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	<title>Atlântico expresso &#187; Portugal</title>
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	<description>Um mar de palavras e memórias</description>
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		<title>Resgatei uma galinha</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Jan 2012 15:17:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Bem entrado Fernando, naquela semana que costuma passar a correr entre o Natal e o Ano Novo, quando já se foi a quase obrigação das prendas e o que sobrou vai ser gasto nos votos de um ano o menos mau possível, dei comigo, num gesto raro, a olhar para uma montra de decorações e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/galinha.jpg"><img class="alignleft  wp-image-1268" title="galinha" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/galinha-300x224.jpg" alt="" width="270" height="202" /></a></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">Bem entrado Fernando,</span></p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">naquela semana que costuma passar a correr entre o Natal e o Ano Novo, quando já se foi a quase obrigação das prendas e o que sobrou vai ser gasto nos votos de um ano o menos mau possível, dei comigo, num gesto raro, a olhar para uma montra de decorações e outras inutilidades mais ou menos indispensáveis. Por acaso, porque calhou, algo me chamou a atenção, não me recordo o quê, e dei de caras com esse galináceo que podes observar aí ao lado. Travou-me o olhar, o animal. Entrei, confirmei com a senhora atrás do balcão: &#8220;Uma <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Caba%C3%A7a">cabaça</a>&#8230;&#8221;. Era e veio comigo, está aqui em casa.</span></p>
<p><span id="more-1267"></span><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">Nunca me tive por arrelampado com objetos. Ocorre-me, de repente, ter-me acontecido algo parecido há uns anos com uma caneta de aparo, num centro comercial. Mas a galinha meteu-se comigo. O preço? Dez euros! Vou levá-la. Foi negócio impensado quando ouvi a resposta. Constatei que havia mais daqueles frutos a que uma imaginação acertiva e alguns dons artísticos haviam dado quase vida na figura do animal de penas. Mas a primeira não me deixou alternativa. Fui num pé levantar a nota e voltei no outro – a loja não tinha pagamento automático – e dei com a ave embrulhada como uma prenda, com um volume enorme para não lhe descompor a cauda. Quando voltei à rua senti-me contente, animado, até algo orgulhoso, atrevo-me a confessar.</span></p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;"> Uma semana depois ia a passar na mesma rua com o meu filho e ocorreu-me mostrar-lhe as outras galinhas que lá haviam ficado. Antes de entrar tive um baque. A porta estava entreaberta e a loja quase vazia, só uns embrulhos e umas caixas pelo chão, ninguém lá dentro. A mulher que me vendera a peça estava do outro lado da rua, dobrada para dentro da mala aberta de um carro, a arrumar nem vi o quê. Seguimos a passos largos. No lugar da quase euforia de dias antes sentia agora alguma angústia. A loja que vendia as galinhas feitas de cabaças fechara, falira, se calhar. Nem me atrevi perguntar. A arte da simplicidade terá sucumbido à crise que tudo ataca.</span></p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">Terás por aí exemplos infindos da capacidade de humana de com as mãos e talento se produzirem belas obras de arte por quem nunca pensou no que isso é. Aqui vai escasseando a sensação de sermos impressionados pela capacidade criativa de produzir o belo com quase nada. Concordarás que transformar uma cabaça deste modo é singular. Mas depois cria-se um vazio, como se de nada valesse, para nada servisse. O local onde se acedia a esse pequeno requinte fechou, desapareceu, não existe mais. E as galinhas terão ido para outro local, outra loja?</span></p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;"> Resta-me agora olhar para este fruto, que continua com as sementes dentro, a fazer de contrapeso para se manter na posição em que a vês. Reparo que tem um ar furioso, como quando as galinhas vivas atacam um gato que lhes ameça os pintos. Esticam-se assim e ensaiam bicadas quase inconsequentes. Vai ficar aqui em casa. Vou dar-lhe um poleiro adequado ali frente à porta da rua, para que quem entre dê logo de caras com a obra e repare bem nela. Merece. Por quem a produziu e por quem a vendeu. Ah, por baixo da cauda está assinado a tinta preta &#8220;Rosária&#8221;. Parabéns.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">Um abraço forte, que este ano bem vais precisar de alento a dobrar.</span></p>
<p><span style="font-family: Verdana, sans-serif;">António Martins Neves</span></p>
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		<title>Sobreiro é a árvore nacional!</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Dec 2011 00:07:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Admirado Fernando,  tenho lido atenciosamente o que me contas, mas nada do que tenho assistido por aqui me encorajava a devolver-te a escrita. O caos, a definhação, a incerteza, um quase não país, o descalabro. Disso tens tu nota aí pelos trópicos, basta o que basta.Eis senão quando, e curiosamente aprovado por unanimidade na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;"><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/28_12_2011_20_18_51.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1265" title="28_12_2011_20_18_51" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/28_12_2011_20_18_51-224x300.jpg" alt="" width="224" height="300" /></a>Admirado Fernando,</p>
