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	<title>Atlântico expresso &#187; António Martins Neves</title>
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	<description>Um mar de palavras e memórias</description>
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		<title>Um tipo desenrascado</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Mar 2011 17:07:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Civilizado Fernando, também já ouviste dizer que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo, que as aparências iludem, olhem para o que ele faz e não para o que diz e outros ditados, lugares comuns e afins. Fiquei ainda mais crente na sabedoria popular quando há dias conheci pela televisão e depois [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/Manguito.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1187" title="Manguito" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/Manguito.jpg" alt="" width="219" height="230" /></a>Civilizado Fernando,</p>
<p>também já ouviste dizer que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo, que as aparências iludem, olhem para o que ele faz e não para o que diz e outros ditados, lugares comuns e afins. Fiquei ainda mais crente na sabedoria popular quando há dias conheci pela televisão e depois pelos <a href="http://www.google.pt/search?hl=pt-pt&amp;tbs=nws%3A1&amp;q=armando+vara+passou+%C3%A0+frente+de+doentes&amp;btnG=Pesquisar&amp;aq=f&amp;aqi=&amp;aql=&amp;oq=">jornais</a> uma história de um cavalheio &#8220;bem posto na vida&#8221;, como se dizia, que tem originado centenas de notícias nos anos recentes por ver o seu nome associado a situações entregues à justiça por suscitarem dúvidas que têm a ver com corrupção e crimes afins. Um ex-ministro de quem o atual chefe do governo anunciou ser amigo pessoal. O homem confirmou o que já se sabia há muitos anos: que é um tipo desenrascado, para me socorrer de um adjectivo cheio de atualidade. O verdadeiro significado do comportamento fala por si e tu concluirás do calibre do indivíduo, para usar também um substantivo muito em voga nos noticiários.<br />
<span id="more-1186"></span>Coincidência das coincidências, o episódio passou-se no centro de saúde onde sou (e bem) assistido pelo meu médico de família, uma unidade do Serviço Nacional de Saúde que funciona acima da média, pelo que posso testemunhar, em comparação com os queixumes que abundam acerca de muitas outras. O tal ex-ministro, ex-deputado na nação, ex-administrador do maior banco nacional, a Caixa Geral de Depósitos, ex-administrador do maior banco privado português, o BCP, e ex muitos outros cargos importantes recorreu como o comum dos cidadãos ao Centro de Saúde de Sete Rios, aqui em Lisboa, presumo que por ser a sua zona de residência. Só lhe acentaria bem o comportamento vindo de um dito socialista defensor do estado&#8230;social. Pensas tu, Fernando, e pensava eu, mas não. O homem entrou por lá a dentro, passou à frente de idosos doentes à espera de consulta há uma hora para se chegar junto de uma médica e pedir-lhe um atestad. Argumento para a incivilidade: estava com pressa, tinha que ir viajar. Do que lhe foi atestado não há conhecimento que seja público, pelo menos.<br />
E o mais incrível é que a médica lhe passou o papel que desejava e o sujeito desenrascado lá foi à vida dele. Só não terminou por aqui a alarvidade porque um dos pacientes achou-se no direito de formalizar queixa da situação e estava por perto um jornalista da TVI. Azar dos Távoras, como se usa também dizer. O que se seguiu foi um chorrilho de desculpas, com destaque para as que foram dadas pela diretora unidade de saúde: Armando Vara, o protagonista de mais este episódio enobrecedor, abusou dos seus direitos, queixou-se a senhora. Evidente! Qualquer um de nós chegaria lá e abusaria dos nossos direitos com aquela facilidade toda e aterrorizaríamos qualquer médico que não nos fizémos o que exigíssemos na hora. Só não teremos semelhante afronta para contar porque não somos uns tipos desenrascados como o doutor Vara. Então se o antigo caixa num humilde balcão de uma agência bancária em Trás-os-Montes chegou onde já o vimos, que mais poderá ser senão uma criatura desempoeirada, que sabe fazer pela vida e consolidar de profícuas amizades, que vão desde os mais altos magistrados da nação  a sucateiros labutadores e apostados em fazer por ter uma bela vidinha. A história, ao contrário do que se possa pensar, não teve grande eco por aqui, tu saberás também porquê. O tipo desenrascado deu-se, obviamente, ao luxo de não justificar o injustificável, do Centro de Saúde nunca mais se ouviu um piu sobre o assunto e já quase toda a gente se esqueceu da afronta. O tal tipo desenrascado está envolvido numa série de processos onde é acusado ou está envolvido por trapaçadas, corrupção e outras vigarices, que poderão não ser verdade e o indivíduo sair incólume delas, o que é mais natural do que o contrário. Mas desta condenação ele não se livra: é mal criado, desrespeitador do seu semelhante, arrogante e indigno de partilhar as instituições públicas que conseguem sobreviver num país com gente de tal laia. É a minha opinião, Fernando, e tinha que desabafar isto contigo, que deves andar a estas horas bem mais feliz no meios de feras várias e outros mamíferos bem mais cordiais, previsíveis e inofensivas do que aqueles com que temos que compartilhar a atmosfera por aqui.</p>
