinha sete vezes mais. Públicas virtudes&#8230;</p>
<p>Morreu como viveu: afogado em hipocrisia e sem o mínimo laivo de dignidade.</p>
<p>Bom fim-de-semana.</p>
<p>Um democrático abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://atlantico-expresso.net/portugal/um-neo-nazi-na-valeta/2008/10/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Os céus e as serras</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/portugal/os-ceus-e-as-serras/2008/10</link>
		<comments>http://atlantico-expresso.net/portugal/os-ceus-e-as-serras/2008/10#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 14 Oct 2008 09:20:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://atlantico-expresso.net/?p=608</guid>
		<description><![CDATA[
Aventureiro Fernando,
o Luís Nascimento, um amigo de longa data e companheiro de muitas jornadas, fez questão de me fazer chegar por estes dias um cópia de uma reportagem que fez para a rádio, onde é editor do Internacional, a  Antena 1. Ele tem aquela veia que vai escasseando. Reuniu uma das melhores agendas que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a class="alignleft" href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/chamine-algarvia1.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-609" title="chamine-algarvia1" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/chamine-algarvia1-300x230.jpg" alt="" width="300" height="230" /></a></p>
<p>Aventureiro Fernando,<br />
o Luís Nascimento, um amigo de longa data e companheiro de muitas jornadas, fez questão de me fazer chegar por estes dias um cópia de uma reportagem que fez para a rádio, onde é editor do Internacional, a <a href="http://ww1.rtp.pt/antena1/"> Antena 1</a>. Ele tem aquela veia que vai escasseando. Reuniu uma das melhores agendas que conheço, pelo que vou ouvindo (entrevista em qualquer parte do mundo quem interessa ouvir em cada momento), mas o que ainda mais o delicia é uma bela história, cheia de sons, retratos, contada pelos protagonistas. O repórter só vai dirigindo a conversa para o que importa. Não percamos, mais tempo. Aqui te deixo o <a href="http://soundcloud.com/amneves/reportagem-algarve">relato de uma travessia</a> de Verão.<span id="more-608"></span>O Luís andou pelo Algarve serrano e eu também já lá fui, porque metade de mim tem raízes naqueles cabeços de mato ressequido. Um dia, em trabalho, fui ter a uma aldeia onde sabia haver um casal  que teimava manter viva uma actividade a que mais ninguém resistia daquele modo, como há centenas, milhares de anos por ali se fazia com toda a normalidade.<br />
Melhor do que recontar é deixar aqui o que escrevi nessa altura, em Março de 2001:</p>
<p><em>Ele semeia as plantas e realiza todo o processo até a “febra” ficar pronta a dar origem ao fio. Ela trata do resto, tecendo os panos no velho tear de sempre. São o último casal que ainda realiza o ciclo completo do linho em Portugal.<br />
Aos 80 anos, Senhorinha Gonçalves e Manuel Lopes conseguem manter de pé uma actividade quase extinta mas que era vulgar há dezenas de anos no Nordeste Algarvio: semear o linho e transformá-lo em tecido, que depois é utilizado para fazer toalhas e lençóis.<br />
Trabalham ainda como no tempo em que naquela região fronteira com o Baixo Alentejo os habitantes tinham que fabricar os tecidos para confeccionar a roupa que usavam, com linho e lã.<br />
Mas, ao contrário dos restantes camponeses que ainda resistem na zona serrana do concelho de Alcoutim, o casal da aldeia de Penteadeiros nunca desistiu de produzir o linho.<br />
E se ainda há quem teça na região, embora com recurso a teares mais modernos e com objectivos exclusivamente monetários, mais ninguém semeia as plantas que dão origem depois ao fio, como ainda faz Manuel Lopes.<br />
A cultura deste ano está mesmo atrás do forno, onde ainda cozem o pão que comem.<br />
É um canteiro pequeno, com uns dez metros de lado, verdejante. “Isto é que é o linho”, explica o camponês, pegando numa planta de folhas miudinhas que se confunde com as ervas daninhas e indesejáveis que o Inverno chuvoso fez crescer abundantemente.<br />
Explica Manuel Lopes que a terra encharcada não permite mondar a sementeira, pois corria o risco de arrancar também os pés de linho quando colhesse as ervas infestantes.<br />
Contas por alto, calcula que aquela sementeira deverá depois originar, no tear, uns dez metros de tecido. “Isto é só já para a amostra”, confessa.<br />