<p style="text-align: left;"> tenho lido atenciosamente o que me contas, mas nada do que tenho assistido por aqui me encorajava a devolver-te a escrita. O caos, a definhação, a incerteza, um quase não país, o descalabro. Disso tens tu nota aí pelos trópicos, basta o que basta.Eis senão quando, e curiosamente aprovado por unanimidade na Assembleia da República, surge uma decisão sem grandes efeitos práticos, mas emblemática para um país à deriva: classificar o sobreiro como a árvore nacional.</p>
<p style="text-align: left;"><span id="more-1254"></span>Há muitos anos que me constrange o desprezo que o país alimenta por um recurso quase único de que dispomos, a cortiça. Em qualquer pequeno país do Norte da Europa chamavam-lhe um figo. Por cá, como não é petróleo nem faz andar carros, ninguém dá importância. E quando digo ninguém, refiro-me aos sucessivos governos. É como se não tivéssemos um caneiro e a cortiça não valesse 2,2 por cento das nossas exportações. De tal modo que um setor vital da economia está todo depositado nas mãos daquele “trabalhador” chamado Américo Amorim, que se irrita por terem concluído que é o homem mais rico do país.</p>
<p style="text-align: left;">Resta-me agora, eu que escalavrei as pernas e os braços a trepar e descer nos abundantes sobreiros da nossa infância, ver efeitos práticos da coisa. Primeiro que a vasta comunidade científica disponha de meios para investigar e travar o processo de mortandade daquelas árvores, para que a distinção não sirva para cerimónias de enterro. Segundo para que a cortiça passe a ser transformada e valorizada como um dos mais multifacetados produtos naturais, sustentável, reciclável, quase eterno, inodoro, isolante térmico e sonoro. De que Portugal é de longe o maior produtor do mundo e onde o produto tem uma qualidade incomparável com a pouca concorrência. Assim como uma espécie de petróleo verde que poderia aumentar se houvesse dois dedos de testa em quem manda neste “local”, Fernando. E depois quem não gostaria de ter 737 mil hectares de uma árvore que, como nenhuma outra, dá mais exigindo tão pouco, como escreveu o silvicultor Vieira Natividade em 1950?</p>
<p style="text-align: left;"> Um encortiçado abraço</p>
<p style="text-align: left;"> António Martins Neves</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Morena no montado</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Aug 2011 17:24:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Imparável Fernando, tu preocupado em não deixar escapar nada do que o mundo te estende e eu a tropeçar no que se quer esconder. O bom é isto:  caldearmos tudo aqui. Cada um viaja como pode  e quer. Nunca ouvi falar no limite da alma e não creio que exista. Nem a realidade é confrangedora [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/Estevas.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1216" title="Stop" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/Stop1-300x225.jpg" alt="" width="264" height="199" /></a></p>
<p>Imparável Fernando,</p>
<p>tu preocupado em não deixar escapar nada do que o mundo te estende e eu a tropeçar no que se quer esconder. O bom é isto:  caldearmos tudo aqui. Cada um viaja como pode  e quer. Nunca ouvi falar no limite da alma e não creio que exista. Nem a realidade é confrangedora como a fazem.  Olha ao que assisti há dias: a globalização repetida, como começou já há 500 anos. Só que agora ao contrário.</p>
<p><span id="more-1214"></span>Quando empurrei a porta nova da velha taberna e dei de caras com o par de coxas mulatas, a primeira coisa que pensei foi…nada! Como se tivesse chegado ao Pólo Norte e deparasse com alguém deitado numa toalha a tentar bronzear-se ou distraidamente entrasse na Sé de Lisboa e visse uma freira a dizer missa. Ali era tudo muito mais simples. No meio da serra alentejana que bem conheces, com o mar ali à vista, tudo se passava em volta de uma mesa de snooker.  Éramos três, íamos dar umas tacadas em laia de abrir o apetite para um jantar a condizer com a geografia e o cenário era aquele. Outros três homens e uma mulher a arremessar bolas umas contra as outras com ar de quem não deseja o fim daquele matraquear de porcelana. Enfia ali, tira daqui, ganhei, tu perdeste, aquelas vulgaridades de quem sempre tem algo para argumentar. Porque perde ou porque ganha. A não ser pequenos pormenores, que vão para além das coxas que vi primeiro sentadas. Jogava-se ao bota fora. Só um deles não tinha o rosto ressequido como o montado por estes dias ou enrugado como uma encosta soalheira por onde correu água no inverno. Tinha o cocuruto desmatado. E é evidente que o jogo era outro e não se percebiam as regras todas ali de uma assentada.  Em vez do antigo palito, dos traçadinhos de tinto e branco e da algazarra, reinava uma falsa serenidade. Eles falavam só ao ponto de se fazerem ouvir, ela comentava em jeito de relato sobre o que estivera na origem da jogada. Até se conseguia ouvir em fundo o José Rodrigues dos Santos na televisão a dizer às pessoas que tinham acontecido coisas importantes nesse dia. Mas aquela calma era tensa e o motivo moreno: a jogadora tinha sotaque tropical, cabelos aos canudos,  unhas cuidadas realçadas de vermelho escuro, calções pequenos e justos , exibia o umbigo naturalmente e usava chinelo de enfiar no dedo. Sublinho: aquilo era uma taberna alentejana, onde o casal de proprietários se cruzavam  a entrar e sair do balcão, o restaurante lá atrás, as paredes a reluzir de branco, o sol posto a entrar pelas janelas,  a normalidade a tentar impor-se.</p>