<p>Um revoltado e justo abraço,</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>À venda</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Nov 2010 14:49:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Afastado Fernando, eram uns quatro, pequenos e magros, de olhos rasgados como os conhecemos. Havia uma mulher.Enquanto uns observavam a frente do edifício a alguns metros de distância, outro chegou-se à porta de vidro, encostou-lhe a ponta do nariz e colocou as mãos em concha dos lados da cara para travar a luz e conseguir [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC11327.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1144" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC11327-300x225.jpg" alt="" width="264" height="199" /></a></p>
<p style="text-align: left;">Afastado Fernando,</p>
<p style="text-align: left;">eram uns quatro, pequenos e magros, de olhos rasgados como os conhecemos. Havia uma mulher.Enquanto uns observavam a frente do edifício a alguns metros de distância, outro chegou-se à porta de vidro, encostou-lhe a ponta do nariz e colocou as mãos em concha dos lados da cara para travar a luz e conseguir ver para dentro do espaço amplo e vazio.Pensei:“Já está&#8230;”. Mas passaram-se vários meses sem que nada acontecesse ao ponto de eu achar que me tinha enganado na vaticínio. Acabou por se confirmar. Há umas semanas começaram as obras e a nova loja dos chineses já foi inaugurada.<br />
<span id="more-1143"></span>Se quiseres um retrato da realidade do país, quando vieres cá posso mostrar-te este. Um antigo e espaçoso stand de automóveis de marca americana transformado num hipermercado chinês. Onde antes se expunham viaturas para a classe média, agora vendem-se a preços baixos utilidades e bugigangas de qualidade nem sempre garantida. As pessoas deixaram de comprar carros, a empresa vendedora, presumo, viu-se obrigada a cortar nos custos sem receitas e abandonou o espaço grande como um ginásio. Instalou-se logo aquele ar de abandono que agora tanto se testemunha aqui nas ruas, com muitas lojas fechadas, as manchas nos vidros desenhadas no pó pela chuva, as cartas no chão que ninguém vai buscar, misturadas com folhas secas que o vento consegue fazer passar por baixo das portas.Os cartazes a anunciar “Vende-se” ou “Aluga-se” começam até  a ficar debotos pelo tempo e a decadência instala-se. No caso que te relato, valeram os chineses. Mesmo à beira de uma rua onde não há quase peões e passam centenas, milhares de pessoas por dia, mas às vezes a mais de 100 quilómetros à hora, os asiáticos acharam que valia a pena investir. E não é por escassez de oferta na zona. Num raio de cinco minutos a pé conto, assim de repente, mais quatro lojas destas, abertas todos os dias, de manhã à noite, sem domingos nem dias santos, onde empregados e patrões misturam sotaques, línguas e cores de pele. Pelo que se vê, a coisa funciona. Como de negócios não sei nada, limito-me a presumir que as contas no final do mês darão para suportar as despesas. A realidade, essa criatura que agora começa a ter espinhos aguçados, evidencia-nos que onde antes estavam carros confortáveis a piscar o olho a gente remediada agora estão lojas do mais “low cost” que há, capazes de satisfazer algumas necessidades básicas a quem anda a contar os cêntimos no fundo dos bolsos à beira de se romperem.<br />
Nem por acaso, escrevo-te esta carta, Fernando, quando está aqui a um quilómetro ou dois de distância, aquele a quem já chamam o “homem mais poderoso do mundo”, o presidente da China, Hu Jintao. Claro que ele não veio procurar standes de carros abandonados para transformar em lojas de quinquilharias fabricadas lá no seu país por multidões de operários sem voto na matéria, que aspiram comprar uma viatura confortável um dia. Veio às compras a um país arruinado, o melhor para fazer negócios.<br />
E pronto, queria dizer-te que o sonho europeu está morto e quase enterrado e agora é de Oriente, como sempre aconteceu, aliás, que o sol se volta a erguer. Não acredito é que alguma vez veja fechar um bazar para abrir um stand de automóveis. Nem em sonhos!</p>
<p style="text-align: left;">Um forte (mas gratuito) abraço.</p>
<p style="text-align: left;">António Martins Neves</p>
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		<title>Tragédia com nêsperas</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Aug 2010 10:57:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Folgado Fernando, há um ditado que diz: quando estamos em maré de azar, até os cães nos mijam para as pernas. Sem dúvida que às vezes há quem deva ver o mundo a abrir-se-lhe debaixo dos pés sem  que consiga evitar a queda no abismo. E termina mesmo em tragédia, embora até na morte haja [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/nespereira21.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1128" title="nespereira2" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/nespereira21-234x300.jpg" alt="" width="234" height="300" /></a></p>