A sementeira do linho “dá muito trabalho e eu vou estando velho”, queixa-se Manuel Lopes, cuja agilidade e desenvoltura contrariam os queixumes de quem já cumpriu oito décadas de vida.<br />
Quase em frente da casinha do forno, do outro lado da rua estreita, uma porta tão velha como a construção tem o postigo aberto. Uma espreitadela indiscreta permite vislumbrar, no espaço iluminado por uma telha de vidro no telhado, uma figura atrás de uma estrutura de madeira, cujos movimentos produzem um toc, toc espaçado.<br />
É ali, no tear, que Senhorinha Gonçalves, com o tradicional lenço florido algarvio descaído da cabeça para o pescoço, passa a maior parte dos seus dias.<br />
“Tenho amizade a isto”, justifica-se a tecedeira, menos de metro e meio de mulher a quem os anos não parecem pesar, tal como sucede com o marido. Tanto na destreza<br />
física que ainda mantêm como na ligeireza da fala e do raciocínio.<br />
Levanta-se do tear para contar a sua história, que já se tornou motivo de atracção turística na pequena aldeia onde apenas resistem menos de uma vintena de idosos.<br />
O relato revela uma história que começou por teimosia e agora se transformou numa atitude de resistência.<br />
Neta de uma tecedeira, Senhorinha começou por ter que enfrentar a oposição da avó, que não a queria ver a tecer. “Não te metas no tear, que não podes”, argumentava, aludindo à figura franzina da neta, que nunca lhe deu ouvidos e acabou por levar a sua avante.<br />
E aos 15 anos, recorda-se ainda, recebeu a sua primeira remuneração de 25 tostões por ter tecido uma manta de retalhos com cinco metros.<br />
Pouco depois de casar, a ti Senhorinha, como agora é conhecida, deu outro passo fundamental para assegurar a actividade da tecelagem: comprou um tear por 250 escudos, o mesmo onde ainda hoje, passados 55 anos, continua a produzir os panos e as mantas que vende a quem a visita e nas muitas feiras de artesanato que frequenta.<br />
Anos depois, surgiu um novo foco de resistência familiar ao trabalho no tear. Os filhos de Senhorinha e Manuel, que migraram para outras paragens, começaram a tentar convencer a mãe a abandonar o tear. Em vão.<br />
“Deixem-me cá à minha vontade”, costuma responder à insistência dos descendentes, quando a tentam convencer a arrumar o tear, alegando que “já ninguém faz isso”.<br />
Mas se a sua vontade lhe bastava para não abandonar a arte, nos últimos anos ganhou um novo argumento para continuar a tecer. Uma neta, agora com 23 anos, aprendeu a trabalhar com o velho tear, dando duas grandes alegrias a Senhorinha: tornou-se a primeira e única aprendiz da avó e assegurou a herança da máquina ancestral.<br />
O marido é que não conseguiu arranjar sucessor para a sua quota parte no processo de produção do linho, que começa com a sementeira e vai até à fiação na roca, que já é função da mulher.<br />
Ao todo, desde a sementeira até entrar no tear, o ciclo tem nada menos do que 56 fases, revela Manuel Gonçalves, cuja função na aldeia é, também, o último vestígio do motivo que levou a que o lugar fosse baptizado de Penteadeiros.<br />
Para o antigo Monte das Pereiras foi uma vez morar um artesão que fabricava pentes para teares, facto que terá levado os habitantes a passarem a designar a aldeia por Penteadeiros, recorda-se Hermínia Justa, que, aos 84 anos, é a mais idosa dos 20 residentes que restam na povoação.<br />
Mas se a desertificação é uma realidade naquela região algarvia, a persistência do “casal do linho” conseguiu dar uma notoriedade à aldeia que ela nunca teve quando antes do fluxo migratório para os centros urbanos do litoral.<br />
Senhorinha e Manuel tornaram numa espécie de embaixadores do lugar, com um currículo de viagens ao estrangeiro a expensas da arte que teimam em não abandonar.<br />
Além de uma agenda preenchidíssima com feiras e certames de artesanato por todo o país onde vão mostrar, com o apoio da Câmara de Alcoutim, uma actividade à beira da extinção, já tiveram oportunidade de se “exibir” no estrangeiro, nomeadamente na Irlanda e em Espanha.<br />
O casal começa por desvalorizar o proveito que tira da actividade, mas acaba por confessar que “sempre é uma ajuda à reforma” de 29 contos que cada um recebe. Além do prazer de viajar. Mesmo que isso implique carregar a parafernália de instrumentos necessários para mostrar a arte.<br />
Afinal, são aquelas maquinetas rudimentares que deixam espantados turistas e gente urbana a quem nunca ocorreu ao que eram obrigados os antepassados dos algarvios para se vestirem.<br />
