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	<title>Atlântico expresso &#187; Portugal</title>
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	<description>Um mar de palavras e memórias</description>
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		<title>Crime sem castigo</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Jun 2010 12:01:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Afastado Fernando,
foi no momento em que levantei os olhos do artigo sobre a responsabilidade dos pais na educação dos filhos que vi o gesto fatal.
Tirou o último cigarro, amachucou o maço e pimba! atirou-o para a calçada da rua, junto ao passeio, no intervalo entre dois  carros estacionados. Estudos e sondagens sobre civilidade pouco [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC10068.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1113" title="SDC10068" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC10068-300x225.jpg" alt="" width="242" height="181" /></a>Afastado Fernando,</p>
<p>foi no momento em que levantei os olhos do artigo sobre a responsabilidade dos pais na educação dos filhos que vi o gesto fatal.<br />
Tirou o último cigarro, amachucou o maço e pimba! atirou-o para a calçada da rua, junto ao passeio, no intervalo entre dois  carros estacionados. Estudos e sondagens sobre civilidade pouco podem contra a dura realidade revelada nos pequenos gestos. Dizem-nos que já somos assim e assado, mas atiramos lixo para o chão com a naturalidade de quem respira. A teoria e a prática, a ficção e o real, o que parece e o que é, o que lemos e o que vemos, o que nos garantem e o que sentimos.<br />
<span id="more-1112"></span>Sinto que este estado de espírito se acentuou nos últimos tempos por aqui, na  tua terra. Umas pessoas andaram a dizer-nos que tínhamos futuro e agora, com o mesmo desplante, vêm apresentar-nos uma conta que desconhecíamos. Alguém garantiu que ia usar bem o nosso livro de cheques, que podíamos estar descansados, e agora descobre-se que gastaram muito mais do que tínhamos na conta e vamos ter que pagar. Acreditámos, agimos de boa fé, mas fomos vigarizados, atraiçoados. Queixa na polícia! Qual polícia? Não há. Crime sem castigo, nada a fazer, a não ser o que nos mandam. Dizem. Sejam responsáveis, exigem-nos os mesmos que não o foram, que nos deixaram a conta negativa porque juraram usar bem o quase nada que tínhamos. E não acontece nada. Não lhes acontece nada. Descobrimos que não há multa para tal infracção. Nem se fala disso. Esqueçam. Tudo o que importa é saber como vamos repor o que era nosso e gastaram sem nos avisar. Escondendo. É o vale tudo. A mentira banalizou-se, tornou-se normal, é aceite. Foi oficializada, decretada. Prepara-te para, quando voltares, veres ainda mais gente a atirar lixo para a rua.</p>
<p>Um verdadeiro abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>O novo bispo de Maliana</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/portugal/o-novo-bispo-de-maliana/2010/04</link>
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		<pubDate>Sat, 24 Apr 2010 08:59:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Memorado Fernando,
hoje acordei a ouvir a notícia de que Timor-Leste passou a ter um terceiro bispo, que terá a seu cargo a diocese de Maliana, na zona Ocidental do país, junto à fronteira  com a Indonésia. Quando ouvi o nome, recuei dez anos na memória e recordei-me que conhecera um padre chamado Norberto Amaral, em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><img class="alignleft" src="http://4.bp.blogspot.com/_fOJD67rCP10/S2SHKik3tJI/AAAAAAAAhgg/cIxYvAw4fK8/s400/1702729-Maubisse_Town_and_The_Church_of_St_Matthew-Maubisse.jpg" alt="" width="200" height="267" />Memorado Fernando,</p>
<p style="text-align: left;">hoje acordei a ouvir a notícia de que Timor-Leste passou a ter um terceiro bispo, que terá a seu cargo a diocese de Maliana, na zona Ocidental do país, junto à fronteira  com a Indonésia. Quando ouvi o nome, recuei dez anos na memória e recordei-me que conhecera um padre chamado Norberto Amaral, em Maubisse, quando estive lá, antes da independência e depois da devastação indonésia causada por militares e  milicianos. Não me enganei. Foi o padre que entrevistei em Mauibisse &#8211; a &#8220;Sintra timorense&#8221; &#8211; na horta, de galochas, quando preparava a terra para semear batatas.</p>
<p><span id="more-1096"></span>Encontrei nos arquivos da <a href="http://www.lusa.pt">Lusa</a> uma reportagem e uma notícia que escrevi depois desse encontro com o novo bispo timorense. Achei que gostarás de ler, por isso seguem junto.</p>
<p>Um abraço à malai.</p>
<p>António Martins Neves</p>
<p style="text-align: left;">
<p style="text-align: left;">A primeira:</p>
<p>Maubisse,  Timor-Leste, 20 Out [1999] (Lusa) &#8211; &#8220;O prior é aquele senhor ali&#8221;,  disse o sacristão apontando para um grupo de homens que cavava um terreno  inclinado nos arredores de Maubisse. Um timorense de chapéu à &#8220;Cowboy&#8221;,  galochas e lenço ao pescoço aproximou-se: &#8220;Boa tarde: Sou o padre  Norberto Amaral&#8221;.</p>
<p>Quem  chegue a Maubisse e procure o padre da paróquia é muito natural  que lhe suceda o que ouviu hoje o enviado da agência Lusa: &#8220;o senhor  padre está na horta&#8221;.</p>
<p>E lá estava o sacerdote, patilhas ralas até  meio da face, 42 anos, enxada na mão, a preparar o terreno antes  das chuvas que se adivinham para semear batatas, feijão e  morangos.</p>
