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	<title>Atlântico expresso &#187; António Martins Neves</title>
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	<description>Um mar de palavras e memórias</description>
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		<title>Resgatei uma galinha</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Jan 2012 15:17:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Bem entrado Fernando, naquela semana que costuma passar a correr entre o Natal e o Ano Novo, quando já se foi a quase obrigação das prendas e o que sobrou vai ser gasto nos votos de um ano o menos mau possível, dei comigo, num gesto raro, a olhar para uma montra de decorações e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/galinha.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1268" title="galinha" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/galinha-300x224.jpg" alt="" width="270" height="202" /></a></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">Bem entrado Fernando,</span></p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">naquela semana que costuma passar a correr entre o Natal e o Ano Novo, quando já se foi a quase obrigação das prendas e o que sobrou vai ser gasto nos votos de um ano o menos mau possível, dei comigo, num gesto raro, a olhar para uma montra de decorações e outras inutilidades mais ou menos indispensáveis. Por acaso, porque calhou, algo me chamou a atenção, não me recordo o quê, e dei de caras com esse galináceo que podes observar aí ao lado. Travou-me o olhar, o animal. Entrei, confirmei com a senhora atrás do balcão: &#8220;Uma <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Caba%C3%A7a">cabaça</a>&#8230;&#8221;. Era e veio comigo, está aqui em casa.</span></p>
<p><span id="more-1267"></span><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">Nunca me tive por arrelampado com objetos. Ocorre-me, de repente, ter-me acontecido algo parecido há uns anos com uma caneta de aparo, num centro comercial. Mas a galinha meteu-se comigo. O preço? Dez euros! Vou levá-la. Foi negócio impensado quando ouvi a resposta. Constatei que havia mais daqueles frutos a que uma imaginação acertiva e alguns dons artísticos haviam dado quase vida na figura do animal de penas. Mas a primeira não me deixou alternativa. Fui num pé levantar a nota e voltei no outro – a loja não tinha pagamento automático – e dei com a ave embrulhada como uma prenda, com um volume enorme para não lhe descompor a cauda. Quando voltei à rua senti-me contente, animado, até algo orgulhoso, atrevo-me a confessar.</span></p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;"> Uma semana depois ia a passar na mesma rua com o meu filho e ocorreu-me mostrar-lhe as outras galinhas que lá haviam ficado. Antes de entrar tive um baque. A porta estava entreaberta e a loja quase vazia, só uns embrulhos e umas caixas pelo chão, ninguém lá dentro. A mulher que me vendera a peça estava do outro lado da rua, dobrada para dentro da mala aberta de um carro, a arrumar nem vi o quê. Seguimos a passos largos. No lugar da quase euforia de dias antes sentia agora alguma angústia. A loja que vendia as galinhas feitas de cabaças fechara, falira, se calhar. Nem me atrevi perguntar. A arte da simplicidade terá sucumbido à crise que tudo ataca.</span></p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">Terás por aí exemplos infindos da capacidade de humana de com as mãos e talento se produzirem belas obras de arte por quem nunca pensou no que isso é. Aqui vai escasseando a sensação de sermos impressionados pela capacidade criativa de produzir o belo com quase nada. Concordarás que transformar uma cabaça deste modo é singular. Mas depois cria-se um vazio, como se de nada valesse, para nada servisse. O local onde se acedia a esse pequeno requinte fechou, desapareceu, não existe mais. E as galinhas terão ido para outro local, outra loja?</span></p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;"> Resta-me agora olhar para este fruto, que continua com as sementes dentro, a fazer de contrapeso para se manter na posição em que a vês. Reparo que tem um ar furioso, como quando as galinhas vivas atacam um gato que lhes ameça os pintos. Esticam-se assim e ensaiam bicadas quase inconsequentes. Vai ficar aqui em casa. Vou dar-lhe um poleiro adequado ali frente à porta da rua, para que quem entre dê logo de caras com a obra e repare bem nela. Merece. Por quem a produziu e por quem a vendeu. Ah, por baixo da cauda está assinado a tinta preta &#8220;Rosária&#8221;. Parabéns.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">Um abraço forte, que este ano bem vais precisar de alento a dobrar.</span></p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">António Martins Neves</span></p>
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		<title>Sobreiro é a árvore nacional!</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Dec 2011 00:07:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Admirado Fernando,  tenho lido atenciosamente o que me contas, mas nada do que tenho assistido por aqui me encorajava a devolver-te a escrita. O caos, a definhação, a incerteza, um quase não país, o descalabro. Disso tens tu nota aí pelos trópicos, basta o que basta.Eis senão quando, e curiosamente aprovado por unanimidade na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;"><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/28_12_2011_20_18_51.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1265" title="28_12_2011_20_18_51" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/28_12_2011_20_18_51-224x300.jpg" alt="" width="224" height="300" /></a>Admirado Fernando,</p>