Por isso, em vez de assumirem sozinhos o papel de viajantes, preferem distribuir os “louros” pelos instrumentos de trabalho. É com este espírito que a ti Senhorinha gosta de contar que a roda-de-fiar “já andou de avião”.</em></p>
<p>Um jornalístico abraço.<br />
António Martins Neves</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://atlantico-expresso.net/portugal/os-ceus-e-as-serras/2008/10/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Banhos</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/portugal/banhos/2008/10</link>
		<comments>http://atlantico-expresso.net/portugal/banhos/2008/10#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 10 Oct 2008 09:30:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://atlantico-expresso.net/?p=599</guid>
		<description><![CDATA[
Higiénico Fernando,
de banhos ou da falta deles também tenho uma colecção, que será seguramente mais fácil de organizar do que a tua. E não era por falta de água, mas por falta de sítio para os tomar e evitar ficar mais sujo do que já se estava. Lembraste das baratas en Díli? Era com a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a class="alignleft" href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/banhos.jpeg" target="_self"><img class="alignnone size-medium wp-image-597" title="banhos" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/banhos-276x300.jpg" alt="" width="276" height="300" /></a></p>
<p>Higiénico Fernando,<br />
de banhos ou da falta deles também tenho uma colecção, que será seguramente mais fácil de organizar do que a tua. E não era por falta de água, mas por falta de sítio para os tomar e evitar ficar mais sujo do que já se estava. Lembraste das baratas en Díli? Era com a água onde elas morriam que comecei por me lavar na capital timorense, quando lá cheguei.<br />
<span id="more-599"></span>Era preciso ir buscar uns baldes de água e depois fazer um equilíbrio circense numas pedras dentro de uma espécie de barraca para conseguir molhar o corpo, ensaboá-lo, enxaguá-lo e sair de lá menos sujo do que se tinha entrado. Na casa de banho tudo era pior. Estava semi-destruída e&#8230;vou poupar-te a pormenores. O dilema era grande. Andar sujo e suado vários dias ou passar o corpo por uma água conspurcada num local nada recomendado? Confesso que optei muitas vezes pela primeira hipótese. Era menos arriscado para a saúde. Naquele caldeirão de humidade, o efeito de um banho dura apenas enquanto se toma. Quando migrei para outro local, umas centenas de metros de distância, tudo se alterou. Ou melhor, o banho passou a ser possível com menos sacrifício, uma espécie quase de jacuzzi. Ombreava com a sensação de poder comer arroz branco ao pequeno almoço, que me sabia a acepipe por desconhecer quando viria algo mais a descer-me pelo estreito a não ser água. Havia um balde naquele paralelepípedo ao alto que os indonésios deixaram de herança e a que chamava casa de banho. Enchia-se o caldeirão de água de uma torneira e depois havia uma espécie de cacifre para a despejar pelo corpo abaixo. Lá se ganhava algum conforto no final de um dia em que se começava a suar antes da sete da manhã e nunca mais se acabava, nem a dormir debaixo daquela maldita rede que evitava o massacre dos mosquitos. Do resto tu sabes. Passou a ser possível tomar duche e essas modernices todas.<br />
Mas tudo isto é menos do que uma história que ouvi uma vez ao actual presidente da República de Timor-Leste, José Ramos-Horta. O território ainda era uma colónia portuguesa e o agora chefe de Estado, pouco mais que um adolescente já apostado na política,  um dia viajou para o lado indonésio da ilha de Timor, para a sua capital, Kupang.<br />
Estávamos no início dos anos 70 e por aquelas bandas os conceitos hoteleiros eram muito relativos. Os banhos, por exemplo. Contou Ramos-Horta que na “unidade” onde estava alojado o banho era colectivo e cumpria-se num tanque de cimento onde cabia uma pessoa de cada vez. A água só era mudada depois de todos tomarem banho. Conclusão: o último lavava-se no que os anteriores tinham deixado. Não será difícil imaginar que quando todos os hóspedes lá passavaem  a crosta que emergia da água dava para cortar com uma faca.<br />
Para remediar restava a solução porque Ramos-Horta contou ter optado: ser o primeiro a ir tomar banho. Nos dias que lá esteve levantou-se sempre antes das cinco da manhã.</p>
<p>Um limpo abraço.<br />
António Martins Neves</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://atlantico-expresso.net/portugal/banhos/2008/10/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O bandido sou eu?</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/portugal/o-bandido-sou-eu/2008/10</link>