<p>A acompanhá-lo, outro padre, o vigário da paróquia,  Mateus Afonso, que não pousa a enxada enquanto o seu superior  fala da sua experiência de sacerdote-agricultor.</p>
<p>&#8220;Não gosto  de ficar em casa, sentado na cadeira. E assim ensino o povo a  trabalhar&#8221;, explicou, concordando que prefere ensinar a pescar do  que oferecer o peixe.</p>
<p>Isto, enquanto as obrigações da paróquia  não apertam. Quando voltarem os habitantes que fugiram das  milícias e a situação normalizar, Norberto Amaral vai ter que dedicar menos  tempo à horta e mais às almas dos maubissenses.</p>
<p>E poderá  finalmente assumir a sua simpatia com a causa independentista de  Timor-Leste, que conseguiu manter mais ou menos camuflada durante  a invasão indonésia.</p>
<p>&#8220;Eles (milícias integracionistas)  desconfiavam, mas consegui sempre que continuassem a falar  comigo&#8221;. Por isso, evitou a perseguição de que foram alvo muitos  dos outros padres timorenses, ficou sempre em Aileu e diz ter  contribuído para evitar que fossem destruídas mais do que as 12  casas incendiadas na paróquia.</p>
<p>Ao contrário, o seu vigário que se  assumiu abertamente apoiante da resistência à ocupação indonésia,  teve que fugir e só recentemente regressou.</p>
<p>Para cultivar,  com o seu colega, a horta e as almas.</p>
<p>Lusa/Fim</p>
<p style="text-align: left;">
<p style="text-align: left;">A segunda:</p>
<p style="text-align: left;">
<p style="text-align: left;">Maubisse,  Timor-Leste, 20 Out [1999] (Lusa) &#8211; Maubisse quase não foi vandalizada  pelas milícias integracionistas, que abundavam na vila. Mas houve  que pagar um preço: seis milhões de rupias (120 contos) que, ironicamente,  foram doadas pelo governo indonésio.</p>
<p style="text-align: left;">O plano de destruição da  localidade estava pronto para ser executado, quando no dia 13 de  Setembro um comerciante de Maubisse decidiu tentar a sorte e  evitar que as casas fossem incendiadas.</p>
<p style="text-align: left;">Tinha recebido um subsídio  de seis milhões de rupias das autoridades indonésias para  desenvolver o seu negócio e propôs-se doá-los aos milicianos se  partissem sem queimar as casas. O negócio foi aceite e apenas 12  casas foram queimadas, contou hoje à Agência Lusa o padre da  localidade, Norberto Amaral.</p>
<p style="text-align: left;">O  dinheiro não impediu, porém, que a população que não havia fugido  da vila fosse levada para Timor-Ocidental. Mas só cerca de 700 pessoas  tiveram que partir nos camiões do exército indonésio, quando milícias  e militares partiram definitivamente, a 14 de Setembro.</p>
<p style="text-align: left;">Os  restantes 16.800 ficaram nas montanhas dos arredores e já voltaram  a casa, disse o prior.</p>
<p style="text-align: left;">Foi assim que a bonita localidade, situada  numa cova rodeada demontanhas, se conseguiu manter quase  intacta, ainda com muros de arbustos aparados a ladear algumas  ruas e caminhos e uma grande igreja em construção há cinco anos.</p>
<p style="text-align: left;">Isto  apesar do grande número de elementos da milícia Mahidi, que actuaram  na região nos últimos tempos. &#8220;Até mulheres&#8221; faziam parte dos grupos  paramilitares, disse um dos habitantes da localidade à Lusa.</p>
<p style="text-align: left;">Quanto  à possibilidade de essas pessoas regressarem à região, o mesmo  residente rejeitou-a: &#8220;Eles não voltam, porque se voltassem estes&#8230;&#8221;,  afirmou, fazendo um gesto com a mão a simular o corte da garganta  enquanto apontava para a sede local do Conselho Nacional da Resistência  Timorense (CNRT).</p>
<p style="text-align: left;">Lusa/Fim</p>
<p style="text-align: left;">
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		<title>Primavera</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Mar 2010 16:57:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Tropical Fernando,
terminou hoje um dos invernos mais chuvosos de que há memória no país. Oficialmente, começou a primavera e o tempo confirma: está sol, céu limpo, 18 graus de temperatura. Se a natureza cumprir, o que já não é garantido, os cucos devem ter chegado hoje daí, de África, e já se devem fazer ouvir [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 2cm } 		P { margin-bottom: 0.21cm } --><img class="alignleft" src="http://www.dzai.com.br/static/user//24/24540/c99534634ac4a0a58fa222f99fb2cc87.jpg" alt="" width="248" height="186" />Tropical Fernando,</p>
<p>terminou hoje um dos invernos mais chuvosos de que há memória no país. Oficialmente, começou a primavera e o tempo confirma: está sol, céu limpo, 18 graus de temperatura. Se a natureza cumprir, o que já não é garantido, os cucos devem ter chegado hoje daí, de África, e já se devem fazer ouvir aqui, pelos bosques. A água dominou nos últimos três ou quatro meses, mas agora remeteu-se às evidências.</p>
<p><span id="more-1066"></span>Mais habituadas à seca e ao dito bom tempo, as pessoas aqui já largam água pelos olhos (não são só lágrimas) e até as pedras da calçada parecem ainda reter chuva. Uma fartura! Até a barragem do Alqueva atingiu a capacidade máxima e ia deitando por fora, uma espécie de milagre para descrentes. Um autêntico mar de água doce. Houve as desgraças que sabes: temporais e ventanias, as enxuradas que levaram meia Madeira para o mar e mataram mais de 40 pessoas. Tudo porque, dizem os meteorologistas, o anti-ciclone que costuma passar os invernos nos Açores este ano deslocou-se um pouco mais para Norte e deixou passar o mau tempo que vem do outro lado do Atlântico. Temos uma garantia, pelo menos: não vai haver falta de água este ano, talvez haja menos incêndios e a natureza retribua a generosidade dos céus.<br />