<p>Deixa-me dizer-te, Fernando, que eu ia da praia com dois adolescentes sequiosos por jogar snooker antes de um jantar com amigos que haviam de chegar. Como conheces as posições em que se colocam os jogadores de bilhar e afins, bastará dizer-te que para realizar no momento um filme para levar ao Festival de Cannes para o ano era só ter ali forma de registar as imagens das caras de pelo menos dois jogadores masculinos quando a adversária se debruçava sobre a mesa de taco certeiro para consumar a jogada e as expressões dos dois rapazolas, a tentar perceber o que ia nas cabeças alheias, porque nas deles era evidente. De resto, a  monopolização  do jogo tornara-se um dado adquirido quando finalmente chegou o momento previsível da noite. Depois de ocupadas as cadeiras em volta da mesa, lá por trás da tal parede que abafava até as tacadas mais veementes, aterrou ali na frente uma tigela de barro a transbordar de sopas de espinafres com amêijoas.</p>
<p>Tudo parecia remeter para as memórias e um debate no regresso a casa sobre aquele cenário improvável, não fosse os dois candidatos a jogadores estarem a digerir mal o controlo absoluto da mesa de pano e verde e não baixarem os braços antes de mostrarem supostas habilidades. Abordado sobre a demora, o dono do restaurante e taberna foi lacónico e desmobilizador em proporções semelhantes: “Já chegaram a levar mais de oito horas… “. Desalento, quase pânico, protestos mal contidos. Mas porquê? “Por causa da preta!” Um gesto de interrogação com o olhar e uma mão a enrolar o ar despoletaram o resto, num tom mediano para nã alertar a outros clientes:  “Vive com o [jogador) careca há mais de um ano. Já é a segunda. Mas para uma mulher daquelas, com 34 anos, aguentar um gajo de 60 é porque gosta mesmo dele”. Pagámos e saímos. Mais ninguém jogou naquela noite.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um disputado abraço</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Num tempestuoso dia de sol</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Apr 2011 17:02:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[25 Abril]]></category>

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		<description><![CDATA[Esperançado Fernando, escrevo-te neste dia 25 de Abril de 2011, quando o verão parece estar a entrar, mas o inverno teima em apoderar-se das nossas almas, depois de já nos dominar tudo o resto, carteira incluída. Esperança, sonho, mais esperança e todos os sonhos do mundo enchem os discursos de quem se sente obrigado a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC12034.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1197" title="SDC12034" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC12034-300x289.jpg" alt="" width="261" height="252" /></a>Esperançado Fernando,</p>
<p>escrevo-te neste dia 25 de Abril de 2011, quando o verão parece estar a entrar, mas o inverno teima em apoderar-se das nossas almas, depois de já nos dominar tudo o resto, carteira incluída. Esperança, sonho, mais esperança e todos os sonhos do mundo enchem os discursos de quem se sente obrigado a justificar-se perante o esta- do a que &#8220;isto&#8221; chegou. Há 37 anos que é assim e tu ou eu podemos testemunhá-lo, para além de mais uns milhões largos de espetadores do que tem sido este espetáculo de gerir a dívida em vez de governar o país.</p>
<p><span id="more-1196"></span>Não é fácil conseguir olhar para esta gente de frente. Estava à bocado a ver na televisão a cerimónia que o Presidente da República organizou no Palácio de Belém para assinalar a data e era olhar a plateia e ver as mesmas caras de sempre. Os que nunca saíram de lá, os que foram e tornaram a vir. Se não fosse uma situação gravíssima, poder-se-ia dizer que se assistiu a mais uma peça com os mesmos atores, no cenário habitual,  a tentarem fazer sorrir o pouco público que ainda não desistiu de se deslocar à sala de espetáculos. Uma farsa indisfarçável. Claro que lhes fica a consciência mais aliviada por dizerem ao povo umas frases que soam bem, com aquele ar sério, por vezes tentando cara-de-caso.<br />