<p>Folgado Fernando,</p>
<p>há um ditado que diz: quando estamos em maré de azar, até os cães nos mijam para as pernas. Sem dúvida que às vezes há quem deva ver o mundo a abrir-se-lhe debaixo dos pés sem  que consiga evitar a queda no abismo. E termina mesmo em tragédia, embora até na morte haja quem opte por não perder a dignidade nem desista de pensar nos que cá ficam. Venho hoje contar-te a história de uma família que ficou reduzida a uma criança de fraldas em pouco tempo  e do papel de uma nespereira na trama.<br />
<span id="more-1126"></span>O pai e os três filhos, todos adultos e criados, morreram assim quase de rajada. Por doença ou por acidentes, deixaram a mãe víúva com um<br />
neto pequenino como único descendente direto. Pelos pormenores com que me contaram a tragédia, a senhora começou a dar sinais de dificuldade em enfrentar realidade tão enlutada. Não nos gestos ou na compostura, mas mesmo pelas palavras. Terá confidenciado a uma vizinha que tinha decidido desistir e ir atrás do resto da família. Começou uma espécie de jogo do gato e do rato, entre uma mulher atormentada pela desgraça que lhe entrara pela porta e a outra, sabedora e confessora de uma morte anunciada que se sentia obrigada a travar. Passou a ser uma espécie de guarda da vizinha, a controlar-lhe os passos, a adivinhar-lhe os destinos, a evitar deixá-la sózinha sempre que pudesse. E a tornar isso claro para a outra, que lhe sublinhava a perda de tempo: &#8220;Não serve de nada estares a controlar-me! Já sei onde vai ser e tudo&#8230;&#8221; .<br />
Andavam nisto e seria já para aí final de Primavera, princípio de Verão, quando entra uma nespereira na história. A árvore estava no quintal da viúva e brindara-a com uma bela carga de fruta &#8211; uma espécie de compensação natural pela desgraça da casa. A dona começou a mostrar preocupação com o destino da fruta e a insistir com um parente para a ir colher de uma assentada. A pressioná-lo mesmo. A árvore era alta, era preciso uma escada, ela não se via a realizar a colheita como devia ser, que tinha que ser, tinha que ir, era uma pena a fruta estragar-se. Um dia lá conseguiu os seus intentos e o familiar afastado colheu as nêsperas todas. Foi de manhã. À tarde, a vizinha foi encontrar a mulher enforcada na árvore.<br />
Quando chegaram a esta parte da história, deram-lhe o tom de final que eu não esperava. E quis esclarecer porque raio alguém que decide suicidar-se adia a decisão por causa de uns quilos de fruta.&#8221;Se não as apanhassem, depois ninguém ia comer as nêsperas&#8221;, explicaram-me.</p>
<p>Um frutado abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Crime sem castigo</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Jun 2010 12:01:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Afastado Fernando, foi no momento em que levantei os olhos do artigo sobre a responsabilidade dos pais na educação dos filhos que vi o gesto fatal. Tirou o último cigarro, amachucou o maço e pimba! atirou-o para a calçada da rua, junto ao passeio, no intervalo entre dois carros estacionados. Estudos e sondagens sobre civilidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC10068.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1113" title="SDC10068" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC10068-300x225.jpg" alt="" width="242" height="181" /></a>Afastado Fernando,</p>
<p>foi no momento em que levantei os olhos do artigo sobre a responsabilidade dos pais na educação dos filhos que vi o gesto fatal.<br />
Tirou o último cigarro, amachucou o maço e pimba! atirou-o para a calçada da rua, junto ao passeio, no intervalo entre dois  carros estacionados. Estudos e sondagens sobre civilidade pouco podem contra a dura realidade revelada nos pequenos gestos. Dizem-nos que já somos assim e assado, mas atiramos lixo para o chão com a naturalidade de quem respira. A teoria e a prática, a ficção e o real, o que parece e o que é, o que lemos e o que vemos, o que nos garantem e o que sentimos.<br />
<span id="more-1112"></span>Sinto que este estado de espírito se acentuou nos últimos tempos por aqui, na  tua terra. Umas pessoas andaram a dizer-nos que tínhamos futuro e agora, com o mesmo desplante, vêm apresentar-nos uma conta que desconhecíamos. Alguém garantiu que ia usar bem o nosso livro de cheques, que podíamos estar descansados, e agora descobre-se que gastaram muito mais do que tínhamos na conta e vamos ter que pagar. Acreditámos, agimos de boa fé, mas fomos vigarizados, atraiçoados. Queixa na polícia! Qual polícia? Não há. Crime sem castigo, nada a fazer, a não ser o que nos mandam. Dizem. Sejam responsáveis, exigem-nos os mesmos que não o foram, que nos deixaram a conta negativa porque juraram usar bem o quase nada que tínhamos. E não acontece nada. Não lhes acontece nada. Descobrimos que não há multa para tal infracção. Nem se fala disso. Esqueçam. Tudo o que importa é saber como vamos repor o que era nosso e gastaram sem nos avisar. Escondendo. É o vale tudo. A mentira banalizou-se, tornou-se normal, é aceite. Foi oficializada, decretada. Prepara-te para, quando voltares, veres ainda mais gente a atirar lixo para a rua.</p>