Depois de tanto quilómetro cúbico de água despejado sobre as cidades e os campos, recordei-me há dias que não tenho guarda-chuva. Esqueço-me deles, perco-os,  pelo que desisti de comprar tais utensílios. E consegui que a chuva só me molhasse a cabeça uma ou duas vezes desde o Verão. Ando na rua, pouco é certo, quase não uso carro no dia-a-dia mas escapei-me a indesejáveis encharcamentos sem saber muito bem porquê. Lembrei-me que em regiões tropicais, se calhar aí também, sucede o mesmo: ninguém sabe o que são guarda-chuvas. Em Belém do Pará, na foz do Amazonas (Brasil), onde ouvi cargas de água fazerem-se anunciar ao longe com ruído, disseram-me que essas protecções são dos objectos mais raros na cidade. As pessoas encostam-se às paredes, ficam ali abrigadas debaixo dos beirais, à espera que passe e pronto.<br />
No meio de todas as consequências de um Inverno dos antigos, retive um episódio indicador de que nem só casas e estradas em leitos de cheia podem causar as desgraças a que assistimos. Num sábado, ao final da tarde, quando chovia desalmadamente por todo o país, estava a trabalhar e tocou o telefone mais uma vez: duas cegonhas &#8220;desalojadas&#8221;. Não fora inundação, claro. Aparentemente foi mesmo a idade do ninho, a água e o vento que empurraram aquele emblemático e gigantesco monte de paus entrelaçados e pastos do alto da torre da igreja, antes da missa das 18. Era um dos ícones, parte da imagem associada a Figueira de Castelo Rodrigo, a vila fronteiriça perto de Guarda vitimada pela intempérie. Disseram os técnicos da câmara local que o ninho, a que chamaram &#8220;centenário&#8221; e teria seguramente muitas dezenas de anos, pesava mais de uma tonelada (MIL QUILOGRAMAS!). Deixou uma cratera no telhado da igreja que faz juz ao peso, mas nenhum crente se magoou. Do casal de cegonhas nunca mais ninguém falou. Já devem ter construído outro ninho, que é tempo de começar a trabalhar para tazer descendência ao mundo e chuva é água. E  é a vida&#8230;</p>
<p>Um enxuto abraço</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>&#8220;Porquê?porquê?porquê?&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Mar 2010 08:00:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Ele &#8220;noventa e&#8230;&#8221;, ela lá perto. Vão os dois ao ritmo que a idade permite, pelo passeio. Ela agarrada ao braço dele, como um casal &#8220;à antiga&#8221;. Nota-se que os corpos se deixaram vergar pelos anos, caminham tortinhos. Ela ligeiramente mais atrás, braço quase esticado para não deslocar do braço dele, toda discrição. As honras [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC10489.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-1061" title="SDC10489" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/SDC10489-300x225.jpg" alt="" width="261" height="197" /></a>Ele &#8220;noventa e&#8230;&#8221;, ela lá perto. Vão os dois ao ritmo que a idade permite, pelo passeio. Ela agarrada ao braço dele, como um casal &#8220;à antiga&#8221;. Nota-se que os corpos se deixaram vergar pelos anos, caminham tortinhos. Ela ligeiramente mais atrás, braço quase esticado para não deslocar do braço dele, toda discrição. As honras são mesmo para ele.</p>
<p><span id="more-1062"></span>Sem gravata mas com lenço ao pescoço, óculos de sol, um chapéu quase informal, casaco, sapatos de cabedal brilhantes, tudo em tons de castanho, a condizer. São os dois muito pequenos, abaixo de metro e meio seguramente, um casal de classe média-alta provavelmente já com bisnetos. Vão assim pelo passeio, com aquele ritmo de quem não tem  pressa para nada, quando surge pela esquerda a terceira figura de uma história sem fim. É igualmente baixo, inclinado tal e qual, mas pelo vestir percebe-se que nunca pode dar tanta importância à aparência. Anda com as mãos atrás das costas, seguras uma na outra. Percebe-se que são calejadas.Usa um boné aos quadrados, botas de untar, não há ali roupa a condizer. Mas conhecem-se. Os homens avançam um para o outro, a mulher pelo braço fica um pouco mais para trás, enquanto eles pegam na mão um do outro e dão ares de estarem a apertar com força. O que veste a rigor diz alto da sua baixeza: &#8220;Há quanto tempo! Mas porquê?, porquê&#8230;? porquê&#8230;?&#8221; E sacode com veemência o braço do outro homem dando força física à saudade implícita no cumprimento. Não se ouve a resposta, mas percebe-se que a atitude tem eco. Não se visitarão em casa, mas conhecem-se de há muitos anos. Ficam a conversar menos que  uns cinco minutos. Quantos são? &#8220;Noventa e&#8230;&#8221; &#8211; o número sai sumido da boca do homem aperaltado, mas não deixa dúvidas. Aqueles dois metros quadrados de calçada portuguesa estavam a suportar uns 250 anos, contas por baixo e coisa rara. Uma honra, mesmo que para pedras.<br />
Uma mulher muita gorda sentada na esplanada do passeio largo fala a gritar com uma voz fina e contraditória que deve deixar com os nervos em franja os dois cães que tem presos pela trela. Os animais respondem no mesmo tom, ladram desalmadamente a tudo o que mexe. Ali está porque os cães se parecem com os donos. Misturam-se os ladros com os gritos numa confusão que ninguém consegue ignorar.<br />