<p style="text-align: left;"> tenho lido atenciosamente o que me contas, mas nada do que tenho assistido por aqui me encorajava a devolver-te a escrita. O caos, a definhação, a incerteza, um quase não país, o descalabro. Disso tens tu nota aí pelos trópicos, basta o que basta.Eis senão quando, e curiosamente aprovado por unanimidade na Assembleia da República, surge uma decisão sem grandes efeitos práticos, mas emblemática para um país à deriva: classificar o sobreiro como a árvore nacional.</p>
<p style="text-align: left;"><span id="more-1254"></span>Há muitos anos que me constrange o desprezo que o país alimenta por um recurso quase único de que dispomos, a cortiça. Em qualquer pequeno país do Norte da Europa chamavam-lhe um figo. Por cá, como não é petróleo nem faz andar carros, ninguém dá importância. E quando digo ninguém, refiro-me aos sucessivos governos. É como se não tivéssemos um caneiro e a cortiça não valesse 2,2 por cento das nossas exportações. De tal modo que um setor vital da economia está todo depositado nas mãos daquele “trabalhador” chamado Américo Amorim, que se irrita por terem concluído que é o homem mais rico do país.</p>
<p style="text-align: left;">Resta-me agora, eu que escalavrei as pernas e os braços a trepar e descer nos abundantes sobreiros da nossa infância, ver efeitos práticos da coisa. Primeiro que a vasta comunidade científica disponha de meios para investigar e travar o processo de mortandade daquelas árvores, para que a distinção não sirva para cerimónias de enterro. Segundo para que a cortiça passe a ser transformada e valorizada como um dos mais multifacetados produtos naturais, sustentável, reciclável, quase eterno, inodoro, isolante térmico e sonoro. De que Portugal é de longe o maior produtor do mundo e onde o produto tem uma qualidade incomparável com a pouca concorrência. Assim como uma espécie de petróleo verde que poderia aumentar se houvesse dois dedos de testa em quem manda neste “local”, Fernando. E depois quem não gostaria de ter 737 mil hectares de uma árvore que, como nenhuma outra, dá mais exigindo tão pouco, como escreveu o silvicultor Vieira Natividade em 1950?</p>
<p style="text-align: left;"> Um encortiçado abraço</p>
<p style="text-align: left;"> António Martins Neves</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Morena no montado</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Aug 2011 17:24:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Imparável Fernando, tu preocupado em não deixar escapar nada do que o mundo te estende e eu a tropeçar no que se quer esconder. O bom é isto:  caldearmos tudo aqui. Cada um viaja como pode  e quer. Nunca ouvi falar no limite da alma e não creio que exista. Nem a realidade é confrangedora [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/Estevas.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1216" title="Stop" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/Stop1-300x225.jpg" alt="" width="264" height="199" /></a></p>
<p>Imparável Fernando,</p>
<p>tu preocupado em não deixar escapar nada do que o mundo te estende e eu a tropeçar no que se quer esconder. O bom é isto:  caldearmos tudo aqui. Cada um viaja como pode  e quer. Nunca ouvi falar no limite da alma e não creio que exista. Nem a realidade é confrangedora como a fazem.  Olha ao que assisti há dias: a globalização repetida, como começou já há 500 anos. Só que agora ao contrário.</p>
<p><span id="more-1214"></span>Quando empurrei a porta nova da velha taberna e dei de caras com o par de coxas mulatas, a primeira coisa que pensei foi…nada! Como se tivesse chegado ao Pólo Norte e deparasse com alguém deitado numa toalha a tentar bronzear-se ou distraidamente entrasse na Sé de Lisboa e visse uma freira a dizer missa. Ali era tudo muito mais simples. No meio da serra alentejana que bem conheces, com o mar ali à vista, tudo se passava em volta de uma mesa de snooker.  Éramos três, íamos dar umas tacadas em laia de abrir o apetite para um jantar a condizer com a geografia e o cenário era aquele. Outros três homens e uma mulher a arremessar bolas umas contra as outras com ar de quem não deseja o fim daquele matraquear de porcelana. Enfia ali, tira daqui, ganhei, tu perdeste, aquelas vulgaridades de quem sempre tem algo para argumentar. Porque perde ou porque ganha. A não ser pequenos pormenores, que vão para além das coxas que vi primeiro sentadas. Jogava-se ao bota fora. Só um deles não tinha o rosto ressequido como o montado por estes dias ou enrugado como uma encosta soalheira por onde correu água no inverno. Tinha o cocuruto desmatado. E é evidente que o jogo era outro e não se percebiam as regras todas ali de uma assentada.  Em vez do antigo palito, dos traçadinhos de tinto e branco e da algazarra, reinava uma falsa serenidade. Eles falavam só ao ponto de se fazerem ouvir, ela comentava em jeito de relato sobre o que estivera na origem da jogada. Até se conseguia ouvir em fundo o José Rodrigues dos Santos na televisão a dizer às pessoas que tinham acontecido coisas importantes nesse dia. Mas aquela calma era tensa e o motivo moreno: a jogadora tinha sotaque tropical, cabelos aos canudos,  unhas cuidadas realçadas de vermelho escuro, calções pequenos e justos , exibia o umbigo naturalmente e usava chinelo de enfiar no dedo. Sublinho: aquilo era uma taberna alentejana, onde o casal de proprietários se cruzavam  a entrar e sair do balcão, o restaurante lá atrás, as paredes a reluzir de branco, o sol posto a entrar pelas janelas,  a normalidade a tentar impor-se.</p>
