Archive for the 'Portugal' Category
Informal Fernando,
há dias falei-te de medidas simples mas estruturais, que os governantes evitam como sarna, quando falei do incentivo do uso do gás GPL nos automóveis. Nestes dias recordei-me de outra ainda mais simples, quando vi uns homens engravatados nuns carros oficiais estacionados, de vidros fechados e com os motores a contribuírem afincadamente para o efeito de estufa.
A cereja em cima do melro
0 comentários Publicado por António Martins Neves 14 Junho 2008 em Portugal.Ambientalista Fernando,
subscrevo em absoluto a tua indignação com quem mata tubarões porque esses massacres continuam a render e fico também revoltado com o facto de haver gente que paga o que lhe pedirem para comer uma extravagância qualquer, mesmo que se trate de um capricho com consequências devastadoras como essa da sopa de barbatana. Ter muito dinheiro está cada vez mais a tornar-se sinónimo de ignorância. E mantém-se árdua a tarefa de combater a ideia antiga de que o dinheiro tudo compra e tudo paga. Puro engano! Vê para onde estamos a caminhar, porque se instituiu que as regras da sociedade devem ser determinadas por questões financeiras.
Perspicaz Fernando,
só posso concluir que estavas adivinhar o que iria dizer o Presidente da República quando me desafiaste a largar tudo e ir para aí. Anda uma pessoa a agarrar-se ao que pode para arranjar forças e continuar a enfrentar as contrariedades que nascem aqui debaixo de cada pedra e vem o Chefe de Estado dizer que vai comemorar o “dia da raça”? Era só mesmo o que estávamos a precisar: o mais alto magistrado da Nação a referir-se ao Dia de Portugal como o fazia o ditador Salazar. Bolas, o homem foi eleito, estamos em democracia e ele vem falar em raça? A palavra dita duas vezes, para que não restem dúvidas. Estou sentado à espera da explicação de uma afirmação que seria grave mas desculpável se saísse da boca do respeitoso empregado do come-em-pé ali do centro comercial. Mas de alguém que é o representante máximo do Estado português??? Assim terei mesmo que ir para aí…
Avisado Fernando,
saí de casa este domingo depois de ter a tua carta e a pensar nos dois assuntos: na fome e no Euro 2008. “Obrigações” paternais levaram-me para a Penha de França, o popular bairro onde deparei com a imagem que te envio e me pareceu fazer a síntese dos dois temas.
Estupefacto Fernando,
na véspera do pontapé de saída do Europeu de Futebol entrou em campo outro “jogador” de méritos firmados, neste caso pelos conhecidos dribles à justiça. É esse mesmo em que estás a pensar: João Vale e Azevedo, ex-presidente do Benfica, célebre por coleccionar processos judiciais por burla e por já ter cumprido vários anos de cadeia. Imagina que agora voltou a dar que falar porque acha, do alto da sua sapiência jurídica, que já cumpriu mais tempo de cadeia do que aquele a que foi condenado, “esquecendo-se” que tem uma pena efectiva de mais sete anos e tal por cumprir, e outros cinco prometidos. Ah, e anuncia que está em Londres.
Politizado Fernando,
quero dar-te conta de um acontecimento político que ocorreu em Lisboa na terça-feira à noite e que me parece ir marcar o futuro próximo. Ficou conhecido como o comício das esquerdas e reuniu gente deste quadrante político descontente com a governação socialista do primeiro-ministro, José Sócrates, com excepção do PCP, que não alinhou, como sucede sempre que não controla as iniciativas públicas. O deputado socialista Manuel Alegre, segundo classificado na corrida à Presidência da República ganha por Aníbal Cavaco Silva, foi a estrela da noite. E deve ter provocado pesadelos a muitos adversários políticos, a começar no seu próprio partido e alargando-se ali para as bandas de Belém, onde o chefe de Estado deve ter percebido que a sua reeleição está longe das habituais favas contadas como sucedeu com todos os seus antecessores democraticamente eleitos.
Fossos de elevador e outros buracos
1 comentário Publicado por António Martins Neves 3 Junho 2008 em Portugal.
Contribuinte Fernando,
todos os sorvedouros, buracos negros e afins matam. Vinha eu para casa a alinhavar parágrafos de memória para te falar de um sugadouro, quando deparo com a tua má-nova da morte de Carlos Alhinho, “engolido” pelo fosso de um elevador num hotel de Angola onde, de acordo com os poucos relatos sobre o acidente, “alguém” se esqueceu de advertir os utilizadores de que o ascensor estava em manutenção e nem sequer trancou as portas para evitar a queda no abismo. Ficaria positivamente espantado se visse um comunicado de alguém responsável - Justiça angolana, proprietários do hotel - a anunciar um inquérito independente para apurar responsabilidades sobre a morte de uma pessoa. A esta segunda-feira à noite em que te escrevo não encontro qualquer referência das autoridades angolanas ao assunto. Apenas muitas notícias, todas parecidas e com um tom de fatalidade. Apetece-me escrever a Bob Geldof!
Verde negro e laranja pálido
0 comentários Publicado por António Martins Neves 1 Junho 2008 em Portugal.
Calçado Fernando,
nunca duvidei que a tua arma fosse mais uma caneta do que qualquer revólver ou pistola clandestinos, e muito menos que te pudesse aguçar a pontaria qualquer canhangulo que tivesse andado disfarçado no meio de roupa usada para chegar onde não deve. Isso tudo não impede um comum e pacífico mortal de, muitas vezes, lhe apetecer dar um tiro. Mesmo de pólvora seca, para o ar, para não chamuscar ninguém, mas apenas para assustar quem necessita de assentar os pés na terra. Hoje, por exemplo, apetecia-me fazer um desses disparos junto dos organizadores do Festival Rock in Rio, que decorre em Lisboa este fim-de-semana e no próximo. Para os advertir que com papas e bolos só se enganam os tolos.
Governantezinhos de um país acanhadito
0 comentários Publicado por António Martins Neves 30 Maio 2008 em Portugal.
Automobilizado Fernando,
hoje vou cumprir a promessa que te fiz há dias de falar sobre o que considero ser a indiferença dos governantes que decidiram os nosso destinos nos últimos 15 a 20 anos em matéria de combustíveis, no que ao ambiente diz respeito e também à carteira de quem precisa (ou quer) andar em transporte próprio, particulares e empresas incluídos. Como os decisores devem ser avaliados pelas medidas concretas que colocam em prática, e não pelas teorias que elaboram sem qualquer consequência, iriam todos corridos a zero se fossem classificados pelas alternativas aos combustíveis tradicionais que deviam ter incentivado.
Revoltado Fernando,
subscrevo tudo o que escreveste sobre a onda de xenofobia que varreu a África do Sul, aparentemente já controlada pelas autoridades. Sobre coentros e saudades, falamos depois, ao vivo, porque as cartas têm as suas limitações. Aproveito antes a deixa da discriminação para te dizer que essa praga não anda longe da nossa porta: por aqui não há perseguições na rua nem linchamentos em função da cor da pele ou do país de nascimento, mas não tenhas dúvidas acerca do racismo que está instalado na sociedade. Dito de outro modo, não se vê, mas sente-se. E ouve-se.


