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	<title>Atlântico expresso &#187; Sem categoria</title>
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	<description>Um mar de palavras e memórias</description>
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		<title>O Twitter vale a pena, quando&#8230;</title>
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		<pubDate>Fri, 01 May 2009 09:00:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Internauta Fernando, a miséria abunda aí, aqui também, é preciso mudar os sistemas políticos, económicos, fazer a revolução na cabeça das pessoas, encontrar líderes dignos desse nome. Sem dúvida! Mas vão acontecendo umas pequenas coisas que nos adubam a alma, para a manter viva. A história que te venho contar hoje é o exemplo acabado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-medium wp-image-904" title="twitter1" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/twitter1.jpg" alt="" width="233" height="233" />Internauta Fernando,</p>
<p>a miséria abunda aí, aqui também, é preciso mudar os sistemas políticos, económicos, fazer a revolução na cabeça das pessoas, encontrar líderes dignos desse nome. Sem dúvida! Mas vão acontecendo umas pequenas coisas que nos adubam a alma, para a manter viva. A história que te venho contar hoje é o exemplo acabado de que a vontade das pessoas é que faz avançar o mundo e o resto é conversa.<br />
<span id="more-905"></span>O episódio começa numa rede social que está muito em voga agora, chamada <a href="http://twitter.com">Twitter</a>. A mãe de um autista trocava umas ideias com um deputado, através dos respectivos computadores, e veio à baila a <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Autismo">doença</a> do filho da senhora. O parlamentar tinha o fato de eleito vestido e perguntou-lhe o que poderia fazer de útil para minimizar o sofrimento dos que padecem de autismo e das suas famílias. A mãe, uma “especialista” na matéria, a que tem dedicado o melhor da sua vida, como só as mães sabem fazer em relação aos filhos, nem deixou cair a bola no chão: podem começar por deixar de se chamar autistas uns aos outros quando se querem insultar lá no Parlamento.<br />
O deputado, que se chama Jorge Seguro e foi eleito pelo PS, aceitou o desafio e começou por fazer chegar a proposta aos outros colegas da Assembleia mais dados a estas coisas das novas tecnologias, que fazem com que eu e tu troquemos aqui cartas quase à velocidade da conversa.<br />
Um “adversário” do PSD andava há tempos a fazer o levantamento das injúrias trocadas entre bancadas e formalizou a proposta ao presidente do Parlamento, que também não a meteu na gaveta. Abreviando, acabei por dar ar de notícia à história, de que <a href="http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=1205570">aqui</a> te deixo uma cópia.<br />
Mas não dou por encerrada esta missiva sem te dizer que estamos na presença de uma excepção no que ao bom uso das fantásticas ferramentas da Internet diz respeito. Os políticos só se lembram delas nas vésperas das campanhas e apenas numa mera perspectiva propagandística. Excluindo os cerca de 60 deputados que usam o Twitter, não conheço casos de outros responsáveis da coisa pública, dirigentes partidários e afins que respondam directamente à plebe através das novas tecnologias. Para cúmulo, há dias precisei falar com directores de dois departamentos de comunicação de duas universidades. Sempre em reunião, como me asseguraram as respectivas secretárias, tudo o que me propuseram foi que enviasse um e-mail. Passaram três dias e imaginas o que aconteceu&#8230;ignoraram pura e simplesmente o que lhes solicitei. Nem ai, nem ui. Como estamos a falar de responsáveis universitários que dirigem departamentos onde são licenciados especialistas em comunicação, não preciso dizer-te mais nada&#8230;Ah, e um deles não tem telemóvel, garantiu-me a senhora que atendeu o telefone fixo.</p>
<p>Um tecnológico mas sentido abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Breviário da taberna</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Apr 2009 22:22:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Taberneiro Fernando, as fotos têm a crueza do preto e branco. Nas tabernas é a alma que sobressai. É um mundo fechado. Cheio de prazeres e contradições. Os rostos, os objectos, entram-nos pela vista. Eram o centro do mundo mesmo sem largo. Entrava quem queria, ficava quem podia. Um filtro de homens. As mulheres só [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="margin-bottom: 0cm;"><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/taberna-do-palhotas-grandola3.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-865" title="taberna-do-palhotas-grandola3" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/taberna-do-palhotas-grandola3-300x230.jpg" alt="" width="300" height="230" /></a><span style="font-family: Tahoma,sans-serif;">Taberneiro Fernando,</span></p>