<p>Deixa-me dizer-te, Fernando, que eu ia da praia com dois adolescentes sequiosos por jogar snooker antes de um jantar com amigos que haviam de chegar. Como conheces as posições em que se colocam os jogadores de bilhar e afins, bastará dizer-te que para realizar no momento um filme para levar ao Festival de Cannes para o ano era só ter ali forma de registar as imagens das caras de pelo menos dois jogadores masculinos quando a adversária se debruçava sobre a mesa de taco certeiro para consumar a jogada e as expressões dos dois rapazolas, a tentar perceber o que ia nas cabeças alheias, porque nas deles era evidente. De resto, a  monopolização  do jogo tornara-se um dado adquirido quando finalmente chegou o momento previsível da noite. Depois de ocupadas as cadeiras em volta da mesa, lá por trás da tal parede que abafava até as tacadas mais veementes, aterrou ali na frente uma tigela de barro a transbordar de sopas de espinafres com amêijoas.</p>
<p>Tudo parecia remeter para as memórias e um debate no regresso a casa sobre aquele cenário improvável, não fosse os dois candidatos a jogadores estarem a digerir mal o controlo absoluto da mesa de pano e verde e não baixarem os braços antes de mostrarem supostas habilidades. Abordado sobre a demora, o dono do restaurante e taberna foi lacónico e desmobilizador em proporções semelhantes: “Já chegaram a levar mais de oito horas… “. Desalento, quase pânico, protestos mal contidos. Mas porquê? “Por causa da preta!” Um gesto de interrogação com o olhar e uma mão a enrolar o ar despoletaram o resto, num tom mediano para nã alertar a outros clientes:  “Vive com o [jogador) careca há mais de um ano. Já é a segunda. Mas para uma mulher daquelas, com 34 anos, aguentar um gajo de 60 é porque gosta mesmo dele”. Pagámos e saímos. Mais ninguém jogou naquela noite.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um disputado abraço</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		</item>
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		<title>Num tempestuoso dia de sol</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Apr 2011 17:02:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[25 Abril]]></category>

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		<description><![CDATA[Esperançado Fernando, escrevo-te neste dia 25 de Abril de 2011, quando o verão parece estar a entrar, mas o inverno teima em apoderar-se das nossas almas, depois de já nos dominar tudo o resto, carteira incluída. Esperança, sonho, mais esperança e todos os sonhos do mundo enchem os discursos de quem se sente obrigado a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC12034.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1197" title="SDC12034" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC12034-300x289.jpg" alt="" width="261" height="252" /></a>Esperançado Fernando,</p>
<p>escrevo-te neste dia 25 de Abril de 2011, quando o verão parece estar a entrar, mas o inverno teima em apoderar-se das nossas almas, depois de já nos dominar tudo o resto, carteira incluída. Esperança, sonho, mais esperança e todos os sonhos do mundo enchem os discursos de quem se sente obrigado a justificar-se perante o esta- do a que &#8220;isto&#8221; chegou. Há 37 anos que é assim e tu ou eu podemos testemunhá-lo, para além de mais uns milhões largos de espetadores do que tem sido este espetáculo de gerir a dívida em vez de governar o país.</p>
<p><span id="more-1196"></span>Não é fácil conseguir olhar para esta gente de frente. Estava à bocado a ver na televisão a cerimónia que o Presidente da República organizou no Palácio de Belém para assinalar a data e era olhar a plateia e ver as mesmas caras de sempre. Os que nunca saíram de lá, os que foram e tornaram a vir. Se não fosse uma situação gravíssima, poder-se-ia dizer que se assistiu a mais uma peça com os mesmos atores, no cenário habitual,  a tentarem fazer sorrir o pouco público que ainda não desistiu de se deslocar à sala de espetáculos. Uma farsa indisfarçável. Claro que lhes fica a consciência mais aliviada por dizerem ao povo umas frases que soam bem, com aquele ar sério, por vezes tentando cara-de-caso.<br />
Uns de cravo vermelho na lapela (terão muitos a mais ténue ideia do que significa, Fernando?), outros, mais pragmáticos, avessos que são à palavra revolução, ignorando simplesmente o símbolo daquele dia que lhes permitiu apresentarem-se hoje como são. Sem ponta de arrependimento, laivo de vergonha ou receio de serem confrontados com a desgraça que conduziram e lideraram, sempre a bem da nação evidentemente. Assim acontece, Fernando. Agora, que já não podem adiar mais as contas, começaram a deixar escapar umas veleidades. &#8220;Temos que pagar&#8221;, &#8220;vamos repartir o esforço&#8221;, &#8220;estamos no pior momento da história do país&#8221; &#8211; são frases nossas de cada um destes dias.  Quando está instituída a mentira como ferramenta oficial e a gestão danosa do país é um facto, sabes o que nos respondem: lembrem-se disso no dia 05 de junho. E mais não é possível num regime assim, democrático. Ruído para os ouvidos, à beira de nada ouvirem. E assim vai ser, até ao fim. Uma espécie de &#8220;paguem e calem-se&#8221;. Não acreditas? Também não quero acreditar, mas não sei que te diga mais&#8230;</p>
<p>Um fraterno e revolucionário abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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				</a>
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		</item>
		<item>
		<title>A &#8220;dona&#8221; do Sol</title>