		<comments>http://atlantico-expresso.net/portugal/o-bandido-sou-eu/2008/10#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 02 Oct 2008 09:30:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://atlantico-expresso.net/portugal/o-bandido-sou-eu/2008/10</guid>
		<description><![CDATA[Descansado Fernando,
o exclusivo das histórias insólitas não consegue ser teu. E se são reveladores esses retratos que envias daí. Mas hoje trago-te um para a troca, e acho que vais ter que te esforçar para arranjares um cromo equivalente a este para a nossa colecção: o departamento da Polícia Judiciária portuguesa que combate a maior [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.correiomanha.pt/imagedownload.aspx?schema=ca967162-b341-4feb-88dd-fecb0766bf67&amp;channel=738D42D9-134C-4FBE-A85A-DA00E83FDC20&amp;content_id=063701DF-8AD4-45CE-A4E1-989DE451F9CC&amp;field=img_detalhe_noticia&amp;lang=pt&amp;ver=1&amp;filetype=jpg" align="left" width="164" height="219" />Descansado Fernando,<br />
o exclusivo das histórias insólitas não consegue ser teu. E se são reveladores esses retratos que envias daí. Mas hoje trago-te um para a troca, e acho que vais ter que te esforçar para arranjares um cromo equivalente a este para a nossa colecção: o departamento da Polícia Judiciária portuguesa que combate a maior bandidagem que por cá existe foi assaltado por um toxicodependente solitário, que entrou lá de noite por escalonamento. Uma ocorrência com contornos inacreditáveis, anunciado em comunicado oficial. O resto do folhetim são as divergências nos relatos da Imprensa, algo que só encaixa no surrealismo em que o jornalismo daqui se está a afundar.<br />
<span id="more-591"></span>A Direcção Central de Combate ao Banditismo da Judiciária, designada de uma forma íntima pelos jornalistas “especialistas” muitas vezes apenas por DCCB aparenta ser um dos locais mais protegidos deste país. Tem uns blocos de cimento à frente que impedem a investida de viaturas, o acesso ao estacionamento inferior tem barras de ferro que parecem intransponíveis, na frontaria abundam as grades, tudo parece um bunker. Pela frente&#8230;pela rectaguarda um toxicodependente entrou lá sem grandes dificuldades numa noite destas. Casa de ferreiro, esteio de pau, no melhor pano cai a nódoa. Sobram os ditados para ilustrar um episódio destes. Inquéritos foram instaurados, o homem ficou em prisão preventiva. Da polícia “atacada” é tudo o que se sabe. Nem mais um pormenor, disseram oficialmente.<br />
Agora, vejamos os jornais do dia seguinte.  O Público, que não disponibiliza o texto na Internet, diz que o homem não fazia ideia do local onde entrou, citando uma fonte da polícia. Depois relata que ele se assustou quando chegaram as mulheres da limpeza e desatou a correr pelos corredores. Apanharam-no na rua cheio de suores e de mãos vazias. Terá conseguido apenas conseguido matar a fome com pêssegos que encontrara na secretária de um inspector da polícia.<br />
Sobre a mesma “ocorrência”, o <a href="http://www.correiomanha.pt/noticia.aspx?contentid=BF0A4796-7DB0-41D9-80A8-DFF256B7C32D&amp;channelid=00000010-0000-0000-0000-000000000010">Correio da Manhã </a>confirma que o assaltante não fazia ideia de que aquele edifício era a sede dos polícias que combatem a criminalidade mais violenta em Portugal e terá furtado três computadores portáteis e duas pistolas. Neste caso, o texto nunca cita qualquer fonte, sendo da autoria de dois jornalistas, um dos quais  da direcção do diário.<br />
O <a href="http://jn.sapo.pt/paginainicial/policia/interior.aspx?content_id=1020317">Jornal de Notícias </a>cita uma fonte da PJ e diz que alguns dos objectos roubados, sem dizer quais, foram detectados quando já estavam à venda da Feira da Ladra. Tu lês isto em três dos principais diários nacionais e acreditas em quê, Fernando? Deve ser no mesmo do que eu: fazer jornalismo assim é fácil. Ao que parece, trata-se da reprodução de fontes anónimas que dizem o que lhes convêm com a cobertura de jornalistas. Isto para ser positivo. Porque se algum dos escribas em causa  foi, porventura, confrontado com as regras básicas do jornalismo sabe que a identificação das fontes é imprescindível para credibibilzar as notícias. Contar “histórias” assim é fácil. Basta ter onde as escrever. E ter quem acredite nelas. Mas em quais? Depois queixam-se que os jornais não vendem&#8230;E os papas da deontologia, que falam apenas nos momentos que lhes convêm, ficam mudos nestas alturas. Porque será, Fernando? Será que o bandido sou eu?</p>