<p>as fotos têm a crueza do preto e branco. Nas tabernas é a alma que sobressai. É um mundo fechado. Cheio de prazeres e contradições. Os rostos, os objectos, entram-nos pela vista. Eram o centro do mundo mesmo sem largo. Entrava quem queria, ficava quem podia. Um filtro de homens. As mulheres só atrás do balcão. Poucas, mas rainhas. Chamavam-lhes donas. Senhoras num mundo de homens.<br />
<span id="more-866"></span>Andava aqui à volta com livros nas estantes e dei de caras com uma obra singular com dez anos. Uma espécie de breviário das tabernas. Sem cor. Uma obra prima do fotógrafo <a href="http://www.triplov.com/cyber_art/jm_rodrigues/index.htm">José Manuel Rodrigues</a>. Clientes, copos de vinho, taberneiros, vida, petiscos. Um mundo extinto. Resta a memória dos balcões de madeira, das mesas com tampo de mármore, dos cotovelos apoiados. Tinha que haver sempre petisco. Beber sem comer é deixar-se levar pela “bebida”. Marmelo, um pero, passarinhos fritos, rábano. O que houver. O melhor petisco, dizem os sobreviventes, é mesmo a conversa. O resto é desculpa. Os sabores são requintados e suculentos. Personalizados. No Alentejo a comida tem uma alma própria. Embala as ideias, a política do povo, os passos que a sociedade dá lá fora. Conheci tabernas que eram abertas pelas mulheres às seis da manhã e encerradas pelos maridos às onze da noite. Elas serviam café com leite e bolos de torresmos e iam deitar-se cedo. Eles tomavam conta a meio do dia e vendiam o vinho do final da tarde. Nas bandejas circulares de alumínio. Os copos pequenos e apertados a rodarem por baixo da torneira das pipas. Depois levavam um banho ligeiro de água simples e voltavam a ser abastecidos e despejados nas bocas. As histórias, os desabafos, uma ou outra cantiga ao despique, antes de ir para casa. Descansar o corpo e despertar para outra jornada.</p>
<p>Um breve abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Moçambique</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Mar 2009 19:14:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo Como sabes, porque mesmo que o não dissesse era óbvio pelas minhas últimas cartas, deixei Cabo Verde no mês passado. Estou há uma semana em Moçambique, Maputo, à beira do Indico e não no meio do Atlântico, como até agora. Ainda assim pode ser o Atlântico Expresso o nosso meio de contacto. Prometo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Como sabes, porque mesmo que o não dissesse era óbvio pelas minhas últimas cartas, deixei Cabo Verde no mês passado. Estou há uma semana em Moçambique, Maputo, à beira do Indico e não no meio do Atlântico, como até agora. Ainda assim pode ser o Atlântico Expresso o nosso meio de contacto. Prometo falar-te nos próximos tempos da cidade e depois do país, das pessoas, das causas, de sentimentos e emoções. Deixa só que me encontre e que me instale.</p>
<p>Um abraço, agora de bastante mais longe</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Inveja de quê?</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Jan 2009 09:00:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo Estou a escrever-te acabadinho de chegar à Praia, coisa que, confesso, estava mortinho por fazer. Porque o frio de Portugal, por estes dias, convida mesmo é a, quem possa, fugir dele a sete pés. Está explicado, e espero que perdoado, o meu tão longo silêncio. Não é que a chuva me tenha criado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Estou a escrever-te acabadinho de chegar à Praia, coisa que, confesso, estava mortinho por fazer. Porque o frio de Portugal, por estes dias, convida mesmo é a, quem possa, fugir dele a sete pés. Está explicado, e espero que perdoado, o meu tão longo silêncio.<br />
<span id="more-781"></span>Não é que a chuva me tenha criado musgo no teclado do computador, não é que o frio me tenha entaramelado os dedos. Mas sabes como é… o Natal, a família, depois a passagem de ano, compras, uma jantarada aqui e ali, um cafezito, uma reunião, mais um almoço, mais ir de corrida fazer não sei quê… e atrasam-se as novas.<br />