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		<pubDate>Sat, 18 Dec 2010 14:13:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Iluminado Fernando, há boas ideias que valem ouro, muito, milhares de milhões de euros, como o caso do Facebook. Há outras, geniais mesmo, tão evidentes como o ovo de colombo, mas cujo efeito é nulo além de uma boa gargalhada. É o caso de uma espanhola, galega, que decidiu registar o Sol como sua propriedade. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://t3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRIEiDd3nH1z__29DaC2In8gyV-U2neeDBtZhNzZy0ZRp7i0Xp4" alt="" width="218" height="231" />Iluminado Fernando,</p>
<p>há boas ideias que valem ouro, muito, milhares de milhões de euros, como o caso do Facebook. Há outras, geniais mesmo, tão evidentes como o ovo de colombo, mas cujo efeito é nulo além de uma boa gargalhada. É o caso de uma espanhola, galega, que decidiu registar o Sol como sua propriedade. Se fosse cá, ainda se podia pensar que se trataria do jornal semanário, até há meses em alegadas dificuldades financeiras. Mas não, é mesmo da estrela que se trata. E conseguiu um notário que formalizou a posse requerida em ata. A ser assim, o Sol continua a brilhar para todos, mas passou a ser só de uma: Ángeles Durán.<br />
<span id="more-1165"></span><br />
Há umas semanas um notário de Vigo não evitou uma gargalhada quando uma mulher lhe entrou pelo escritório adentro a afirmar que era a dona do Sol e estava ali para formalizar essa situação, como relatou a imprensa daquela região espanhola. Depois o sorriso começou a fechar-se à medida que a senhora passou a enumerar as “provas”, que redigiu no livro de registo notarial: “Sou a proprietária do Sol, estrela do tipo espetral G2, que se encontra no centro do sistema solar, a uma distância média da terra de cerca de 149,6 milhões de quilómetros”.<br />
Tudo porque, concluíra numa aparente investigação anterior, ninguém se intitulou dono daquela estrela, não há nada a impedir que alguém o faça e ela estava ali para isso: usfruiu dele durante mais de 30 anos, sempre de boa fé, pelo que pode invocar, lá como cá, o uso capião, normalmente invocado para impedir o encerramento de caminhos ou outros espaços de utilização pública. Que há convénios que impedem os países de serem donos dos planetas, mas não as pessoas, pelo que houve já um americano a “apropriar-se” de quase todos eles e até da lua. Mas do Sol não. E Ángeles viu aberta uma janela de oportunidade por onde entrar luz. Mas alto lá! Não só para mostrar o registo notarial às visitas que vão lá a casa ou deixar de herança aos netos. A galega pensou em números e acha que se se paga pelo usfruto dos rios, porque não se deve cobrar a energia do Sol que nos trás vivos. Mais um susto, Fernando! Nós aqui, os vizinhos portugueses, assalariados como ela, que já somos quem mais impostos paga na Europa e mais miseravelmente vive, que vamos ter o fisco a vir-nos ao bolso de forma ainda mais violenta a partir de Janeiro, quando nos vão reduzir, a muitos, o ordenado e ainda vamos ter que pagar pelo Sol? Só falta mesmo cobrarem-nos pelo ar que respiramos&#8230;Por mim, já decidi. Estou a ponderar sobre outros, mas esse imposto não pago. Acusem-me de fuga ao&#8230;sol!</p>
<p>Um solarengo abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Parti a caneta</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Feb 2010 08:00:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Resistente Fernando, parti a caneta. Isso mesmo: escapou-se-me das mãos e foi direitinha ao chão de mármore do pátio da entrada. O aparo abriu-se, arreganhado, e nunca mais foi capaz de deixar sair um gatafunho que fosse. Não foi coisa recente. Há já uns meses que deixei de tomar notas com aquela vulgar caneta. Continuo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Resistente Fernando,<br />
parti a caneta. Isso mesmo: escapou-se-me das mãos e foi direitinha ao chão de mármore do pátio da entrada. O aparo abriu-se, arreganhado, e nunca mais foi capaz de deixar sair um gatafunho que fosse. Não foi coisa recente. Há já uns meses que deixei de tomar notas com aquela vulgar caneta. Continuo a registar no papel, mas não é a mesma coisa. O que me consola é que ela vai voltar a exercer. Com um aparo novo. Telefonaram-me há dias a dizer: “A sua caneta vai ser reparada. Está na Suíça…”.<br />
<span id="more-1044"></span>Garanto-te que não é nada do que estás a congeminar. Não se trata de nenhum avião nem nenhum carro topo de gama com função acessória de escrever. É um discreto instrumento de escrita que me custou umas escassas dezenas de euros num sábado à tarde num centro comercial. Tem um depósito de tinta que deve ser abastecido de quando em vez para manter a eficácia, é leve, macia, desliza (deslizava) bem e afeiçoei-me a ela como quando simpatizamos com pessoas que conhecemos por acaso e de quem nos tornamos amigos. Caiu-me da mão um dia à noite quando repetia para enésima vez a frase que escrevo na correspondência que continua a chegar cá a casa em nome do antigo inquilino: “Destinatário desconhecido nesta morada”. Não faço ideia quem seja, mas há um banco que não pára de lhe escrever, mesmo recebendo de volta as cartas que deixo à disposição do carteiro. As mãos ocupadas, sacos, papéis, confusão e deixei cair a minha caneta preta. E tinha que ser logo com o aparo para baixo. Tem que levar um novo. Já me disseram que sim senhor, que teve que ir para a fábrica, imagina, só lá lhe podem pôr um aparo. Que seja. Quero-a de volta.<br />
