Author Archive for António Martins Neves Archive Page
Descansado Fernando,
o exclusivo das histórias insólitas não consegue ser teu. E se são reveladores esses retratos que envias daí. Mas hoje trago-te um para a troca, e acho que vais ter que te esforçar para arranjares um cromo equivalente a este para a nossa colecção: o departamento da Polícia Judiciária portuguesa que combate a maior bandidagem que por cá existe foi assaltado por um toxicodependente solitário, que entrou lá de noite por escalonamento. Uma ocorrência com contornos inacreditáveis, anunciado em comunicado oficial. O resto do folhetim são as divergências nos relatos da Imprensa, algo que só encaixa no surrealismo em que o jornalismo daqui se está a afundar.
Remediado Fernando,
tive um professor que no final da adolescência decidiu sair de casa dos pais, assim como um navio que solta a amarra do porto para se poder fazer ao mar. Claro que não deitou contas e o que ele esperava ser um idílio começou a ganhar contornos de pesadelo. Pagar o quarto e comer exigiam dinheiro que não tinha suficiente. Sabedora disso, a mãe ia levar-lhe as refeições, que ele aceitava mas recebia em tom de protesto:”Lá vem a burguesia dar de comer ao proletariado”.
Verdejante Fernando,
andava eu a falar-te de episódios mais ou menos banais de umas férias sem história, apesar de boas, e eis se não quando sou quase massacrado com essa artilharia verde, vindo de onde eu já conheci, por tua causa, pessoas, lugares e modos, mas donde não esperava sinceramente um reviravolta assim. Um rochedo, uma montanha de lava arrefecida há milhares de anos, verdejantes, numas ilhas que não conseguem livrar-se dessa condição de ficarem no enfiamento do maior deserto do mundo.
Andei por aqui a remoer que te tinha que te responder à altura. Com uma faena dessas registada aqui, que trouxesse o país nas nuvens, nós todos esquecidos das desventuras. Procurei, investiguei, ouvi, li e o melhor que encontrei para poder ombrear com essa autêntica provocação foi que aqui perdemos menos verde este ano. Assim mesmo!
Pândego Fernando,
gosto muito dos dias e perco-me pelas noites, mesmo quando são curtas. É bom sair quando o escuro já domina e ir por aqui sentir o viver, a pacatez animada, onde se passa o tempo da melhor forma que se pode, porque ele não falta, porque não é preciso correr atrás da vida, porque ela vem ter connosco. Gosto daquela meia-luz, em que se vê o que é importante e nada mais.
Memorado Fernando,
acontece-me quase sempre no final de Agosto. Gosto de vir para esta casa simples, que é dos meus. Calmaria completa, embora a estrada nacional fique a menos de 100 metros. Ninguém por baixo, ninguém por cima, raros carros na rua. Só que do outro lado do asfalto que liga Lisboa ao Algarve há uma herdade com um abastado rebanho de vacas. E é sempre em Agosto que oiço o que não quero, pois sempre por esta altura tiram os vitelos às mães. Sabes o que isso significa?
Distendido Fernando,
as férias não proporcionarão os melhores motivos para escrever. A mim, assaltam-me as ideias nos momentos, mas depois esvaiem-se na hora de as transmitir. Quando não é logo ali, sem algo onde alinhavar aqueles arrelampamentos, lá se vai a ideia banal que parecia genial. Por essas e por outras, deixo-te alguns “quadros” de que pude usufruir nos últimos dias.
Um ilustrado abraço.
António Martins Neves
Refastelado Fernando,
quando começou a guerra na Geórgia fui aqui à estante reler o que escrevera sobre aquele país o falecido grande repórter Ryszard Kapuscinski no livro “O Império” quando por lá passou em 1967, em pleno vigor da depois extinta União Soviética. Lembrava-me que o destaque principal era sobre a forma como os georgianos faziam conhaque. Esquecera-me do pormenor de que a célebre aguardente - nascida por aquelas bandas do Cáucaso (é a bebida nacional na vizinha Arménia), onde a humanidade também deu os primeiros passos – é avessa a agitações e violências.
Ouvi uma mulher chorar
8 comentários Publicado por António Martins Neves 10 Agosto 2008 em Portugal.
Distendido Fernando,
ouvi uma mulher a chorar em directo na televisão.Telefonou para um daqueles programas de desabafos que se chamam sugestivamente Opinião Pública e lavou-se em lágrimas. Disse que era brasileira e estava num farrapo. O assalto a um banco em Lisboa realizado por conterrâneos agravaram-lhe ainda mais o sentimento de segregação que já vinha sentindo pelo sotaque. É assim que se vive na União Europeia, no século XXI. E muito pouca gente se importa. Acho que a maioria até elogia, a avaliar pelo que se lê na Internet.
Amor, duas bicicletas e uma tenda
0 comentários Publicado por António Martins Neves 1 Agosto 2008 em Portugal.
Veraneante Fernando,
amor, duas bicicletas e uma espécie de tenda. Isso mesmo: uma receita diferente da habitual, mas que apresenta resultados surpreendentes: o casal andou quatro anos nas máquinas de pedalar, que resistiram admiravelmente e tudo se prolongou por longos 38 mil quilómetros. Começou na Suiça e acabou na Tailândia.

Descansado Fernando,
ficou-me aquele matraquear para a vida. Depois de um dia exaustivo de viagem e das malas arrumadas, o mundo virava e eu podia ver outra página. Logo ao acordar. Os cascos dos burros, das mulas, um cavalo ou outro, que desfilavam ali à frente do quintal, rente ao muro de pedra. Ainda o sol não se tinha erguido e já a vida desfilava ali nos meus ouvidos. Era só vestir-me a correr e observar as pessoas a rumarem lentamente à procura da vida, que veria depois em cima daquelas lombadas no regresso, quando o calor já apertava.