<p>Um verdadeiro abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		</item>
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		<title>O novo bispo de Maliana</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Apr 2010 08:59:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Memorado Fernando, hoje acordei a ouvir a notícia de que Timor-Leste passou a ter um terceiro bispo, que terá a seu cargo a diocese de Maliana, na zona Ocidental do país, junto à fronteira  com a Indonésia. Quando ouvi o nome, recuei dez anos na memória e recordei-me que conhecera um padre chamado Norberto Amaral, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><img class="alignleft" src="http://4.bp.blogspot.com/_fOJD67rCP10/S2SHKik3tJI/AAAAAAAAhgg/cIxYvAw4fK8/s400/1702729-Maubisse_Town_and_The_Church_of_St_Matthew-Maubisse.jpg" alt="" width="200" height="267" />Memorado Fernando,</p>
<p style="text-align: left;">hoje acordei a ouvir a notícia de que Timor-Leste passou a ter um terceiro bispo, que terá a seu cargo a diocese de Maliana, na zona Ocidental do país, junto à fronteira  com a Indonésia. Quando ouvi o nome, recuei dez anos na memória e recordei-me que conhecera um padre chamado Norberto Amaral, em Maubisse, quando estive lá, antes da independência e depois da devastação indonésia causada por militares e  milicianos. Não me enganei. Foi o padre que entrevistei em Mauibisse &#8211; a &#8220;Sintra timorense&#8221; &#8211; na horta, de galochas, quando preparava a terra para semear batatas.</p>
<p><span id="more-1096"></span>Encontrei nos arquivos da <a href="http://www.lusa.pt">Lusa</a> uma reportagem e uma notícia que escrevi depois desse encontro com o novo bispo timorense. Achei que gostarás de ler, por isso seguem junto.</p>
<p>Um abraço à malai.</p>
<p>António Martins Neves</p>
<p style="text-align: left;">
<p style="text-align: left;">A primeira:</p>
<p>Maubisse,  Timor-Leste, 20 Out [1999] (Lusa) &#8211; &#8220;O prior é aquele senhor ali&#8221;,  disse o sacristão apontando para um grupo de homens que cavava um terreno  inclinado nos arredores de Maubisse. Um timorense de chapéu à &#8220;Cowboy&#8221;,  galochas e lenço ao pescoço aproximou-se: &#8220;Boa tarde: Sou o padre  Norberto Amaral&#8221;.</p>
<p>Quem  chegue a Maubisse e procure o padre da paróquia é muito natural  que lhe suceda o que ouviu hoje o enviado da agência Lusa: &#8220;o senhor  padre está na horta&#8221;.</p>
<p>E lá estava o sacerdote, patilhas ralas até  meio da face, 42 anos, enxada na mão, a preparar o terreno antes  das chuvas que se adivinham para semear batatas, feijão e  morangos.</p>
<p>A acompanhá-lo, outro padre, o vigário da paróquia,  Mateus Afonso, que não pousa a enxada enquanto o seu superior  fala da sua experiência de sacerdote-agricultor.</p>
<p>&#8220;Não gosto  de ficar em casa, sentado na cadeira. E assim ensino o povo a  trabalhar&#8221;, explicou, concordando que prefere ensinar a pescar do  que oferecer o peixe.</p>
<p>Isto, enquanto as obrigações da paróquia  não apertam. Quando voltarem os habitantes que fugiram das  milícias e a situação normalizar, Norberto Amaral vai ter que dedicar menos  tempo à horta e mais às almas dos maubissenses.</p>
<p>E poderá  finalmente assumir a sua simpatia com a causa independentista de  Timor-Leste, que conseguiu manter mais ou menos camuflada durante  a invasão indonésia.</p>
<p>&#8220;Eles (milícias integracionistas)  desconfiavam, mas consegui sempre que continuassem a falar  comigo&#8221;. Por isso, evitou a perseguição de que foram alvo muitos  dos outros padres timorenses, ficou sempre em Aileu e diz ter  contribuído para evitar que fossem destruídas mais do que as 12  casas incendiadas na paróquia.</p>
<p>Ao contrário, o seu vigário que se  assumiu abertamente apoiante da resistência à ocupação indonésia,  teve que fugir e só recentemente regressou.</p>
<p>Para cultivar,  com o seu colega, a horta e as almas.</p>
<p>Lusa/Fim</p>
<p style="text-align: left;">
<p style="text-align: left;">A segunda:</p>
<p style="text-align: left;">
<p style="text-align: left;">Maubisse,  Timor-Leste, 20 Out [1999] (Lusa) &#8211; Maubisse quase não foi vandalizada  pelas milícias integracionistas, que abundavam na vila. Mas houve  que pagar um preço: seis milhões de rupias (120 contos) que, ironicamente,  foram doadas pelo governo indonésio.</p>
<p style="text-align: left;">O plano de destruição da  localidade estava pronto para ser executado, quando no dia 13 de  Setembro um comerciante de Maubisse decidiu tentar a sorte e  evitar que as casas fossem incendiadas.</p>
<p style="text-align: left;">Tinha recebido um subsídio  de seis milhões de rupias das autoridades indonésias para  desenvolver o seu negócio e propôs-se doá-los aos milicianos se  partissem sem queimar as casas. O negócio foi aceite e apenas 12  casas foram queimadas, contou hoje à Agência Lusa o padre da  localidade, Norberto Amaral.</p>