Mas não tenho, como deves imaginar, também grandes coisas para te contar, às duas e meia da manhã. A Praia parece-me igual, pelo trajecto de táxi entre o aeroporto e a minha casa, e esta aqui me esperou como se não a tivesse deixado com gente todos estes dias, coisa a que a Arlinda não deverá ser alheia.<br />
O tempo, não preciso dizer-te, está como de costume, o mesmo é dizer quentinho. Gosto do Inverno mas uma semana sem praticamente ver o sol, como a passada, deixa-me desgostoso. E depois com o anúncio da vaga de frio que por aí está a chegar o regresso “a casa” caiu-me como sopa no mel.<br />
E assim aqui estou, de t-shirt, descalço, com algum calor, satisfeito por me ter conseguido fintar à gripe durante as duas semanas que passei em Portugal, com mais de 30 mil desgraçados por dia nos hospitais, de pingo no nariz, febre, tosse e essas coisas “boas” todas.<br />
Não penses tu que estou para aqui a tentar de uma forma disfarçada fazer-te inveja, tu que quando me estiveres a ler deves de estar com uns belos cinco ou seis graus (ih ih ih… desculpa… não resisti). Mas tenho de confessar-te que foi com alívio que aqui cheguei, porque frio é bom desde que não morda.<br />
E cheguei com uma temperatura de 21 graus, um rapaz a carregar-me a mala até ao táxi e a cravar-me uns euros.<br />
Dois euros? Nem penses.<br />
Pronto… um.<br />
Dei-lhe mesmo dois, os que me tinham sobrado, e ele fez-me logo ali uma festa, que assim já tinha almoço amanhã. Disse-me o nome (sou péssimo em nomes, já me esqueci) e garantiu que andava sempre por ali, que “estamos juntos”.<br />
E o taxista à minha volta, se me importava de dar boleia a mais duas pessoas, que também vinham para o mesmo lado. Um casal, imigrantes em França. Na despedida a mesma coisa dos nomes, que nos víamos por aí. Acredito que sim.<br />
Disto sim podes tu ter inveja. Porque este modo de ser não temos em Portugal. Se calhar é mais ele do que o calor a deixar-me satisfeito por ter chegado.</p>
<p>Um confortável abraço</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Viver e morrer no Cabo Sardão</title>
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		<pubDate>Sat, 03 Jan 2009 16:18:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Audacioso Fernando, em maré de invernias, temporais e gente destemida ou à procura da paz que natureza violenta nos transmite, fui dar com este texto que escrevi na Lusa quando um dia fui tentar perceber o que move os pescadores que arriscam a vida no escarpado litoral alentejano e algarvio a sul de Vila Nova [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp">
<dl id="attachment_764" class="wp-caption alignleft" style="width: 295px;">
<dt class="wp-caption-dt"><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/costa_alentejana_931.jpg"><img class="size-medium wp-image-764" title="http://marazul.blogspirit.com" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/costa_alentejana_931-300x224.jpg" alt="http://marazul.blogspirit.com" width="285" height="213" /></a></dt>
</dl>
<div class="mceTemp">Audacioso Fernando,</div>
<div class="mceTemp">em maré de invernias, temporais e gente destemida ou à procura da paz que natureza violenta nos transmite, fui dar com este texto que escrevi na <a href="http://www.lusa.pt">Lusa</a> quando um dia fui tentar perceber o que move os pescadores que arriscam a vida no escarpado litoral alentejano e algarvio a sul de Vila Nova de Milfontes com um sargo na mira. Percebi em parte, porque há sempre algo que fica por explicar, uma fatia de irracionalidade que não se consegue verbalizar. Terá a ver com os tempos remotos em que o sucesso da pesca ditava a sobrevivência? Não faço ideia. Mas aqui te deixo o testemunho.</div>
</div>
<p><span id="more-765"></span><em>Menos de duas horas depois de ver o colega pescador baixar à cova, já Manuel Ceríaco se esgueira com o balde enfiado na cana, falésia a baixo, como um gato. Tem 38 anos, pesca desde os &#8220;sete ou oito&#8221; e também já caiu uma vez no mar revolto da Costa Alentejana depois de ter fracturado uma perna nas rochas. Salvou-se. Os bombeiros conseguiram resgatá-lo de barco.<br />
Mais susto, menos susto, o alentejano franzino, da vizinha freguesia da Boavista, também no concelho de Odemira, não encontra razões para arrumar a cana. &#8220;Já me morreu aqui um primo&#8221;, confessa, olhando lá para baixo, uma altura duns bons seis andares ou mais, onde mesmo numa tarde calma de Inverno as ondas &#8220;metem respeito&#8221; quando se desfazem contra as rochas e atiram espuma pelos ares.<br />