Voltei às esferográficas de sempre, mas, insisto, não é a mesma coisa. É um escrever por escrever, um anotar porque tem que ser, a letra nem sai como antes, parece a de outro. E não tenho explicação. A não ser que tenha havido algum retrocesso ao tempo da escola primária, há quase 40 anos atrás. As esferográficas Bic eram então uma modernice e a professora era extremamente conservadora. Não senhor! Escrever tem que ser com caneta de aparo. E foi assim que arrumei as primeiras letras. Era uma caneta preta e verde, com um fole que se apertava e se largava depois de mergulhar o aparo no tinteiro. O sorvo enchia o depósito e lá saíam aquelas letras redondas, aquela escrita diferente de todos, numa altura em que ninguém imitava ainda as letras de forma batidas pelas máquinas de escrever, nem havia quem colocasse bolas em cima dos is.<br />
Mas agora, e garanto-te que não  é capricho, escrever com uma qualquer esferográfica é assim como trocar umas botas confortáveis por uns chinelos de enfiar no dedo quando se viaja de transporte. Percorre-se a mesma distância, mas há sempre um desconfortozinho, aquele incómodo causado pela falta de aconchego. Perde-se o andar firme, dão-se passos porque é preciso. É o que me tem sucedido, Fernando. Claro que, quanto a escrever mesmo, em definitivo, no trabalho, dispensam-se canetas, esferográficas ou lápis. Basta bater com os dedos nas teclas que saem as letras iguais, todas certinhas, indiferentes. O normal portanto. Mas tem-me acompanhado este frio de meter a mão no bolso interior esquerdo do casaco e não estar lá a caneta. Mas, só por aquela senhora da loja me ter telefonado a dizer que dentro de dias me deverá contactar a avisar que já chegou a caneta, até me sinto mais animado e olho aqui para os caracteres com outro ânimo.<br />
Um renascido abraço.<br />
António Martins Neves</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;">
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		<title>Coitada da Manuela&#8230;</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Nov 2008 09:30:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Precavido Fernando, não te quero alarmar nem deixar indisposto, mas se o PSD voltar ao governo e por vontade da sua actual líder a nossa profissão vai desaparecer. Vão ser os políticos que vão decidir o que se publica sobre si nos jornais, nas rádios e nas televisões. Informar vai passar a ser uma tarefa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/manuelaferreiraleite3.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-699" title="manuelaferreiraleite3" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/manuelaferreiraleite3-299x300.jpg" alt="" width="299" height="300" /></a>Precavido Fernando,<br />
não te quero alarmar nem deixar indisposto, mas se o PSD voltar ao governo e por vontade da sua actual líder a nossa profissão vai desaparecer. Vão ser os políticos que vão decidir o que se publica sobre si nos jornais, nas rádios e nas televisões. Informar vai passar a ser uma tarefa deles. Diz Manuela Ferreira Leite que a sua mensagem não passa, a culpa é dos jornalistas, portanto&#8230;mate-se o mensageiro. Onde é que eu já ouvi isto, Fernando?<br />
<span id="more-698"></span>“Não pode ser a comunicação social a seleccionar aquilo que transmite”, disse a presidente do maior partido da oposição. Muito bem! Podia ter acrescentado que a partir de agora vai ser um de nós a determinar o sermão do padre, a fazer os programas dos partidos, o sapateiro passará as receitas no lugar do médico, o veterinário construirá as pontes&#8230;Ridículo? Nããã!!<br />
É dos livros que quando os políticos culpam os jornalistas pelo seu fracasso é porque estão verdadeiramente perdidos. Estão atolados, a culpa é exclusivamente sua, mas como não têm a coragem de o assumir, a culpa é da imprensa. Receita fácil, mas que já não colhe em lado nenhum. Ouvi uma vez, numa roda de conversa, um antigo e destacadao dirigente do PS assumir que ataques feitos pelos socialistas à imprensa tinham sido a última escapatória para o que não tinha escapatória possível. Os falhanços eram exclusivamente da responsabilidade deles, mas como não podiam assumir, dizia ele, lá alijaram a carga para os culpados do costume, os jornalistas.<br />
Manuela ferreira Leite, que eu acho ter chegado a líder do PSD empurrada pela imprensa que levou o actual Presidente da República ao Palácio de Belém, deve ter-se inspirado em antecessores seus e em quem dizem ser o seu ideólogo.<br />
Como te deves recordar, quando Cavaco Silva era primeiro ministro e o ex-presidente do PSD Luís Marques Mendes ministro com a tutela da RTP, dizia-se que o alinhamento do telejornal da RTP ia a despacho ao seu gabinete diariamente. Pela mesma época, José Pacheco Pereira, o intelectual sobrevivente de serviço no PSD que estava na liderança da bancada parlamentar (maioritária) do mesmo partido, teve a ideia peregrina de dar as “notícias” apenas à boa imprensa, aos jornalistas parlamentares que se “portassem bem”. E quis impedir a livre circulação da imprensa pelos corredores da Assembleia da República. Resquícios estalinistas que lhe ficaram e ainda parecem sobreviver.<br />
O fim disto tudo já se está a ver: o PSD vai rebolar aos trambolhões até ao fundo do abismo, a culpa vai ser nossa, dos jornalistas, Sócrates arrisca-se a ver a maioria absoluta renovada, iremos sobreviver, mas no lodaçal que aí está e&#8230;pronto! Ah, e Manuela Ferreira Leite já tem desculpa para ser humilhada. Não digas que não te avisei, Fernando!</p>
<p>Um abraço independente.<br />
António Martins Neves</p>
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		<title>Aventura, desconhecido, coisas novas</title>