<p style="text-align: left;">O  dinheiro não impediu, porém, que a população que não havia fugido  da vila fosse levada para Timor-Ocidental. Mas só cerca de 700 pessoas  tiveram que partir nos camiões do exército indonésio, quando milícias  e militares partiram definitivamente, a 14 de Setembro.</p>
<p style="text-align: left;">Os  restantes 16.800 ficaram nas montanhas dos arredores e já voltaram  a casa, disse o prior.</p>
<p style="text-align: left;">Foi assim que a bonita localidade, situada  numa cova rodeada demontanhas, se conseguiu manter quase  intacta, ainda com muros de arbustos aparados a ladear algumas  ruas e caminhos e uma grande igreja em construção há cinco anos.</p>
<p style="text-align: left;">Isto  apesar do grande número de elementos da milícia Mahidi, que actuaram  na região nos últimos tempos. &#8220;Até mulheres&#8221; faziam parte dos grupos  paramilitares, disse um dos habitantes da localidade à Lusa.</p>
<p style="text-align: left;">Quanto  à possibilidade de essas pessoas regressarem à região, o mesmo  residente rejeitou-a: &#8220;Eles não voltam, porque se voltassem estes&#8230;&#8221;,  afirmou, fazendo um gesto com a mão a simular o corte da garganta  enquanto apontava para a sede local do Conselho Nacional da Resistência  Timorense (CNRT).</p>
<p style="text-align: left;">Lusa/Fim</p>
<p style="text-align: left;">
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		<title>Primavera</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Mar 2010 16:57:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Tropical Fernando, terminou hoje um dos invernos mais chuvosos de que há memória no país. Oficialmente, começou a primavera e o tempo confirma: está sol, céu limpo, 18 graus de temperatura. Se a natureza cumprir, o que já não é garantido, os cucos devem ter chegado hoje daí, de África, e já se devem fazer [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 2cm } 		P { margin-bottom: 0.21cm } --><img class="alignleft" src="http://www.dzai.com.br/static/user//24/24540/c99534634ac4a0a58fa222f99fb2cc87.jpg" alt="" width="248" height="186" />Tropical Fernando,</p>
<p>terminou hoje um dos invernos mais chuvosos de que há memória no país. Oficialmente, começou a primavera e o tempo confirma: está sol, céu limpo, 18 graus de temperatura. Se a natureza cumprir, o que já não é garantido, os cucos devem ter chegado hoje daí, de África, e já se devem fazer ouvir aqui, pelos bosques. A água dominou nos últimos três ou quatro meses, mas agora remeteu-se às evidências.</p>
<p><span id="more-1066"></span>Mais habituadas à seca e ao dito bom tempo, as pessoas aqui já largam água pelos olhos (não são só lágrimas) e até as pedras da calçada parecem ainda reter chuva. Uma fartura! Até a barragem do Alqueva atingiu a capacidade máxima e ia deitando por fora, uma espécie de milagre para descrentes. Um autêntico mar de água doce. Houve as desgraças que sabes: temporais e ventanias, as enxuradas que levaram meia Madeira para o mar e mataram mais de 40 pessoas. Tudo porque, dizem os meteorologistas, o anti-ciclone que costuma passar os invernos nos Açores este ano deslocou-se um pouco mais para Norte e deixou passar o mau tempo que vem do outro lado do Atlântico. Temos uma garantia, pelo menos: não vai haver falta de água este ano, talvez haja menos incêndios e a natureza retribua a generosidade dos céus.<br />
Depois de tanto quilómetro cúbico de água despejado sobre as cidades e os campos, recordei-me há dias que não tenho guarda-chuva. Esqueço-me deles, perco-os,  pelo que desisti de comprar tais utensílios. E consegui que a chuva só me molhasse a cabeça uma ou duas vezes desde o Verão. Ando na rua, pouco é certo, quase não uso carro no dia-a-dia mas escapei-me a indesejáveis encharcamentos sem saber muito bem porquê. Lembrei-me que em regiões tropicais, se calhar aí também, sucede o mesmo: ninguém sabe o que são guarda-chuvas. Em Belém do Pará, na foz do Amazonas (Brasil), onde ouvi cargas de água fazerem-se anunciar ao longe com ruído, disseram-me que essas protecções são dos objectos mais raros na cidade. As pessoas encostam-se às paredes, ficam ali abrigadas debaixo dos beirais, à espera que passe e pronto.<br />
No meio de todas as consequências de um Inverno dos antigos, retive um episódio indicador de que nem só casas e estradas em leitos de cheia podem causar as desgraças a que assistimos. Num sábado, ao final da tarde, quando chovia desalmadamente por todo o país, estava a trabalhar e tocou o telefone mais uma vez: duas cegonhas &#8220;desalojadas&#8221;. Não fora inundação, claro. Aparentemente foi mesmo a idade do ninho, a água e o vento que empurraram aquele emblemático e gigantesco monte de paus entrelaçados e pastos do alto da torre da igreja, antes da missa das 18. Era um dos ícones, parte da imagem associada a Figueira de Castelo Rodrigo, a vila fronteiriça perto de Guarda vitimada pela intempérie. Disseram os técnicos da câmara local que o ninho, a que chamaram &#8220;centenário&#8221; e teria seguramente muitas dezenas de anos, pesava mais de uma tonelada (MIL QUILOGRAMAS!). Deixou uma cratera no telhado da igreja que faz juz ao peso, mas nenhum crente se magoou. Do casal de cegonhas nunca mais ninguém falou. Já devem ter construído outro ninho, que é tempo de começar a trabalhar para tazer descendência ao mundo e chuva é água. E  é a vida&#8230;</p>