<p>Um deontológico abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://atlantico-expresso.net/portugal/o-bandido-sou-eu/2008/10/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Os meninos das mamãs</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/portugal/os-meninos-das-mamas/2008/09</link>
		<comments>http://atlantico-expresso.net/portugal/os-meninos-das-mamas/2008/09#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 26 Sep 2008 10:33:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://atlantico-expresso.net/portugal/os-meninos-das-mamas/2008/09</guid>
		<description><![CDATA[Remediado Fernando,
tive um professor que no final da adolescência decidiu sair de casa dos pais, assim como um navio que solta a amarra do porto para se poder fazer ao mar. Claro que não deitou contas e o que ele esperava ser um idílio começou a ganhar contornos de pesadelo. Pagar o quarto e comer [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/a-ver-a-ponte.bmp" align="left" width="330" height="290" />Remediado Fernando,<br />
tive um professor que no final da adolescência decidiu sair de casa dos pais, assim como um navio que solta a amarra do porto para se poder fazer ao mar. Claro que não deitou contas e o que ele esperava ser um idílio começou a ganhar contornos de pesadelo. Pagar o quarto e comer exigiam dinheiro que não tinha suficiente. Sabedora disso, a mãe ia levar-lhe as refeições, que ele aceitava mas recebia em tom de protesto:”Lá vem a burguesia dar de comer ao proletariado”.<br />
<span id="more-587"></span>Recordei-me desta história &#8211; passada nos calores da Revolução de Abril e vivida por um barbudo e aguerrido militante da extinta UDP &#8211; a propósito da crise financeira que atravessa os Estados Unidos e vai atacar também aqui pelo Velho Continente como uma grande epidemia sem controlo.<br />
Ele fez o que o fervor do momento lhe impôs, mas esqueceu-se que era necessário sobreviver para disfrutar a suposta liberdade que almejava. Com as grandes financeiras norte-americanas a história tem uma moral semelhante, só que tudo em grande, como de costume. O jovem tirou a carta mal fez 18 anos, os papás compraram-lhe um descapotável logo a seguir, mais um apartamento, dinheiro com fartura, ele deslumbrou-se, pensou que a vida era só e apenas um mar de rosas e um belo dia espetou-se com o espadalhão contra uma palmeira em Beverlly Hills e acabou a gemer, todo engessado, nos cuidados intensivos do hospital.<br />
Os paizinhos, ai o meu rico menino, maldita palmeira, não saíam da cabeceira noite e dia e mal ele abriu a pestana sussuraram-lhe, para o animar, que já tinham encomendado outro carro, desta vez uma viatura mais segura, para andar mais protegidinho.<br />
Com as financeiras também foi assim. Empanturraram-se de dinheiro e foram sempre por ali fora, a querer ganhar mais e mais, como uma corrida louca pela auto-estrada, sempre mais e mais acelerador, mais e mais lucros sem olhar a meios e&#8230;pum! Espetaram-se&#8230; Quem devia ter visto, assobiou para o lado, quem alertou para a postura suicida foi desdenhado e insultado. Agora, são todos os contribuintes que vão ter que pagar a conta que meia dúzia de criaturas apelidadas de inteligentes contraíram para encher ainda mais os cozes a uma mão cheia de milionários. A propósito desta triste fábula, recomendo-te a leitura do que escreve sobre o assunto o que considero um dos mais eloquentes e sensatos comentadores da nossa praça, <a href="http://ruitavares.net/textos/nao-e-defeito-e-feitio/">Rui Tavares</a>.<br />
E que nos resta, Fernando? Ficar a ver o aperto cada vez mais agudo e insuportável, porque quem manda – e nós elegemos, há que o dizer – decidiu que este era o caminho a trilhar. Bom, também podes contrapôr que só de quatro em quatro anos é que se lembram de nós, porque de resto é um punhado de milionários, “eleitos” apenas e só pelo dinheiro que impõem a regras a quem diz que nos governa. Valha-nos a possibilidade de ir protestando, batendo o pé, gritando, em cartas como esta e recorrendo a meios verdaeiramente democráticos como a net. Para além disso, teremos que ficar a ver onde este caminho nos leva.</p>
<p>Um descrente abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://atlantico-expresso.net/portugal/os-meninos-das-mamas/2008/09/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