A sorte de Ceríaco não bafejou outros &#8220;viciados&#8221; da pesca na bonita costa que se avista à direita e à esquerda do Cabo Sardão, como o que foi a enterrar terça-feira. O comandante dos Bombeiros de Odemira, Nazário Viana, 50 anos, tem de cor as tragédias daquela que será uma das faixas mais selvagens do litoral português. Só desde que dirige a corporação de socorro do maior concelho do país recorda-se de pelo menos 16 pescadores mortos entre a Praia do Malhão e a Zambujeira do Mar, mais de 50 quilómetros de rochedos escarpados.<br />
Levanta o braço lentamente e começa a apontar para locais que o olhar forasteiro não distingue e a cada movimento sai um número: quatro, mais três, mais dois, mais um&#8230; &#8220;Fora os que conseguimos tirar de lá vivos&#8221;. O próprio comandante, que nas últimas semanas foi figura habitual nos telejornais quando a deficiente assistência médica em Odemira se tornou notícia, também já teve o seu baptismo de mar, quando apanhava perceves e uma onda o empurrou contra um penedo e de seguida para uma cama de hospital.   Como muitas outras famílias do concelho, a sua ficou igualmente enlutada pela &#8220;cegueira&#8221; dos sargos e robalos. Caiu-lhe um primo ao mar. &#8220;Quando cheguei aqui ainda o vi e ouvi gritar mas já não fomos a tempo&#8221;, recorda no local da tragédia.<br />
Manuel Ceríaco também sabe de cor as histórias dos que morreram, mas isso não o faz perder um minuto nem abrandar o ritmo da descida. Escassos minutos depois de resumir o seu currículo, sem ponta de vaidade, realce-se, já está junto à água a atirar bocados de sardinha para atrair os sargos e esperar que algum ferre o anzol que desaparece na espuma e dança ao sabor das ondas. Um olho na isca e outro nas ondas, porque de quando em vez há uma maior que não perdoa quem apanha pela frente. Vê-se cá do alto e tenta-se perceber porque será. A vida por um sargo? Não. &#8220;Isto é como andar na estrada&#8221;. Pode-se morrer a todo o momento e ninguém deixa de viajar por causa disso, alega.Está consciente do perigo que corre? &#8220;Penso muito nisso, mas a gente não sabe quando é que morre&#8221;, respondera antes de enveredar falésia a abaixo. E já teve muitas horas para reflectir. &#8220;Pesco aí desde os sete ou oito anos. &#8220;Isto é como a caça&#8221;, &#8220;a pesca faz parte da minha vida&#8221; e &#8220;não se pode esmorecer&#8221;. E lá foi.<br />
Cá no alto, outro par de olhos vai seguindo os gestos de Ceríaco. É um mineiro de 29 anos para quem a vida tem outro valor e prefere a segurança do topo das falésias para pescar. Quando não trabalha nas Minas de Neves-Corvo, António Madeira percorre frequentemente os 90 quilómetros entre Almodôvar, onde mora, e o Cabo Sardão no seu pequeno jipe. Às vezes vai lançar a linha para os lados de Portimão. Muito o distingue de Ceríaco. Começou a pescar há apenas três anos &#8211; &#8220;o meu primo pegou-me o vício&#8221; &#8211; e acha que a pesca é um belo passatempo. Nem que seja para atirar robalos de volta à água quando têm menos dos 36 centímetros obrigatórios. &#8220;Hoje já foram três&#8221;. &#8220;Não gosto muito de me andar a aventurar&#8221;, contara antes do almoço, enquanto deitava a mão à cana e olhava um robalo enorme que vagueava lá em baixo, o lombo escuro em contraste com o fundo arenoso. Faz mais uma iscada com caranguejo e zummmmm, lá vai ela. &#8220;Vou ver se o acho&#8221;, ironiza com indisfarçável sotaque alentejano. Na roda dos presentes todos apostam que o animal tem mais de cinco quilos. O belo troféu continua a divagar e António Madeira pousa a cana e espera. Retoma o assunto de sempre de cada vez que chega gente. Aventuras não é com ele. &#8220;Aqui em baixo morreu um já depois do Verão. Era de Aljustrel&#8221;, diz, apontando com o olhar.<br />
O vício é grande mas a &#8220;cegueira&#8221; muito menor que a de Manuel Ceríaco, sempre a lutar contra a gravidade e as &#8220;pancadas&#8221; de mar. Até leva a família (mãe) e o cão, que sofreu no corpo as agruras quando um dia se colou às pernas do dono, &#8220;armado em gato&#8221;, e escorregou pela ravina a baixo&#8221;.&#8221;Não partiu nada&#8221;, vangloria-se a dona, Otília Maia, 68 anos, enquanto vai repartindo o piquenique com o animal.Deixaria depois escapar que a coisa afinal tinha sido mais grave do que parecera. Pouco tempo depois morreu lá, no mesmo buraco, o &#8220;pescador de Aljustrel&#8221;.</em></p>