<p>Um enxuto abraço</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>&#8220;Porquê?porquê?porquê?&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Mar 2010 08:00:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Ele &#8220;noventa e&#8230;&#8221;, ela lá perto. Vão os dois ao ritmo que a idade permite, pelo passeio. Ela agarrada ao braço dele, como um casal &#8220;à antiga&#8221;. Nota-se que os corpos se deixaram vergar pelos anos, caminham tortinhos. Ela ligeiramente mais atrás, braço quase esticado para não deslocar do braço dele, toda discrição. As honras [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC10489.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1061" title="SDC10489" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC10489-300x225.jpg" alt="" width="261" height="197" /></a>Ele &#8220;noventa e&#8230;&#8221;, ela lá perto. Vão os dois ao ritmo que a idade permite, pelo passeio. Ela agarrada ao braço dele, como um casal &#8220;à antiga&#8221;. Nota-se que os corpos se deixaram vergar pelos anos, caminham tortinhos. Ela ligeiramente mais atrás, braço quase esticado para não deslocar do braço dele, toda discrição. As honras são mesmo para ele.</p>
<p><span id="more-1062"></span>Sem gravata mas com lenço ao pescoço, óculos de sol, um chapéu quase informal, casaco, sapatos de cabedal brilhantes, tudo em tons de castanho, a condizer. São os dois muito pequenos, abaixo de metro e meio seguramente, um casal de classe média-alta provavelmente já com bisnetos. Vão assim pelo passeio, com aquele ritmo de quem não tem  pressa para nada, quando surge pela esquerda a terceira figura de uma história sem fim. É igualmente baixo, inclinado tal e qual, mas pelo vestir percebe-se que nunca pode dar tanta importância à aparência. Anda com as mãos atrás das costas, seguras uma na outra. Percebe-se que são calejadas.Usa um boné aos quadrados, botas de untar, não há ali roupa a condizer. Mas conhecem-se. Os homens avançam um para o outro, a mulher pelo braço fica um pouco mais para trás, enquanto eles pegam na mão um do outro e dão ares de estarem a apertar com força. O que veste a rigor diz alto da sua baixeza: &#8220;Há quanto tempo! Mas porquê?, porquê&#8230;? porquê&#8230;?&#8221; E sacode com veemência o braço do outro homem dando força física à saudade implícita no cumprimento. Não se ouve a resposta, mas percebe-se que a atitude tem eco. Não se visitarão em casa, mas conhecem-se de há muitos anos. Ficam a conversar menos que  uns cinco minutos. Quantos são? &#8220;Noventa e&#8230;&#8221; &#8211; o número sai sumido da boca do homem aperaltado, mas não deixa dúvidas. Aqueles dois metros quadrados de calçada portuguesa estavam a suportar uns 250 anos, contas por baixo e coisa rara. Uma honra, mesmo que para pedras.<br />
Uma mulher muita gorda sentada na esplanada do passeio largo fala a gritar com uma voz fina e contraditória que deve deixar com os nervos em franja os dois cães que tem presos pela trela. Os animais respondem no mesmo tom, ladram desalmadamente a tudo o que mexe. Ali está porque os cães se parecem com os donos. Misturam-se os ladros com os gritos numa confusão que ninguém consegue ignorar.<br />
A mistura histérica com ar de normal ofusca por completo a conversa dos dois homens e da mulher que assiste. Termina como começou: longos comprimentos, até á próxima. O casal segue a sua viagem sem pressa e o homem do boné dá meia volta e aponta em direcção ao café-pastelaria: &#8220;Vou buscar o meu almoço&#8221;.</p>
<p>Um calmo abraço</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>História do homem que anda</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Sep 2009 09:00:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Perspicaz Fernando, em momentos como o actual, entram-nos todos os dias pela casa dentro caras e vozes a tentar-nos convencer que são de uns predestinados capazes de nos salvar do apocalipse. É quase sempre assim antes de eleições. Um desfile de líderes políticos a suarem por nos fazer crer que o nosso bem estar é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Perspicaz Fernando,</p>
<p>em momentos como o actual, entram-nos todos os dias pela casa dentro caras e vozes a tentar-nos convencer que são de uns predestinados capazes de nos salvar do apocalipse. É quase sempre assim antes de eleições. Um desfile de líderes políticos a suarem por nos fazer crer que o nosso bem estar é a sua maior preocupação, que se lhe dermos o voto, é desta que o país irá onde nunca foi. O costume há mais de 30 anos. Nada habitual é alguém comportar-se como tendo uma missão a cumprir sem dar por isso, justificá-la numa frase com meia-dúzia de palavras e ninguém encontrar a mais remota explicação para um comportamento só registado pelos mais atentos.</p>