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		<pubDate>Fri, 31 Oct 2008 11:25:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Viajante Fernando, recordas-te de te ter falado daquele casal que atravessou meio mundo de bicicleta, indo da Europa até à Ásia em quatro anos e percorrendo 38 mil quilómetros, quase os cerca de 40 mil que tem de perímetro a Terra no Equador? Como prometera, volto à epopeia. Fiquei cá com a pulga e consegui [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/sri-lanka.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-680" title="sri-lanka" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/sri-lanka-198x300.jpg" alt="" width="277" height="419" /></a>Viajante Fernando,<br />
recordas-te de te ter <a href="http://atlantico-expresso.net/portugal/amor-duas-bicicletas-e-uma-tenda/2008/08">falado</a> daquele casal que atravessou meio mundo de bicicleta, indo da Europa até à Ásia em quatro anos e percorrendo 38 mil quilómetros, quase os cerca de 40 mil que tem de perímetro a Terra no Equador? Como prometera, volto à epopeia. Fiquei cá com a pulga e consegui a “morada” deles. Escrevi-lhes, e muito amavelmente esclareceram-me algumas das dúvidas que continuava a alimentar depois de ler o livro onde relatam a odisseia. E sabes que mais? Se não lhes tivessem nascido dois filhos, a esta hora andariam a pedalar devagar pelo mundo&#8230;<br />
<span id="more-672"></span>Primeiro, vou já dizer-te qual a “receita” de João e Valérie para andarem assim pelo mundo, em cima de duas rodas:  “É preciso gostar muito de aventura, do desconhecido, de ver e viver coisas novas”. “O mais difícil é pôr o pé na estrada” imagina!  “Tudo o resto, dormir o que calha, comer o que aparece, pedalar, passa a ser o &#8216;normal&#8217; dia-a-dia” e conseguir “pôr os hábitos de lado”: “Não ter medo de ficar muitos dias sem tomar banho, não ter café depois das refeições, comer sopa ao pequeno almoço”. Quis também saber o que lhes vem primeiro à cabeça quando recordam os quase 1500 dias de aventura. Dois sonhos antigos, dizem-me. Ela a chegada a Lassa, a capital do Tibete, ele a viagem que fizeram num navio cargueiro entre o Bangladesh e Singapura.<br />
Mas como andar assim com a casa em cima de uma bicicleta causa os seus amargos de boca, o português e a helvética também me confessaram quais os momentos mais aflitivos. O pior de Valérie ocorreu-lhe na China, quando ficaram numa pensão sem aquecimento e a temperatura era de zero graus. Pediram algo com que se pudessem aquecer e  levaram-lhes um balde com carvão. Deitaram-lhe fogo para fazer brasas e debruçaram-se sobre elas, única forma de sentirem o calor. Já imaginas o que aconteceu. Os gazes tóxicos libertados pela combustão do carvão fizeram-na desmaiar, mas quando João pediu socorro apareceram cinco chineses aflitos que resolveram a questão tirando o balde do quarto. “Tive a sensação que ia morrer”, confessa agora.<br />
Foi mera coincidência a má memória com que João ficou quando chegou a Diu, um dos territórios indianos administrados por Portugal até a Índia nos ter expulsado de lá na década de 50 do século passado. Uma dor associada a uma mancha vermelha numa perna teimavam em atormentá-lo já havia um mês, de tal modo que pensava já que teria de voltar para casa. “Esse pensamento deixava-me aterrorizado”, contou-me ele. Afinal, era só líquido linfático infectado que desapareceu com uns vulgares antibióticos.<br />
Quis também saber que país, povo, civilização mais os tinha fascinado: “Assim, de repente, a civilização indiana. Um mundo completamente à parte. Pela diversidade, pelo misticismo, pela junção de crenças, de etnias, de povos, de línguas etc. A variadade de acontecimentos singulares numa cidade é fascinante, como por exemplo em Nova Deli, ver macacos a passear, ou vacas a comerem plásticos na rua, manadas de búfalos a irem sozinhos para casa, dentistas na esquina de um prédio, etc. O facto de muitos animais serem deuses e serem tratados como tal, elefantes no meio de avenidas montados por um homem. É uma lista sem fim, um filme autêntico do qual não conseguimos despregar os olhos” a que acrescantam ainda “as minorias no montanhoso noroeste do Vietnam. Em cada vale que passávamos víamos uma minoria diferente com vestidos originais” e “os tibetanos pela crença ardente em Buda e no seu Dalai Lama”.<br />
Ciclista desencartado que sou, também quis matar a curiosidade sobre as máquinas: “Consumimos 15 pneus. No fim só o quadro era o mesmo o resto tinha sido tudo mudado. Em Singapura fomos à  fábrica de Shimano que, ao ver o que andávamos a fazer, ofereceu-nos material novo e montou-o nas nossas bicicletas. Furos tivemos mais de 100, muitos na China pela falta de bons pneus. Em Macau conhecemos um português, Luis Filipe, que nos tranformou a bicicleta com bom material e me deu uma grande lição de mecânica”. E já agora saber a ideia que tinham ficado sobre a forma de deslocação escolhida: “Para nós é um meio de transporte. Mas, se não tivesse filhos e voltássemos à estrada, não hesitávamos em escolher outra vez a bicicleta como meio de transporte. Par nós é um meio não &#8220;o&#8221;, mas é o melhor. Indo devagar, &#8220;vai rápido&#8221; e muito longe sem despesa de energia. É ecológico e quer queiramos quer não deixa-nos numa forma física excelente. Pela minha experiência e conhecimento de outros ciclistas viajantes, viajar de bicicleta, é, simplesmente viciante. Afinal, quase que poderia dizer que é &#8220;o&#8221; meio de transporte!”.<br />