Uns de cravo vermelho na lapela (terão muitos a mais ténue ideia do que significa, Fernando?), outros, mais pragmáticos, avessos que são à palavra revolução, ignorando simplesmente o símbolo daquele dia que lhes permitiu apresentarem-se hoje como são. Sem ponta de arrependimento, laivo de vergonha ou receio de serem confrontados com a desgraça que conduziram e lideraram, sempre a bem da nação evidentemente. Assim acontece, Fernando. Agora, que já não podem adiar mais as contas, começaram a deixar escapar umas veleidades. &#8220;Temos que pagar&#8221;, &#8220;vamos repartir o esforço&#8221;, &#8220;estamos no pior momento da história do país&#8221; &#8211; são frases nossas de cada um destes dias.  Quando está instituída a mentira como ferramenta oficial e a gestão danosa do país é um facto, sabes o que nos respondem: lembrem-se disso no dia 05 de junho. E mais não é possível num regime assim, democrático. Ruído para os ouvidos, à beira de nada ouvirem. E assim vai ser, até ao fim. Uma espécie de &#8220;paguem e calem-se&#8221;. Não acreditas? Também não quero acreditar, mas não sei que te diga mais&#8230;</p>
<p>Um fraterno e revolucionário abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		</item>
		<item>
		<title>Um tipo desenrascado</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Mar 2011 17:07:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Civilizado Fernando, também já ouviste dizer que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo, que as aparências iludem, olhem para o que ele faz e não para o que diz e outros ditados, lugares comuns e afins. Fiquei ainda mais crente na sabedoria popular quando há dias conheci pela televisão e depois [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/Manguito.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1187" title="Manguito" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/Manguito.jpg" alt="" width="219" height="230" /></a>Civilizado Fernando,</p>
<p>também já ouviste dizer que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo, que as aparências iludem, olhem para o que ele faz e não para o que diz e outros ditados, lugares comuns e afins. Fiquei ainda mais crente na sabedoria popular quando há dias conheci pela televisão e depois pelos <a href="http://www.google.pt/search?hl=pt-pt&amp;tbs=nws%3A1&amp;q=armando+vara+passou+%C3%A0+frente+de+doentes&amp;btnG=Pesquisar&amp;aq=f&amp;aqi=&amp;aql=&amp;oq=">jornais</a> uma história de um cavalheio &#8220;bem posto na vida&#8221;, como se dizia, que tem originado centenas de notícias nos anos recentes por ver o seu nome associado a situações entregues à justiça por suscitarem dúvidas que têm a ver com corrupção e crimes afins. Um ex-ministro de quem o atual chefe do governo anunciou ser amigo pessoal. O homem confirmou o que já se sabia há muitos anos: que é um tipo desenrascado, para me socorrer de um adjectivo cheio de atualidade. O verdadeiro significado do comportamento fala por si e tu concluirás do calibre do indivíduo, para usar também um substantivo muito em voga nos noticiários.<br />
<span id="more-1186"></span>Coincidência das coincidências, o episódio passou-se no centro de saúde onde sou (e bem) assistido pelo meu médico de família, uma unidade do Serviço Nacional de Saúde que funciona acima da média, pelo que posso testemunhar, em comparação com os queixumes que abundam acerca de muitas outras. O tal ex-ministro, ex-deputado na nação, ex-administrador do maior banco nacional, a Caixa Geral de Depósitos, ex-administrador do maior banco privado português, o BCP, e ex muitos outros cargos importantes recorreu como o comum dos cidadãos ao Centro de Saúde de Sete Rios, aqui em Lisboa, presumo que por ser a sua zona de residência. Só lhe acentaria bem o comportamento vindo de um dito socialista defensor do estado&#8230;social. Pensas tu, Fernando, e pensava eu, mas não. O homem entrou por lá a dentro, passou à frente de idosos doentes à espera de consulta há uma hora para se chegar junto de uma médica e pedir-lhe um atestad. Argumento para a incivilidade: estava com pressa, tinha que ir viajar. Do que lhe foi atestado não há conhecimento que seja público, pelo menos.<br />
E o mais incrível é que a médica lhe passou o papel que desejava e o sujeito desenrascado lá foi à vida dele. Só não terminou por aqui a alarvidade porque um dos pacientes achou-se no direito de formalizar queixa da situação e estava por perto um jornalista da TVI. Azar dos Távoras, como se usa também dizer. O que se seguiu foi um chorrilho de desculpas, com destaque para as que foram dadas pela diretora unidade de saúde: Armando Vara, o protagonista de mais este episódio enobrecedor, abusou dos seus direitos, queixou-se a senhora. Evidente! Qualquer um de nós chegaria lá e abusaria dos nossos direitos com aquela facilidade toda e aterrorizaríamos qualquer médico que não nos fizémos o que exigíssemos na hora. Só não teremos semelhante afronta para contar porque não somos uns tipos desenrascados como o doutor Vara. Então se o antigo caixa num humilde balcão de uma agência bancária em Trás-os-Montes chegou onde já o vimos, que mais poderá ser senão uma criatura desempoeirada, que sabe fazer pela vida e consolidar de profícuas amizades, que vão desde os mais altos magistrados da nação  a sucateiros labutadores e apostados em fazer por ter uma bela vidinha. A história, ao contrário do que se possa pensar, não teve grande eco por aqui, tu saberás também porquê. O tipo desenrascado deu-se, obviamente, ao luxo de não justificar o injustificável, do Centro de Saúde nunca mais se ouviu um piu sobre o assunto e já quase toda a gente se esqueceu da afronta. O tal tipo desenrascado está envolvido numa série de processos onde é acusado ou está envolvido por trapaçadas, corrupção e outras vigarices, que poderão não ser verdade e o indivíduo sair incólume delas, o que é mais natural do que o contrário. Mas desta condenação ele não se livra: é mal criado, desrespeitador do seu semelhante, arrogante e indigno de partilhar as instituições públicas que conseguem sobreviver num país com gente de tal laia. É a minha opinião, Fernando, e tinha que desabafar isto contigo, que deves andar a estas horas bem mais feliz no meios de feras várias e outros mamíferos bem mais cordiais, previsíveis e inofensivas do que aqueles com que temos que compartilhar a atmosfera por aqui.</p>