A mistura histérica com ar de normal ofusca por completo a conversa dos dois homens e da mulher que assiste. Termina como começou: longos comprimentos, até á próxima. O casal segue a sua viagem sem pressa e o homem do boné dá meia volta e aponta em direcção ao café-pastelaria: &#8220;Vou buscar o meu almoço&#8221;.</p>
<p>Um calmo abraço</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Parti a caneta</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Feb 2010 08:00:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Resistente Fernando,
parti a caneta. Isso mesmo: escapou-se-me das mãos e foi direitinha ao chão de mármore do pátio da entrada. O aparo abriu-se, arreganhado, e nunca mais foi capaz de deixar sair um gatafunho que fosse. Não foi coisa recente. Há já uns meses que deixei de tomar notas com aquela vulgar caneta. Continuo a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Resistente Fernando,<br />
parti a caneta. Isso mesmo: escapou-se-me das mãos e foi direitinha ao chão de mármore do pátio da entrada. O aparo abriu-se, arreganhado, e nunca mais foi capaz de deixar sair um gatafunho que fosse. Não foi coisa recente. Há já uns meses que deixei de tomar notas com aquela vulgar caneta. Continuo a registar no papel, mas não é a mesma coisa. O que me consola é que ela vai voltar a exercer. Com um aparo novo. Telefonaram-me há dias a dizer: “A sua caneta vai ser reparada. Está na Suíça…”.<br />
<span id="more-1044"></span>Garanto-te que não é nada do que estás a congeminar. Não se trata de nenhum avião nem nenhum carro topo de gama com função acessória de escrever. É um discreto instrumento de escrita que me custou umas escassas dezenas de euros num sábado à tarde num centro comercial. Tem um depósito de tinta que deve ser abastecido de quando em vez para manter a eficácia, é leve, macia, desliza (deslizava) bem e afeiçoei-me a ela como quando simpatizamos com pessoas que conhecemos por acaso e de quem nos tornamos amigos. Caiu-me da mão um dia à noite quando repetia para enésima vez a frase que escrevo na correspondência que continua a chegar cá a casa em nome do antigo inquilino: “Destinatário desconhecido nesta morada”. Não faço ideia quem seja, mas há um banco que não pára de lhe escrever, mesmo recebendo de volta as cartas que deixo à disposição do carteiro. As mãos ocupadas, sacos, papéis, confusão e deixei cair a minha caneta preta. E tinha que ser logo com o aparo para baixo. Tem que levar um novo. Já me disseram que sim senhor, que teve que ir para a fábrica, imagina, só lá lhe podem pôr um aparo. Que seja. Quero-a de volta.<br />
Voltei às esferográficas de sempre, mas, insisto, não é a mesma coisa. É um escrever por escrever, um anotar porque tem que ser, a letra nem sai como antes, parece a de outro. E não tenho explicação. A não ser que tenha havido algum retrocesso ao tempo da escola primária, há quase 40 anos atrás. As esferográficas Bic eram então uma modernice e a professora era extremamente conservadora. Não senhor! Escrever tem que ser com caneta de aparo. E foi assim que arrumei as primeiras letras. Era uma caneta preta e verde, com um fole que se apertava e se largava depois de mergulhar o aparo no tinteiro. O sorvo enchia o depósito e lá saíam aquelas letras redondas, aquela escrita diferente de todos, numa altura em que ninguém imitava ainda as letras de forma batidas pelas máquinas de escrever, nem havia quem colocasse bolas em cima dos is.<br />
Mas agora, e garanto-te que não  é capricho, escrever com uma qualquer esferográfica é assim como trocar umas botas confortáveis por uns chinelos de enfiar no dedo quando se viaja de transporte. Percorre-se a mesma distância, mas há sempre um desconfortozinho, aquele incómodo causado pela falta de aconchego. Perde-se o andar firme, dão-se passos porque é preciso. É o que me tem sucedido, Fernando. Claro que, quanto a escrever mesmo, em definitivo, no trabalho, dispensam-se canetas, esferográficas ou lápis. Basta bater com os dedos nas teclas que saem as letras iguais, todas certinhas, indiferentes. O normal portanto. Mas tem-me acompanhado este frio de meter a mão no bolso interior esquerdo do casaco e não estar lá a caneta. Mas, só por aquela senhora da loja me ter telefonado a dizer que dentro de dias me deverá contactar a avisar que já chegou a caneta, até me sinto mais animado e olho aqui para os caracteres com outro ânimo.<br />
Um renascido abraço.<br />
António Martins Neves</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;">
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		<title>História do homem que anda</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/portugal/historia-do-homem-que-anda/2009/09</link>
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		<pubDate>Wed, 30 Sep 2009 09:00:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Perspicaz Fernando,
em momentos como o actual, entram-nos todos os dias pela casa dentro caras e vozes a tentar-nos convencer que são de uns predestinados capazes de nos salvar do apocalipse. É quase sempre assim antes de eleições. Um desfile de líderes políticos a suarem por nos fazer crer que o nosso bem estar é a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Perspicaz Fernando,</p>