Saudades? Pelos vistos, muitas! “Continuamos a andar frequentemente de bicicleta, continua a fazer parte do nosso dia a dia e das nossas vidas.”<br />
E agora senta-te, Fernando. O que disseram antes e escreveram no livro fica tudo ainda mais claro com o que vem a seguir. “Por enquanto não temos nenhuma viagem programada, temos muitos sonhos, mas tanbém temos dois filhos que adoramos e com os quais fizemos uma pequena viagem de um mês a Marrocos”. Estamos entendidos!.</p>
<p>Um abraço cheio de pedalada.<br />
António Martins Neves</p>
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		<title>A vida sem uma mousse</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Oct 2008 09:30:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Guloso Fernando, estava eu confrontado com um arroz de pato quando ouvi nas minhas costas as curtas frases que me deixaram de garfo suspenso. Era uma voz feminina, quase de falsete, daquelas que parecem em agonia, a desvanecer-se, a ameaçarem deixar de se fazer ouvir a qualquer momento. Uma mistura de travo amargo, desespero e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-full wp-image-656" title="mousse-amarga" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/mousse-amarga.jpg" alt="" width="322" height="241" />Guloso Fernando,<br />
estava eu confrontado com um arroz de pato quando ouvi nas minhas costas as curtas frases que me deixaram de garfo suspenso. Era uma voz feminina, quase de falsete, daquelas que parecem em agonia, a desvanecer-se, a ameaçarem deixar de se fazer ouvir a qualquer momento. Uma mistura de travo amargo, desespero e má criação. Esperei um minuto que pareceu uma tarde de Inverno para ver a autora. Ainda tentei vislumbrar, disfarçadamente, por cima de um ombro e do outro, mas nada. Confesso que me agradou a breve ideia de que a boca que deixara escapar aquelas as palavras não existisse. Mas lá surgiu ela à frente de um corpo, que passou entre mim e o balcão.</p>
<p><span id="more-657"></span>“Mousse de chocolate? Nem dada! Nem se você ma oferecesse eu a comia&#8230;”, eis a frase lapidar, uma lâmina daquelas que também servem para cortar os pulsos. A proprietária do pequeno restaurante acabava de fazer uma sugestão de sobremesa e deve ter ouvido do pior que alguém pode escutar. Ai quer-me adoçar? Quer que eu coma algo que me reconforte, um doce daqueles de que toda a gente gosta? Pois tire o jumento da chuva! A mulher passou por mim e foi pagar ao balcão. Ia com outra senhora. Usava calças de ganga, uma parka, cabelo curto, grisalho, e aparentava menos de 60 anos. A voz não encaixava naquela corpo, mas tinha sido ela. A proprietária do restaurante deixou de se ouvir e deverá ficar uns meses bons a ganhar coragem para fazer uma nova sugestão de sobremesa a qualquer cliente. “Nem se você ma oferecesse eu a comia”. A rejeição, a quase repulsa contida nas oito pequenas palavras não dava margem para qualquer resposta. <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Lobo_Antunes">Lobo Antunes</a> escreveria uma belíssima crónica com uma criatura assim a fazer tricot e a ver telenovelas da TVI enquanto o marido roncava ao lado antes de ir para mais uma noite de insónia. Quem rejeita assim a doçura servida numa taça de vidro sobrevive mergulhada em azedume, em vinagre da pior espécie, feito com pó, a martelo. Como é que alguém a quem fazem uma sugestão para agradar responde com um morteiro, Fernando? Como consegue sobreviver quem vive assim? Será só da crise? Não. A crise ali tem a idade das pernas que a fazem andar. Tudo correu sempre mal. Quem é incapaz de ficar calado perante uma proposta pretensamente agradável e que afronta um gesto bonito com um condensado de repulsa que nunca testemunhei jamais teve razão para sorrir&#8230;Ia dizer na vida, mas aqui acho que se adequa mais afirmar na morte. Ali não estava quem sobrevive sequer, mas quem já desistiu, tendo como grande inimigo o corpo, que continua a resistir e a fazer andar cá pela terra um cadáver com vida. Aquela mulher não deve sequer ter naperons em cima da televisão, vasos com flores nas janelas, deve praguejar contra os pombos, estar de relações cortadas com todos os vizinhos, irritar-se com o sol, vociferar contra a chuva, abominar o vento. Nunca tal tinha ouvido, Fernando. Pois, eu não gosto de doces, mas se fosse uma frutazinha até comia, mas o colestrol e a diabetes obrigam-me a fazer dieta&#8230;Não, nada! Detesto que me sugiram algo de agradável e repugnam-me as pessoas que gostam do que quer que seja. A não ser gostar de detestar e de rejeitar. Isso é que me faz sentir menos morta. Isso e dizer que não. O resto são banalidades e coisas vulgares que me recuso a aceitar, sentimentos bons sem razão de ser. O mundo é negro e não entendo porque querem torná-lo menos deprimente, dar-lhe às vezes uns tons de azul ou até de verde.  Nem mesmo aquele castanho diarreico da mousse de chocolate é cor alternativa às trevas onde estou. Sejamos todos muito infelizes, conclui eu enquanto me esforçava por terminar o almoço.</p>
<p>Um abraço muito optimista.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Cão com sorte</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/portugal/cao-com-sorte/2008/10?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=cao-com-sorte</link>