<p>Um revoltado e justo abraço,</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>A &#8220;dona&#8221; do Sol</title>
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		<pubDate>Sat, 18 Dec 2010 14:13:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Iluminado Fernando, há boas ideias que valem ouro, muito, milhares de milhões de euros, como o caso do Facebook. Há outras, geniais mesmo, tão evidentes como o ovo de colombo, mas cujo efeito é nulo além de uma boa gargalhada. É o caso de uma espanhola, galega, que decidiu registar o Sol como sua propriedade. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://t3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRIEiDd3nH1z__29DaC2In8gyV-U2neeDBtZhNzZy0ZRp7i0Xp4" alt="" width="218" height="231" />Iluminado Fernando,</p>
<p>há boas ideias que valem ouro, muito, milhares de milhões de euros, como o caso do Facebook. Há outras, geniais mesmo, tão evidentes como o ovo de colombo, mas cujo efeito é nulo além de uma boa gargalhada. É o caso de uma espanhola, galega, que decidiu registar o Sol como sua propriedade. Se fosse cá, ainda se podia pensar que se trataria do jornal semanário, até há meses em alegadas dificuldades financeiras. Mas não, é mesmo da estrela que se trata. E conseguiu um notário que formalizou a posse requerida em ata. A ser assim, o Sol continua a brilhar para todos, mas passou a ser só de uma: Ángeles Durán.<br />
<span id="more-1165"></span><br />
Há umas semanas um notário de Vigo não evitou uma gargalhada quando uma mulher lhe entrou pelo escritório adentro a afirmar que era a dona do Sol e estava ali para formalizar essa situação, como relatou a imprensa daquela região espanhola. Depois o sorriso começou a fechar-se à medida que a senhora passou a enumerar as “provas”, que redigiu no livro de registo notarial: “Sou a proprietária do Sol, estrela do tipo espetral G2, que se encontra no centro do sistema solar, a uma distância média da terra de cerca de 149,6 milhões de quilómetros”.<br />
Tudo porque, concluíra numa aparente investigação anterior, ninguém se intitulou dono daquela estrela, não há nada a impedir que alguém o faça e ela estava ali para isso: usfruiu dele durante mais de 30 anos, sempre de boa fé, pelo que pode invocar, lá como cá, o uso capião, normalmente invocado para impedir o encerramento de caminhos ou outros espaços de utilização pública. Que há convénios que impedem os países de serem donos dos planetas, mas não as pessoas, pelo que houve já um americano a “apropriar-se” de quase todos eles e até da lua. Mas do Sol não. E Ángeles viu aberta uma janela de oportunidade por onde entrar luz. Mas alto lá! Não só para mostrar o registo notarial às visitas que vão lá a casa ou deixar de herança aos netos. A galega pensou em números e acha que se se paga pelo usfruto dos rios, porque não se deve cobrar a energia do Sol que nos trás vivos. Mais um susto, Fernando! Nós aqui, os vizinhos portugueses, assalariados como ela, que já somos quem mais impostos paga na Europa e mais miseravelmente vive, que vamos ter o fisco a vir-nos ao bolso de forma ainda mais violenta a partir de Janeiro, quando nos vão reduzir, a muitos, o ordenado e ainda vamos ter que pagar pelo Sol? Só falta mesmo cobrarem-nos pelo ar que respiramos&#8230;Por mim, já decidi. Estou a ponderar sobre outros, mas esse imposto não pago. Acusem-me de fuga ao&#8230;sol!</p>
<p>Um solarengo abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>À venda</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Nov 2010 14:49:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Afastado Fernando, eram uns quatro, pequenos e magros, de olhos rasgados como os conhecemos. Havia uma mulher.Enquanto uns observavam a frente do edifício a alguns metros de distância, outro chegou-se à porta de vidro, encostou-lhe a ponta do nariz e colocou as mãos em concha dos lados da cara para travar a luz e conseguir [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC11327.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1144" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC11327-300x225.jpg" alt="" width="264" height="199" /></a></p>
<p style="text-align: left;">Afastado Fernando,</p>
<p style="text-align: left;">eram uns quatro, pequenos e magros, de olhos rasgados como os conhecemos. Havia uma mulher.Enquanto uns observavam a frente do edifício a alguns metros de distância, outro chegou-se à porta de vidro, encostou-lhe a ponta do nariz e colocou as mãos em concha dos lados da cara para travar a luz e conseguir ver para dentro do espaço amplo e vazio.Pensei:“Já está&#8230;”. Mas passaram-se vários meses sem que nada acontecesse ao ponto de eu achar que me tinha enganado na vaticínio. Acabou por se confirmar. Há umas semanas começaram as obras e a nova loja dos chineses já foi inaugurada.<br />