<p>em momentos como o actual, entram-nos todos os dias pela casa dentro caras e vozes a tentar-nos convencer que são de uns predestinados capazes de nos salvar do apocalipse. É quase sempre assim antes de eleições. Um desfile de líderes políticos a suarem por nos fazer crer que o nosso bem estar é a sua maior preocupação, que se lhe dermos o voto, é desta que o país irá onde nunca foi. O costume há mais de 30 anos. Nada habitual é alguém comportar-se como tendo uma missão a cumprir sem dar por isso, justificá-la numa frase com meia-dúzia de palavras e ninguém encontrar a mais remota explicação para um comportamento só registado pelos mais atentos.</p>
<p><span id="more-1021"></span>Augusto C. não tem a mais pequena queda para político, mal se lhe entendem as palavras da boca sumida e a sua capacidade de liderança nunca deve ter sido avaliada, para bem dele. O que lhe falta nestas matérias tão desenvolvidas pela ambição dos tantos que querem tomar nas mãos as rédeas da coisa pública, sobra-lhe em perseverança, que dispõe numa quantidade colossal, incalculável mesmo. E que faz o pequeno homem de tez quase negra, boné e uma dificuldade enorme em levantar os pés do chão? Anda! Mas não dá pequenos passeios. Percorre pelo menos uma dúzia de quilómetros diariamente. E porquê? Ao que me contam, costuma responder: “Tenho que ir às compras”. Ninguém acredita muito na explicação, tanto mais que costuma andar com a caixa que fixou por cima da roda traseira da bicicleta quase sempre vazia. Bicicleta? Não anda a pé?? Anda, mas sempre com a uma bicicleta ao lado, daquelas para aí com a idade do 25 de Abril. Em vez de uma bengala, apoia-se nas duas rodas, em cima das quais já deixou de se conseguir equilibrar há que tempos. Anda pela faixa de rodagem, encostado aos passeios, às bermas, e usa um colete reflector verde, igual aos que são obrigatórios para os automobilistas quando ficam empanados ou têm acidentes na estrada.Os dias correm quase sempre iguais: uma viagem de manhã para “ir às compras” com partida do bairro, passagem por outros dois até ao destino. Ali chegadao, bicicleta trancada num daqueles pinocos anti-carros em cima dos passeios. E o cão a guardar. Sim, Agusto C. tem um cão, pequeno como ele, que lhe segue os passos quando devidamente autorizado. Vai à solta, farejando aqui e ali, uma vezes atrás outras à frente, algumas correndo outras deslocando-se com preguiça. Feitas as “compras”, regressa a casa antes da hora do almoço. Quando a viagem decorre em locais com pouco trânsito, o cachorro ostenta um pose mais descontraída e solta, quando os carros surgem ameaçadores cola-se aos pés do dono. Ah, um pormenor nada irrelevante: cada uma destas tiradas é desenvolvida em etapas que terminam e começam metamaticamente nas diversas tabernas e cafés que existem no caminho. Depois de almoço a dose é repetida. E no dia seguinte e no outro e no outro&#8230;<br />
Dirás tu daí: então isso tudo não configurará alguma dependência das escalas nos balcões para “matar a sede” causada pela andança? Então mas se o podia fazer a dezenas de metros de casa, por que raio se sujeita a tamanha e estafante rotina? Uma vantagem tem seguramente: o exercício a que se impõe e que lhe impede a contemplação do mundo a partir de uma cadeira empalhada como é banal noutros reformados da sua geração. Para quem vê e ouve de fora, o resto afigura-se uma espécie de segredo à espera de ser revelado. Que também não deverá ter nada de extraterreno, mas apenas e só alguma necessidade do corpo ou da alma.<br />
Fica o exemplo da persistência e, recorrendo um pouco à imaginação, da convicção. Qual? Não faço ideia. Olha, deve ser porque sim&#8230;</p>
<p>Um insistente abraço</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Flash de um 15 de Agosto</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Aug 2009 15:33:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[
Refastelado Fernando,
no dia mais animado do ano, enquanto te imagino espojado nos areais de Santo André ou lá por perto, nessas merecidas férias à beira de casa, há momentos que fazem a diferença aqui em Lisboa, donde a maioria dos habitantes desertou para locais ditos de férias e a cidade pode ser vivida de modo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-medium wp-image-1008" title="Tarde de Verão" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/Tarde-de-Verão-225x300.jpg" alt="Tarde de Verão" width="305" height="406" /></p>
<p>Refastelado Fernando,<br />
no dia mais animado do ano, enquanto te imagino espojado nos areais de Santo André ou lá por perto, nessas merecidas férias à beira de casa, há momentos que fazem a diferença aqui em Lisboa, donde a maioria dos habitantes desertou para locais ditos de férias e a cidade pode ser vivida de modo mais intenso do que no resto do ano. Registei o quadro que te envio.</p>
<p><span id="more-1007"></span>Nem tudo é samba, nem corridinhos, nem rock n´roll. Há quem se entregue às baladas ou ao swing, como no resto do ano. Na rua, no meio dos prédios. Com serenidade. Agosto não é só fugir para o caos ainda maior do que nos restantes meses. Pode ser assim, disfrutado com alma, no coração da capital. Se fosse fazer a comparação, a mulher ganhava destacada. Está a ler um livro sentada num banco de jardim, perna cruzada, jeans, ténis vermelhos a condizer com a camisola. Tem rabo de cavalo e os movimentos que faz resumem-se ao passar da página. Não me atrevo a tentar adivinhar que história lhe está a encher a alma. Seja qual for, é prazenteira, absorvente. Deixa-a quase inamovível. Está num banco de jardim, daqueles clássicos, de madeira. Virada a Norte, ao fresco, um acanhado relvado pela frente. O Verão que corra e que abrase. Uma tarde de estio há-de continuar a ser o que uma mulher quiser. Com o seu livro.<br />