<p>Um seguro abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Vários porcos a banhos</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Dec 2008 21:41:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Caro amigo Fica então com esta sequência. De verdadeiros porcos a banhos. Um abraço Fernando Peixeiro]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Fica então com esta sequência. De verdadeiros porcos a banhos. Um abraço</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/porco12.jpg">
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<br />
</a></p>
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		<title>Pai&#8230; quero ser traficante de droga</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Oct 2008 09:00:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo Tenho andado tão ocupado por estes dias que mal me sobra tempo para te escrever. E hoje falo-te do assunto que me tem mantido aqui de um lado para o outro. Droga. Tráfico. Mas pelos bons motivos. Não imagines, já aí, que me tornei um narcotraficante. Continuo pobre. E digo isto porque, a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Tenho andado tão ocupado por estes dias que mal me sobra tempo para te escrever. E hoje falo-te do assunto que me tem mantido aqui de um lado para o outro. Droga. Tráfico. Mas pelos bons motivos. Não imagines, já aí, que me tornei um narcotraficante. Continuo pobre.<br />
<span id="more-668"></span>E digo isto porque, a avaliar por um relatório que foi divulgado ontem aqui na Cidade da Praia, da responsabilidade da ONU, o tráfico de cocaína é a segunda actividade económica, a seguir à extracção de petróleo, mais rentável na África Ocidental.<br />
Tudo a propósito de uma conferência que decorre aqui por estes dias, organizada pela<br />
CEDEAO – Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, e que junta ministros dos 15 países da região.<br />
O responsável da ONU que falou não teve papas na língua, começando logo por dizer que a África Ocidental está sob ataque dos narcotraficantes, que se aproveitam das fragilidades dos países e que corrompem tudo e todos, desde altos membros dos governos, a juízes, a militares… enfim…<br />
Diz também a ONU, através desse relatório, que navios e aviões carregados de cocaína, vindos da América Latina, estão a entrar em portos e aeródromos mal vigiados da África Ocidental, onde a droga é depois distribuída em pequenas doses e enviada para a Europa, em voos comerciais, em barcos ou, por terra, em jipes.<br />
Um negócio de dois bilhões de dólares, com a Espanha e o Reino Unido como os principais clientes.<br />
“Países pobres como a Guiné-Bissau não podem controlar as suas costas ou o seu espaço aéreo. A polícia é quase totalmente desamparada contra traficantes bem equipados e bem relacionados”, diz o documento, que acrescenta que pelo menos 46 toneladas de cocaína foram apreendidas na rota para a Europa, via África Ocidental, desde 2005.<br />
E depois é o mesmo papel que diz que na África Ocidental as instituições de justiça são “altamente vulneráveis à corrupção” e que os traficantes internacionais quando são presos “raramente são condenados”.<br />
É sério, demasiado sério, o que se está a passar aqui, caro amigo. As Nações Unidas são claríssimas quando afirmam que há um risco claro de países da África Ocidental se tornarem “Estados-Shell”, isto é, “soberanos no nome mas escavados no interior por criminosos, em conspiração com funcionários corruptos no governo e nos serviços de segurança”.<br />
Pode ser o que já se está a passar. Os homens da ONU não se cansam, e dizem com todas as letras, de afirmar que a maioria da cocaína que entra na região oeste-africana e que vem da América do Sul faz uma paragem na Guiné-Bissau  e no Gana, sendo depois traficada entre países da região e de seguida transportada para a Europa.<br />
“Foram apreendidas aproximadamente 3,4 toneladas de cocaína de 1.357 correios em voos comerciais da África Ocidental para a Europa desde 2004”, especifica o documento.<br />
Demasiadas vidas em jogo, demasiado dinheiro. Demasiado pó branco. Começo até a desconfiar que, aqui na região, o branqueamento de capitais não tenha mais a ver do que com essa cor. E nem sequer me espanta que hoje, aqui mesmo em Cabo Verde, crianças já não queiram ser médicos ou advogados quando crescerem. Pai, eu quero ser traficante de droga!</p>
<p>Um abraço</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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