<span id="more-1143"></span>Se quiseres um retrato da realidade do país, quando vieres cá posso mostrar-te este. Um antigo e espaçoso stand de automóveis de marca americana transformado num hipermercado chinês. Onde antes se expunham viaturas para a classe média, agora vendem-se a preços baixos utilidades e bugigangas de qualidade nem sempre garantida. As pessoas deixaram de comprar carros, a empresa vendedora, presumo, viu-se obrigada a cortar nos custos sem receitas e abandonou o espaço grande como um ginásio. Instalou-se logo aquele ar de abandono que agora tanto se testemunha aqui nas ruas, com muitas lojas fechadas, as manchas nos vidros desenhadas no pó pela chuva, as cartas no chão que ninguém vai buscar, misturadas com folhas secas que o vento consegue fazer passar por baixo das portas.Os cartazes a anunciar “Vende-se” ou “Aluga-se” começam até  a ficar debotos pelo tempo e a decadência instala-se. No caso que te relato, valeram os chineses. Mesmo à beira de uma rua onde não há quase peões e passam centenas, milhares de pessoas por dia, mas às vezes a mais de 100 quilómetros à hora, os asiáticos acharam que valia a pena investir. E não é por escassez de oferta na zona. Num raio de cinco minutos a pé conto, assim de repente, mais quatro lojas destas, abertas todos os dias, de manhã à noite, sem domingos nem dias santos, onde empregados e patrões misturam sotaques, línguas e cores de pele. Pelo que se vê, a coisa funciona. Como de negócios não sei nada, limito-me a presumir que as contas no final do mês darão para suportar as despesas. A realidade, essa criatura que agora começa a ter espinhos aguçados, evidencia-nos que onde antes estavam carros confortáveis a piscar o olho a gente remediada agora estão lojas do mais “low cost” que há, capazes de satisfazer algumas necessidades básicas a quem anda a contar os cêntimos no fundo dos bolsos à beira de se romperem.<br />
Nem por acaso, escrevo-te esta carta, Fernando, quando está aqui a um quilómetro ou dois de distância, aquele a quem já chamam o “homem mais poderoso do mundo”, o presidente da China, Hu Jintao. Claro que ele não veio procurar standes de carros abandonados para transformar em lojas de quinquilharias fabricadas lá no seu país por multidões de operários sem voto na matéria, que aspiram comprar uma viatura confortável um dia. Veio às compras a um país arruinado, o melhor para fazer negócios.<br />
E pronto, queria dizer-te que o sonho europeu está morto e quase enterrado e agora é de Oriente, como sempre aconteceu, aliás, que o sol se volta a erguer. Não acredito é que alguma vez veja fechar um bazar para abrir um stand de automóveis. Nem em sonhos!</p>
<p style="text-align: left;">Um forte (mas gratuito) abraço.</p>
<p style="text-align: left;">António Martins Neves</p>
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		<title>Tragédia com nêsperas</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Aug 2010 10:57:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Folgado Fernando, há um ditado que diz: quando estamos em maré de azar, até os cães nos mijam para as pernas. Sem dúvida que às vezes há quem deva ver o mundo a abrir-se-lhe debaixo dos pés sem  que consiga evitar a queda no abismo. E termina mesmo em tragédia, embora até na morte haja [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/nespereira21.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1128" title="nespereira2" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/nespereira21-234x300.jpg" alt="" width="234" height="300" /></a></p>
<p>Folgado Fernando,</p>
<p>há um ditado que diz: quando estamos em maré de azar, até os cães nos mijam para as pernas. Sem dúvida que às vezes há quem deva ver o mundo a abrir-se-lhe debaixo dos pés sem  que consiga evitar a queda no abismo. E termina mesmo em tragédia, embora até na morte haja quem opte por não perder a dignidade nem desista de pensar nos que cá ficam. Venho hoje contar-te a história de uma família que ficou reduzida a uma criança de fraldas em pouco tempo  e do papel de uma nespereira na trama.<br />
<span id="more-1126"></span>O pai e os três filhos, todos adultos e criados, morreram assim quase de rajada. Por doença ou por acidentes, deixaram a mãe víúva com um<br />
neto pequenino como único descendente direto. Pelos pormenores com que me contaram a tragédia, a senhora começou a dar sinais de dificuldade em enfrentar realidade tão enlutada. Não nos gestos ou na compostura, mas mesmo pelas palavras. Terá confidenciado a uma vizinha que tinha decidido desistir e ir atrás do resto da família. Começou uma espécie de jogo do gato e do rato, entre uma mulher atormentada pela desgraça que lhe entrara pela porta e a outra, sabedora e confessora de uma morte anunciada que se sentia obrigada a travar. Passou a ser uma espécie de guarda da vizinha, a controlar-lhe os passos, a adivinhar-lhe os destinos, a evitar deixá-la sózinha sempre que pudesse. E a tornar isso claro para a outra, que lhe sublinhava a perda de tempo: &#8220;Não serve de nada estares a controlar-me! Já sei onde vai ser e tudo&#8230;&#8221; .<br />