Ele está a 20 metros mas não se vislumbram. A atenção recai-lhe em jornais de fim-de-semana. Há mais impaciência, um ler mais frenético, marcado pelas aspiradelas em cigarrilhas. Apaga-se uma e logo outra é acendida. O fumo entrai e sai logo, sem tempo para ser apreciado. Tudo decorre num ritmo mais nervoso do que do outro lado da esquina. Sentado num degrau de cimento, o homem parece cumprir um ritual apenas num local diferente. De calções, sandálias, seja lá como for, o mundo não pode passar ao lado. Os negócios, as eleições que se avizinham,  as guerras, a bolsa, jamaois poderão esconder segredos. Nem no dia em que o país mais romarias contabiliza e a acumulação de gente a tentar esquecer o resto do ano confirma uma vulgaridade:  a bela da vida não pára nem no 15 de Agosto.</p>
<p>Um despreocupado abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
<p><!-- 		@page { margin: 2cm } 		P { margin-bottom: 0.21cm } --></p>
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		<title>Carne é&#8230;crime???</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/portugal/carne-e-crime/2009/08</link>
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		<pubDate>Tue, 04 Aug 2009 10:14:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[
Omnívoro Fernando,
anda aqui um grupo de pessoas a querer formar um partido para defender os outros animais, os irracionais. Que o resto não lhes interessa, os bichos sim estão desprotegidos e é preciso deputados de duas pernas para fazer valer os interesses de cães, gatos, bovinos, caprinos e seus semelhantes. Eles sentem-se mandatados para isso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-medium wp-image-1003" title="3699569913_9698cd9d26" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/3699569913_9698cd9d26-300x225.jpg" alt="3699569913_9698cd9d26" width="406" height="303" /></p>
<p>Omnívoro Fernando,</p>
<p>anda aqui um grupo de pessoas a querer formar um partido para defender os outros animais, os irracionais. Que o resto não lhes interessa, os bichos sim estão desprotegidos e é preciso deputados de duas pernas para fazer valer os interesses de cães, gatos, bovinos, caprinos e seus semelhantes. Eles sentem-se mandatados para isso e andam a recolher assinaturas de…outras pessoas. Assim à primeira vista, parece meritório. Se tentarmos ver para além da cortina de fumo, não encontro benevolência na atitude.</p>
<p><span id="more-1002"></span>Há dias dei de caras com uma frase escrita que me causou perplexidade e se afigura como reveladora da intolerância que cada vez ameaça mais o grupo de animais que constitui a nossa civilização. Assim de rompante, aquilo até não se entendia, mas o local onde fora escrita com uma lata de spray esclarecia o alcance da coisa. “Carne é crime”, lia-se na caixa frigorífica de uma carrinha de onde um homem vestido de braço descarregava carcaças de porco para um talho, numa rua de Lisboa. Franzi a sobrancelha. Por outras palavras, o que estava ali dito era que quem come carne é criminoso. É o meu caso. Ora essa! Eu que sempre me considerei um zelador dos interesses dos muitos animais com que já convivi na vida estaria da iminência de ir parar à cadeia se o escriba daquela frase conseguisse arregimentar subscritores para o disparate com que esborratara a camioneta da distribuição de carne? Corro riscos se for apanhado a comer uma coxa de frango por perspectiváveis brigadas de zeladores famintos por encontrar uma proteína animal num prato, como talibã em busca de tornozelo feminino? Não posso crer, mas quem não quer ver mais do que a vista alcança cai nestes ridículos. Fundamentalismos não existem só lá para a Ásia ou aí em África, onde em nome dos bons costumes há uns senhores a reprimirem povos a seu belo proveito, em nome da moral deles. Aqui, assim, vamos pelo mesmo caminho. Defendo onde for necessário que quem tenha um cão ou um gato fechados num apartamento não gosta deles. Criou-se a “moda” dos animais domésticos, com o alto patrocínio dos fabricantes de rações – um dos grandes negócios legais da actualidade – e houve um grupo de bem pensantes que arranjou logo argumentos para justificar todas as torturas necessárias para suportar os ditos animais de companhia. A pior de todas é a castração: sem poderem procriar, animais transformados em peças decorativas perdem a sua principal razão de existir. Isto nunca ouvi da boca de um defensor dos direitos dos animais. Mas quero crer que haja quem o afirme, em nome da civilização, pelo menos. Implícito na atitude de quem diz que consumir carne é crime está o sofrimento infligido pelos humanos aos seres vivos, em geral. E o mundo só não se tornará uma prisão gigantesca porque morreremos todos antes…à fome. Não posso crer que gente tão preocupada com o sofrimento alheio possa admitir que se “mate” uma couve ou permita que se cometa a barbaridade de arrancar uma maçã da árvore. Quando penso nisto tudo, ocorrem-me logo as centenas de mosquitos que se esmagaram (fui eu que os esmaguei!) contra a frente do meu carro. Atendendo ao número, não me livraria da pena máxima. É fraco o consolo, mas folgo saber que ninguém se livrará de tais grilhetas. Não haverá pobres nem ricos nesta justiça. Um exemplo: o que aconteceria ao Cristiano Ronaldo depois de passar 90 minutos a esmagar e arrancar a relva de um estádio?</p>