<p><span id="more-1021"></span>Augusto C. não tem a mais pequena queda para político, mal se lhe entendem as palavras da boca sumida e a sua capacidade de liderança nunca deve ter sido avaliada, para bem dele. O que lhe falta nestas matérias tão desenvolvidas pela ambição dos tantos que querem tomar nas mãos as rédeas da coisa pública, sobra-lhe em perseverança, que dispõe numa quantidade colossal, incalculável mesmo. E que faz o pequeno homem de tez quase negra, boné e uma dificuldade enorme em levantar os pés do chão? Anda! Mas não dá pequenos passeios. Percorre pelo menos uma dúzia de quilómetros diariamente. E porquê? Ao que me contam, costuma responder: “Tenho que ir às compras”. Ninguém acredita muito na explicação, tanto mais que costuma andar com a caixa que fixou por cima da roda traseira da bicicleta quase sempre vazia. Bicicleta? Não anda a pé?? Anda, mas sempre com a uma bicicleta ao lado, daquelas para aí com a idade do 25 de Abril. Em vez de uma bengala, apoia-se nas duas rodas, em cima das quais já deixou de se conseguir equilibrar há que tempos. Anda pela faixa de rodagem, encostado aos passeios, às bermas, e usa um colete reflector verde, igual aos que são obrigatórios para os automobilistas quando ficam empanados ou têm acidentes na estrada.Os dias correm quase sempre iguais: uma viagem de manhã para “ir às compras” com partida do bairro, passagem por outros dois até ao destino. Ali chegadao, bicicleta trancada num daqueles pinocos anti-carros em cima dos passeios. E o cão a guardar. Sim, Agusto C. tem um cão, pequeno como ele, que lhe segue os passos quando devidamente autorizado. Vai à solta, farejando aqui e ali, uma vezes atrás outras à frente, algumas correndo outras deslocando-se com preguiça. Feitas as “compras”, regressa a casa antes da hora do almoço. Quando a viagem decorre em locais com pouco trânsito, o cachorro ostenta um pose mais descontraída e solta, quando os carros surgem ameaçadores cola-se aos pés do dono. Ah, um pormenor nada irrelevante: cada uma destas tiradas é desenvolvida em etapas que terminam e começam metamaticamente nas diversas tabernas e cafés que existem no caminho. Depois de almoço a dose é repetida. E no dia seguinte e no outro e no outro&#8230;<br />
Dirás tu daí: então isso tudo não configurará alguma dependência das escalas nos balcões para “matar a sede” causada pela andança? Então mas se o podia fazer a dezenas de metros de casa, por que raio se sujeita a tamanha e estafante rotina? Uma vantagem tem seguramente: o exercício a que se impõe e que lhe impede a contemplação do mundo a partir de uma cadeira empalhada como é banal noutros reformados da sua geração. Para quem vê e ouve de fora, o resto afigura-se uma espécie de segredo à espera de ser revelado. Que também não deverá ter nada de extraterreno, mas apenas e só alguma necessidade do corpo ou da alma.<br />
Fica o exemplo da persistência e, recorrendo um pouco à imaginação, da convicção. Qual? Não faço ideia. Olha, deve ser porque sim&#8230;</p>
<p>Um insistente abraço</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Flash de um 15 de Agosto</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Aug 2009 15:33:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Refastelado Fernando, no dia mais animado do ano, enquanto te imagino espojado nos areais de Santo André ou lá por perto, nessas merecidas férias à beira de casa, há momentos que fazem a diferença aqui em Lisboa, donde a maioria dos habitantes desertou para locais ditos de férias e a cidade pode ser vivida de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-medium wp-image-1008" title="Tarde de Verão" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/Tarde-de-Verão-225x300.jpg" alt="Tarde de Verão" width="305" height="406" /></p>
<p>Refastelado Fernando,<br />
no dia mais animado do ano, enquanto te imagino espojado nos areais de Santo André ou lá por perto, nessas merecidas férias à beira de casa, há momentos que fazem a diferença aqui em Lisboa, donde a maioria dos habitantes desertou para locais ditos de férias e a cidade pode ser vivida de modo mais intenso do que no resto do ano. Registei o quadro que te envio.</p>
<p><span id="more-1007"></span>Nem tudo é samba, nem corridinhos, nem rock n´roll. Há quem se entregue às baladas ou ao swing, como no resto do ano. Na rua, no meio dos prédios. Com serenidade. Agosto não é só fugir para o caos ainda maior do que nos restantes meses. Pode ser assim, disfrutado com alma, no coração da capital. Se fosse fazer a comparação, a mulher ganhava destacada. Está a ler um livro sentada num banco de jardim, perna cruzada, jeans, ténis vermelhos a condizer com a camisola. Tem rabo de cavalo e os movimentos que faz resumem-se ao passar da página. Não me atrevo a tentar adivinhar que história lhe está a encher a alma. Seja qual for, é prazenteira, absorvente. Deixa-a quase inamovível. Está num banco de jardim, daqueles clássicos, de madeira. Virada a Norte, ao fresco, um acanhado relvado pela frente. O Verão que corra e que abrase. Uma tarde de estio há-de continuar a ser o que uma mulher quiser. Com o seu livro.<br />