Andavam nisto e seria já para aí final de Primavera, princípio de Verão, quando entra uma nespereira na história. A árvore estava no quintal da viúva e brindara-a com uma bela carga de fruta &#8211; uma espécie de compensação natural pela desgraça da casa. A dona começou a mostrar preocupação com o destino da fruta e a insistir com um parente para a ir colher de uma assentada. A pressioná-lo mesmo. A árvore era alta, era preciso uma escada, ela não se via a realizar a colheita como devia ser, que tinha que ser, tinha que ir, era uma pena a fruta estragar-se. Um dia lá conseguiu os seus intentos e o familiar afastado colheu as nêsperas todas. Foi de manhã. À tarde, a vizinha foi encontrar a mulher enforcada na árvore.<br />
Quando chegaram a esta parte da história, deram-lhe o tom de final que eu não esperava. E quis esclarecer porque raio alguém que decide suicidar-se adia a decisão por causa de uns quilos de fruta.&#8221;Se não as apanhassem, depois ninguém ia comer as nêsperas&#8221;, explicaram-me.</p>
<p>Um frutado abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Crime sem castigo</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Jun 2010 12:01:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Afastado Fernando, foi no momento em que levantei os olhos do artigo sobre a responsabilidade dos pais na educação dos filhos que vi o gesto fatal. Tirou o último cigarro, amachucou o maço e pimba! atirou-o para a calçada da rua, junto ao passeio, no intervalo entre dois carros estacionados. Estudos e sondagens sobre civilidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC10068.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1113" title="SDC10068" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC10068-300x225.jpg" alt="" width="242" height="181" /></a>Afastado Fernando,</p>
<p>foi no momento em que levantei os olhos do artigo sobre a responsabilidade dos pais na educação dos filhos que vi o gesto fatal.<br />
Tirou o último cigarro, amachucou o maço e pimba! atirou-o para a calçada da rua, junto ao passeio, no intervalo entre dois  carros estacionados. Estudos e sondagens sobre civilidade pouco podem contra a dura realidade revelada nos pequenos gestos. Dizem-nos que já somos assim e assado, mas atiramos lixo para o chão com a naturalidade de quem respira. A teoria e a prática, a ficção e o real, o que parece e o que é, o que lemos e o que vemos, o que nos garantem e o que sentimos.<br />
<span id="more-1112"></span>Sinto que este estado de espírito se acentuou nos últimos tempos por aqui, na  tua terra. Umas pessoas andaram a dizer-nos que tínhamos futuro e agora, com o mesmo desplante, vêm apresentar-nos uma conta que desconhecíamos. Alguém garantiu que ia usar bem o nosso livro de cheques, que podíamos estar descansados, e agora descobre-se que gastaram muito mais do que tínhamos na conta e vamos ter que pagar. Acreditámos, agimos de boa fé, mas fomos vigarizados, atraiçoados. Queixa na polícia! Qual polícia? Não há. Crime sem castigo, nada a fazer, a não ser o que nos mandam. Dizem. Sejam responsáveis, exigem-nos os mesmos que não o foram, que nos deixaram a conta negativa porque juraram usar bem o quase nada que tínhamos. E não acontece nada. Não lhes acontece nada. Descobrimos que não há multa para tal infracção. Nem se fala disso. Esqueçam. Tudo o que importa é saber como vamos repor o que era nosso e gastaram sem nos avisar. Escondendo. É o vale tudo. A mentira banalizou-se, tornou-se normal, é aceite. Foi oficializada, decretada. Prepara-te para, quando voltares, veres ainda mais gente a atirar lixo para a rua.</p>
<p>Um verdadeiro abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
<script src="http://connect.facebook.net/en_US/all.js#xfbml=1"></script><fb:like href="http%3A%2F%2Fatlantico-expresso.net%2Fportugal%2Fcrime-sem-castigo%2F2010%2F06" send="true" width="450" show_faces="true" font=""></fb:like><div class="twttr_button">
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		</item>
		<item>
		<title>O novo bispo de Maliana</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/portugal/o-novo-bispo-de-maliana/2010/04?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=o-novo-bispo-de-maliana</link>
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		<pubDate>Sat, 24 Apr 2010 08:59:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Memorado Fernando, hoje acordei a ouvir a notícia de que Timor-Leste passou a ter um terceiro bispo, que terá a seu cargo a diocese de Maliana, na zona Ocidental do país, junto à fronteira  com a Indonésia. Quando ouvi o nome, recuei dez anos na memória e recordei-me que conhecera um padre chamado Norberto Amaral, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><img class="alignleft" src="http://4.bp.blogspot.com/_fOJD67rCP10/S2SHKik3tJI/AAAAAAAAhgg/cIxYvAw4fK8/s400/1702729-Maubisse_Town_and_The_Church_of_St_Matthew-Maubisse.jpg" alt="" width="200" height="267" />Memorado Fernando,</p>