<p>Um sensato abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Nós e bichos</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/portugal/nos-e-bichos/2009/07</link>
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		<pubDate>Thu, 16 Jul 2009 17:44:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[
Racional Fernando,
histórias com bichos é o que te trago hoje. Não somos só nós que lhes entramos pela vida, eles também nos invadem o quotidiano, umas vezes inofensivamente, outras nem tanto. Chegam a ser úteis nalgumas alturas, aterrorizam-nos ingenuamente noutras poucas. São animais com que temos que conviver e nem vale a pena pensar em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><img class="alignleft size-medium wp-image-991" title="Gaivota" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/Gaivota-300x225.jpg" alt="Gaivota" width="243" height="183" /><img class="alignleft size-medium wp-image-992" title="pardal3" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/pardal3-300x225.jpg" alt="pardal3" width="243" height="182" /></p>
<p style="text-align: left;">Racional Fernando,</p>
<p style="text-align: left;">histórias com bichos é o que te trago hoje. Não somos só nós que lhes entramos pela vida, eles também nos invadem o quotidiano, umas vezes inofensivamente, outras nem tanto. Chegam a ser úteis nalgumas alturas, aterrorizam-nos ingenuamente noutras poucas. São animais com que temos que conviver e nem vale a pena pensar em cortar a relação porque eles não estão interessados nisso.</p>
<p><span id="more-989"></span>- Manhã de domingo, Bairro de Campanhã, no Porto. Pouca gente na rua. Há um movimento anormal de gaivotas naquele local da cidade. Andam agitadas, com aquele ar faminto de sempre, de quem não há peixe que as sacie. Uma poisa no meio da rua. Estranho. Reparo melhor e a ave está no centro de um triângulo imaginário. Passam carros à direita à esquerda e por trás. Mas onde ela está, não. Se o fizessem colidiam uns com os outros ou contra as paredes das casas. E o pássaro parece plenamente consciente disso. Não se assusta. Domina aquela situação de uma forma que só não é perfeita porque denota algum nervosismo. Mas o que a deixa intranquila não são os carros que passam a dois ou três passos de distância. O motivo da agitação que revela está em cima do passeio. Dois alguidares com sardinhas pequenas vigiados pelas respectivas peixeiras. São aquelas vasilhas reluzentes que levam a ave a procurar a segurança no meio do trânsito, para onde não vão nem carros nem pessoas e a deixam a meia dúzia de metros do alvo. Não vi, mas não me espantaria nada que se uma das mulheres virasse a cabeça uns instantes o alguidar seria alvo de um ataque picado e ficaria sem uma sardinha, pelo menos. As outras gaivotas que se agitam são menos ousadas. Não desgrudam das sardinhas, mas fazem-no pousadas em candeeiros da rua, beirais de telhados. De lá de cima até aos alguidares o voo acaba por ser mais demorado e exige mais perícia do que estar ao nível do alvo e bastar um bater de asas para anular os poucos metros de rua que separam o pássaro das sardinhas. Tirei uma fotografia que te mostro ao lado.<br />
- “Vai ver o rio, porque a água lava tudo”. Vindo de quem veio, o conselho foi cumprido de imediato. Estava uma bela tarde de Verão, sem muito calor nem muita gente perto do Tejo. Levo leitura e entro numa esplanada semi-fechada, com cobertura, vidros à volta. Entra o cheiro mas não se sente o vento, abunda a luz mas o sol fica lá fora. O olhar dirigido para a leitura pressente algo a mexer-se no chão, junto aos meus pés. Terei visto mal? Foi uma daquelas sugestões falsas que nos podem ocorrer? Estarei com visões? Não…Mal precisei desviar o olhar para a direita para perceber o que vera mexer junto aos meus sapatos: um pardal. Vai saltitando por ali e olha-me quando me mexo lentamente para tirar do bolso a máquina fotográfica. Estancamos os dois. Ele desconfiado, eu a pedir-lhe que me deixe registar o momento. Recusou e voou por cima das cabeças das poucas pessoas na esplanada e pousa ao fundo, na divisória que separa o espaço da rua. Esqueço o pássaro e regresso aos jornais ou ao livro, não me recordo. Não teriam passado cinco minutos e…ops! Algo atravessa o ar e pisa em cima da minha mesa, na outra ponta. O mesmo pardal. Um macho com penas de quem já criou muitas ninhadas e sabe que por ali costuma haver migalhas. Fica quieto, dá um salto e poisa nas costas da cadeira que está à minha frente, alsa as penas do rabo e pimba! Uma cagadela branca fica a escorrer por ali abaixo à espera que cliente distraído a vá limpar com as costas. E voa de novo. Atrevido! Fotografias nem pensar…Só quando regressou à terceira vez é que lá me deixou fazer uns disparos tremidos e com pouca luz. Mesmo assim, deixo-te ao lado o retrato possível daquele momento.<br />
- A manhã está serena, e até ali naquele local ventoso nem as folhas mexem. Sabe sempre ver-se o Atlântico dali de cima. Até há umas mesas com vista sobre o oceano. Outras estão encobertas pela vegetação, que não deixa ver o azul. Entre o que está em cima da mesa encontra-se um sumo de laranja natural. Ainda só tinha ocorrido o gole de estreia quando se aproxima a grande velocidade uma vespa, rodopia uma ou duas vezes, à lai de reconhecimento, certifica-se que tem ali um alvo agradável e poisa no bordo do como. Gritos, sustos, aquela reacção comum que muitos humanos têm a insectos minúsculo se pouco mais do que inofensivos. “Uma abelha, uma abelha”. A vespa não se ofende por a confundirem com as suas parentes que nos dão mel nem se importa nada com a reacção ruidosa que causou. Vira a cabeça para dentro do copo, rabo alçado e ali vai ela, num rápido mergulho fica a barafustar à tona do sumo de laranja. As asas molhadas impedem-na de voar e deixam-na quase indefesa. Tudo o que conseguiria fazer era dar uma ferroada se alguém se pusesse a jeito. Mas não. Agarra-se à ponta de um guardanapo que lhe deitam traiçoeiramente e desconhece que está ser levada para a morte. Uma sacudidela atira-a para o chão e um pé rápido termina a história do insecto atrevido.<br />