Ele está a 20 metros mas não se vislumbram. A atenção recai-lhe em jornais de fim-de-semana. Há mais impaciência, um ler mais frenético, marcado pelas aspiradelas em cigarrilhas. Apaga-se uma e logo outra é acendida. O fumo entrai e sai logo, sem tempo para ser apreciado. Tudo decorre num ritmo mais nervoso do que do outro lado da esquina. Sentado num degrau de cimento, o homem parece cumprir um ritual apenas num local diferente. De calções, sandálias, seja lá como for, o mundo não pode passar ao lado. Os negócios, as eleições que se avizinham,  as guerras, a bolsa, jamaois poderão esconder segredos. Nem no dia em que o país mais romarias contabiliza e a acumulação de gente a tentar esquecer o resto do ano confirma uma vulgaridade:  a bela da vida não pára nem no 15 de Agosto.</p>
<p>Um despreocupado abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
<p><!-- 		@page { margin: 2cm } 		P { margin-bottom: 0.21cm } --></p>
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		<title>Carne é&#8230;crime???</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Aug 2009 10:14:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Omnívoro Fernando, anda aqui um grupo de pessoas a querer formar um partido para defender os outros animais, os irracionais. Que o resto não lhes interessa, os bichos sim estão desprotegidos e é preciso deputados de duas pernas para fazer valer os interesses de cães, gatos, bovinos, caprinos e seus semelhantes. Eles sentem-se mandatados para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-medium wp-image-1003" title="3699569913_9698cd9d26" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/3699569913_9698cd9d26-300x225.jpg" alt="3699569913_9698cd9d26" width="406" height="303" /></p>
<p>Omnívoro Fernando,</p>
<p>anda aqui um grupo de pessoas a querer formar um partido para defender os outros animais, os irracionais. Que o resto não lhes interessa, os bichos sim estão desprotegidos e é preciso deputados de duas pernas para fazer valer os interesses de cães, gatos, bovinos, caprinos e seus semelhantes. Eles sentem-se mandatados para isso e andam a recolher assinaturas de…outras pessoas. Assim à primeira vista, parece meritório. Se tentarmos ver para além da cortina de fumo, não encontro benevolência na atitude.</p>
<p><span id="more-1002"></span>Há dias dei de caras com uma frase escrita que me causou perplexidade e se afigura como reveladora da intolerância que cada vez ameaça mais o grupo de animais que constitui a nossa civilização. Assim de rompante, aquilo até não se entendia, mas o local onde fora escrita com uma lata de spray esclarecia o alcance da coisa. “Carne é crime”, lia-se na caixa frigorífica de uma carrinha de onde um homem vestido de braço descarregava carcaças de porco para um talho, numa rua de Lisboa. Franzi a sobrancelha. Por outras palavras, o que estava ali dito era que quem come carne é criminoso. É o meu caso. Ora essa! Eu que sempre me considerei um zelador dos interesses dos muitos animais com que já convivi na vida estaria da iminência de ir parar à cadeia se o escriba daquela frase conseguisse arregimentar subscritores para o disparate com que esborratara a camioneta da distribuição de carne? Corro riscos se for apanhado a comer uma coxa de frango por perspectiváveis brigadas de zeladores famintos por encontrar uma proteína animal num prato, como talibã em busca de tornozelo feminino? Não posso crer, mas quem não quer ver mais do que a vista alcança cai nestes ridículos. Fundamentalismos não existem só lá para a Ásia ou aí em África, onde em nome dos bons costumes há uns senhores a reprimirem povos a seu belo proveito, em nome da moral deles. Aqui, assim, vamos pelo mesmo caminho. Defendo onde for necessário que quem tenha um cão ou um gato fechados num apartamento não gosta deles. Criou-se a “moda” dos animais domésticos, com o alto patrocínio dos fabricantes de rações – um dos grandes negócios legais da actualidade – e houve um grupo de bem pensantes que arranjou logo argumentos para justificar todas as torturas necessárias para suportar os ditos animais de companhia. A pior de todas é a castração: sem poderem procriar, animais transformados em peças decorativas perdem a sua principal razão de existir. Isto nunca ouvi da boca de um defensor dos direitos dos animais. Mas quero crer que haja quem o afirme, em nome da civilização, pelo menos. Implícito na atitude de quem diz que consumir carne é crime está o sofrimento infligido pelos humanos aos seres vivos, em geral. E o mundo só não se tornará uma prisão gigantesca porque morreremos todos antes…à fome. Não posso crer que gente tão preocupada com o sofrimento alheio possa admitir que se “mate” uma couve ou permita que se cometa a barbaridade de arrancar uma maçã da árvore. Quando penso nisto tudo, ocorrem-me logo as centenas de mosquitos que se esmagaram (fui eu que os esmaguei!) contra a frente do meu carro. Atendendo ao número, não me livraria da pena máxima. É fraco o consolo, mas folgo saber que ninguém se livrará de tais grilhetas. Não haverá pobres nem ricos nesta justiça. Um exemplo: o que aconteceria ao Cristiano Ronaldo depois de passar 90 minutos a esmagar e arrancar a relva de um estádio?</p>
<p>Um sensato abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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