<p style="text-align: left;">hoje acordei a ouvir a notícia de que Timor-Leste passou a ter um terceiro bispo, que terá a seu cargo a diocese de Maliana, na zona Ocidental do país, junto à fronteira  com a Indonésia. Quando ouvi o nome, recuei dez anos na memória e recordei-me que conhecera um padre chamado Norberto Amaral, em Maubisse, quando estive lá, antes da independência e depois da devastação indonésia causada por militares e  milicianos. Não me enganei. Foi o padre que entrevistei em Mauibisse &#8211; a &#8220;Sintra timorense&#8221; &#8211; na horta, de galochas, quando preparava a terra para semear batatas.</p>
<p><span id="more-1096"></span>Encontrei nos arquivos da <a href="http://www.lusa.pt">Lusa</a> uma reportagem e uma notícia que escrevi depois desse encontro com o novo bispo timorense. Achei que gostarás de ler, por isso seguem junto.</p>
<p>Um abraço à malai.</p>
<p>António Martins Neves</p>
<p style="text-align: left;">
<p style="text-align: left;">A primeira:</p>
<p>Maubisse,  Timor-Leste, 20 Out [1999] (Lusa) &#8211; &#8220;O prior é aquele senhor ali&#8221;,  disse o sacristão apontando para um grupo de homens que cavava um terreno  inclinado nos arredores de Maubisse. Um timorense de chapéu à &#8220;Cowboy&#8221;,  galochas e lenço ao pescoço aproximou-se: &#8220;Boa tarde: Sou o padre  Norberto Amaral&#8221;.</p>
<p>Quem  chegue a Maubisse e procure o padre da paróquia é muito natural  que lhe suceda o que ouviu hoje o enviado da agência Lusa: &#8220;o senhor  padre está na horta&#8221;.</p>
<p>E lá estava o sacerdote, patilhas ralas até  meio da face, 42 anos, enxada na mão, a preparar o terreno antes  das chuvas que se adivinham para semear batatas, feijão e  morangos.</p>
<p>A acompanhá-lo, outro padre, o vigário da paróquia,  Mateus Afonso, que não pousa a enxada enquanto o seu superior  fala da sua experiência de sacerdote-agricultor.</p>
<p>&#8220;Não gosto  de ficar em casa, sentado na cadeira. E assim ensino o povo a  trabalhar&#8221;, explicou, concordando que prefere ensinar a pescar do  que oferecer o peixe.</p>
<p>Isto, enquanto as obrigações da paróquia  não apertam. Quando voltarem os habitantes que fugiram das  milícias e a situação normalizar, Norberto Amaral vai ter que dedicar menos  tempo à horta e mais às almas dos maubissenses.</p>
<p>E poderá  finalmente assumir a sua simpatia com a causa independentista de  Timor-Leste, que conseguiu manter mais ou menos camuflada durante  a invasão indonésia.</p>
<p>&#8220;Eles (milícias integracionistas)  desconfiavam, mas consegui sempre que continuassem a falar  comigo&#8221;. Por isso, evitou a perseguição de que foram alvo muitos  dos outros padres timorenses, ficou sempre em Aileu e diz ter  contribuído para evitar que fossem destruídas mais do que as 12  casas incendiadas na paróquia.</p>
<p>Ao contrário, o seu vigário que se  assumiu abertamente apoiante da resistência à ocupação indonésia,  teve que fugir e só recentemente regressou.</p>
<p>Para cultivar,  com o seu colega, a horta e as almas.</p>
<p>Lusa/Fim</p>
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<p style="text-align: left;">A segunda:</p>
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<p style="text-align: left;">Maubisse,  Timor-Leste, 20 Out [1999] (Lusa) &#8211; Maubisse quase não foi vandalizada  pelas milícias integracionistas, que abundavam na vila. Mas houve  que pagar um preço: seis milhões de rupias (120 contos) que, ironicamente,  foram doadas pelo governo indonésio.</p>
<p style="text-align: left;">O plano de destruição da  localidade estava pronto para ser executado, quando no dia 13 de  Setembro um comerciante de Maubisse decidiu tentar a sorte e  evitar que as casas fossem incendiadas.</p>
<p style="text-align: left;">Tinha recebido um subsídio  de seis milhões de rupias das autoridades indonésias para  desenvolver o seu negócio e propôs-se doá-los aos milicianos se  partissem sem queimar as casas. O negócio foi aceite e apenas 12  casas foram queimadas, contou hoje à Agência Lusa o padre da  localidade, Norberto Amaral.</p>
<p style="text-align: left;">O  dinheiro não impediu, porém, que a população que não havia fugido  da vila fosse levada para Timor-Ocidental. Mas só cerca de 700 pessoas  tiveram que partir nos camiões do exército indonésio, quando milícias  e militares partiram definitivamente, a 14 de Setembro.</p>
<p style="text-align: left;">Os  restantes 16.800 ficaram nas montanhas dos arredores e já voltaram  a casa, disse o prior.</p>
<p style="text-align: left;">Foi assim que a bonita localidade, situada  numa cova rodeada demontanhas, se conseguiu manter quase  intacta, ainda com muros de arbustos aparados a ladear algumas  ruas e caminhos e uma grande igreja em construção há cinco anos.</p>
<p style="text-align: left;">Isto  apesar do grande número de elementos da milícia Mahidi, que actuaram  na região nos últimos tempos. &#8220;Até mulheres&#8221; faziam parte dos grupos  paramilitares, disse um dos habitantes da localidade à Lusa.</p>
<p style="text-align: left;">Quanto  à possibilidade de essas pessoas regressarem à região, o mesmo  residente rejeitou-a: &#8220;Eles não voltam, porque se voltassem estes&#8230;&#8221;,  afirmou, fazendo um gesto com a mão a simular o corte da garganta  enquanto apontava para a sede local do Conselho Nacional da Resistência  Timorense (CNRT).</p>
<p style="text-align: left;">Lusa/Fim</p>
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