- Julgo que eram uns besugos grelhados que estavam a deixar deliciado a horas tardias para almoçar. O restaurante singelo estava quase vazio como gosto. Pressinto outra vez pelo canto do olho que algo de menos normal anda ali pelo chão. Ergui a cabeça e lá a vi: uma pomba a limpar o chão do estabelecimento em altura de arrumações. Bica quase tudo o que distingue no chão claro. Nada lhe distrai o olhar, no que parece ser uma corrida contra a tempo. Até que algo lhe faz disparar o alarme e de um salto já está voar por cima das cabeças em direcção à porta. Passa à tangente, guina como aqueles aviões das corridas aéreas, para acertar na saída. Escasso minutos depois regressa a pé. Continua a tarefa de recolher do chão tudo o que possa ingerir. “Que bela empregada de limpeza aqui tem! A seco e sem levantar pó…”. A patroa sorri mas não arrisca qualquer resposta. Animais em restaurantes têm que entrar já mortos.</p>
<p>Um abraço voador</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Breve relato de um apagão</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/portugal/breve-relato-de-um-apagao/2009/07</link>
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		<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 16:29:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Discreto Fernando,
entraram e ficaram logo ali naquele recanto do balcão, ao pé da porta, sem trocarem palavra. Impávidos. Ela apoiou os cotovelos no vidro e colocou as duas mãos por baixo do queixo, os dedos semi-entrelaçados numa pose ensaiada. Usava um vestido preto, solto, apertado na cintura. Sem mangas e pelo joelho. A sua silhueta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-medium wp-image-982" title="escuridao" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/escuridao-300x225.jpg" alt="escuridao" width="300" height="225" />Discreto Fernando,</p>
<p>entraram e ficaram logo ali naquele recanto do balcão, ao pé da porta, sem trocarem palavra. Impávidos. Ela apoiou os cotovelos no vidro e colocou as duas mãos por baixo do queixo, os dedos semi-entrelaçados numa pose ensaiada. Usava um vestido preto, solto, apertado na cintura. Sem mangas e pelo joelho. A sua silhueta não passava despercebida, embora fosse magra, pernas e braços finos. Andava em cima de umas sandálias muito altas e pretas também. Parecia muito elegante. Ele não encaixava ali. Usava fato claro sem gravata, camisa às riscas, semi-calvo como um frade franciscano, grisalho.</p>
<p><span id="more-983"></span>Levaram-lhes duas flutes com uma bebida que poderia ser vinho branco, champanhe. Sempre calados. Ela sabia estar, como costumam dizer. Ele não estava cómodo naquela farda. De repente apaga-se a luz, volta, desaparece de novo e o ambiente não se esvai também porque há umas luzes de presença. A penumbra instala-se.<br />
Quando finalmente aconteceu o que esperavam e vagou uma mesa, sentaram-se, e o silêncio também. Pareciam não ter nada para dizer, nem para olhar, nem para tocar. Deve ter sido quando ele reabasteceu pela segunda vez os copos de vinho tinto que se começaram a ouvir duas vozes opostas. Ela possante, projectada, fazendo-se ouvir com uma clareza e determinação invulgares. Ele a mastigar as palavras antes de as libertar, a comer-lhes quase metade antes de as dizer pelos lábios semicerrados. Aparentemente nervoso. Toca o telefone e ele  começa a falar de impostos, que lhe tinham feito um acerto no IRS e tinha que pagar 2.000 euros. Que era de há alguns anos. Falhou alguma coisa, ficaram facturas por entregar, porquê agora? Do outro lado devia estar o contabilista. A conversa enveredou por caminhos que pediam privacidade. Levantou-se e foi para a rua. O telefone dela toca. “Oi”, disse com sotaque inimitável. “Tou com ele. Você tá onde? Depois eu ligo, tá? Xau”. Ele regressa ainda a falar e com a mesma conversa do imposto, a sublinhar sempre o descontentamento com o desembolso.<br />
No espaço domina a falta de luz e as razões para tanto. Sem televisão, as conversas ganham outra visibilidade. Diz ele: “Eu só quero ser livre”. Responde ela: “Você precisa é ser amado&#8230;” e, uns instantes depois, toma definitivamente as rédeas da conversa: “Eu sou uma mulher resolvida!” Ele não, portanto. Já tinham andado pela religião, a debater quem foi o Adão e a Eva. O suposto empresário a tentar ser informal e a dizer que várias religiões reconheciam que tudo começou mesmo com o tal casal, ela a tentar contrariá-lo e a puxar a conversa para um terreno escorregadio: “É preciso acreditar, ter fé&#8230;”. Ele, homem de números e de contas, quase a estrebuchar, ela a fazê-lo cair “na real”: “Hoje lhe passei dez camisas”. E fez-se luz. O multibanco regressou e eles lá ficaram.</p>
<p>Um desinteressado abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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