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		<pubDate>Mon, 20 Oct 2008 09:30:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Leal Fernando, quando te estou a escrever estas linhas, ele deve estar a viajar com a “família” entre o Ribatejo e Lisboa, refastelado com as crianças no banco de trás. Mal abram a porta do carro, vai ser o primeiro a sair e não se vai preocupar com malas nem carrinhos. Depois de uma semana [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/odie.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-638" title="odie" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/odie-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a>Leal Fernando,<br />
quando te estou a escrever estas linhas, ele deve estar a viajar com a “família” entre o Ribatejo e Lisboa, refastelado com as crianças no banco de trás. Mal abram a porta do carro, vai ser o primeiro a sair e não se vai preocupar com malas nem carrinhos. Depois de uma semana fora, provavelmente vai querer matar saudades da casa e do gato. Se chegar de dia e lhe permitirem, ainda vai dar uma volta pelo bairro e rever os amigos da cidade, antes de tornar para conforto do lar. Segunda-feira lá volta à rotina. Sair de manhã e regressar apenas ao fim do dia, como fazem todos lá em casa.</p>
<p><span id="more-639"></span>Falo-te de “Odie”, um cachorro especial que conheci há poucas semanas. Não sabe o que é uma trela e devia ficar com uma depressão incurável se o amarrassem. Deixou-me fazer-lhe uma festa porque estava com os donos, o João e a Cláudia. Caso contrário que tirasse da ideia essa mania que os humanos têm de passar a mão pelo pêlo de um cão a sério. Está a meio (tem oito anos) de uma vida intensa e como quase todos nós nunca teve o destino nas mãos. Uma tragédia ia colocando ponto final a uma vida que acabou por se recompôr. Mas como nem tudo é mau na vida, a Cláudia viu o gesto assassino de quem atirou o cachorro janela fora ali para os lados do Pinhal Novo numa noite fria de Fevereiro. Para quem achar que a vida de um cão tem obrigatoriamente que ser má, “Odie” cá está para provar o contrário. Escapou daquele voo quase fatal e ganhou uma família a sério. E parece não se ter esquecido. Não é de esquisitices quando é hora de comer, gosta do campo e da cidade, de andar a pé ou de carro e nem levantou a voz quando um gato pequeno passou a viver lá em casa. Friorento como é, até aceitou dividir a cama com ele. Sem ponta de preconceito.<br />
Falemos então da rua, onde o nosso cão preto passa os dias. Na idade do atrevimento, num passeio nocturno decidiu ir descobrir mundo e no meio das trevas desapareceu em plenos Olivais. Chamaram, procuraram, esperaram e&#8230; nada. O casal conformou-se: o “Odie” desaparecera. Preparavam-se para fazer o luto quando, na madrugada seguinte, ao sair de casa, Cláudia deu de caras com o vadio. “Ah voltáste?! Então espera&#8230;”, conta-me o João ter pensado na altura. Pensou e fez. Quando saiu levou-o consigo, enfiou-se sózinho do carro e acelerou. Ele lá ficou na rua. Até hoje nunca mais levou a mal aquele gesto e aprendeu a passar os dias em liberdade, situação bem mais adequada a qualquer cão do que ficar a vida fechado num apartamento a contocer-se de bexiga cheia porque os donos têm que se esfalfar lá nos empregos e apertos de cão não são argumento que se apresente ao chefe para sair antes do trabalho concluído.<br />
O João calcula que já tenha sido atropelado dezenas de vezes e as cicatrizes não enganam. Mas se uma vida em muitos prédios e poucos jardins pode não ter segredos para um cão atrevido, também a realidade campestre pode ser dominada e usufruída. Em determinada altura a família morou no Ribatejo, onde fez amigos para a vida. Quando lá regressa, é certinho que vai reviver o passado e trocar umas lambidelas e dar umas corridas a campo aberto. Se der tempo, um silvado que emane cheiro a coelho pode ser um belo desafio e fazer até esquecer que há regresso. Aconteceu da última vez: não deu pelo tempo passar e quando voltou já os donos tinham partido. Lá ficou uma semana de “férias” com o ramo da família residente na aldeia. Sem sombra de problemas, pese embora um cão também seja atacado pelas saudades.<br />
Para quem já usufruiu de duas casas em Lisboa e deslocava-se diariamente entre uma e outra várias vezes ao dia, nada de anormal. Uma era perto da Rotunda do Aeroporto, a outra ao fundo da Avenida Marechal Gomes da Costa, depois à direita, mais umas voltas sem marear, alguns quilómetros nas patas, e pronto, chegava ao outro lar. O João diz que nunca ninguém soube como atravessava a avenida, que nem é permeável nem a um cão destemido. Provavelmente ia mesmo pelas passagens aéreas como os outros peões. Mais insólitos? Bem, uma vez trincou duas lâmpadas que apanhou a jeito e nem azia lhe fizeram. Um estômago de aço como convêm. Deixei para o fim a mais radical das experiências do cão a quem baptizaram com o nome do infeliz canídeio que teve a sina de ir morar para casa do gato Garfield. O cenário foi uma praça de vacas em Castelo de Vide. O povo juntou-se como de costume para ver e realizar umas alarvidades com umas vitelas e “Odie” deve ter achado o desafio à altura. Sem que ninguém desse por ele, desceu das bancadas, deu as voltas que era preciso e foi acolhido com uma gargalhada geral quando deu de focinho com uma vaca espavorida . Foi um agora corres tu atrás de mim, ora agora vou eu a chegar-te aos calcanhares. Uma tarde memorável, e diferente, claro está. Conta o João que ainda agora em Castelo de Vide, onde está outro ramo da família e onde também não há beco estranho, a veia tauromáquica do animal é comentada. Posto isto, deixa-me só dizer-te, antes de terminar, que nunca mais vou usar aquela triste expressão da “vida de cão”. É que alguns têm “vida de Lordie”.</p>
<p>Um canino abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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