Archive for the 'Portugal' Category
Atarefado Fernando,
com esse corre-corre a que te obrigam as eleições por aí, ainda vais ser apanhado em excesso de velocidade nalguma curva. Não te preocupes! Como por cá agora pode-se alegar o desconhecimento da lei quando se comete uma infracção e pedir desculpa depois para sermos ilibados, podes tentar a estratégia e ver pega. Se aqui o primeiro-ministro o faz, não vejo razão para que nos outros regimes democráticos seja diferente, não te parece? É uma espécie de jurisprudência baseada na superior conveniência do indivíduo…
Jornalismo, suor e lágrimas
3 comentários Publicado por António Martins Neves 13 Maio 2008 em Portugal.
Repórter Fernando,
eis-me regressado mas sem vontade de me levantar às quatro da madrugada e muito menos de corridas matinais, como sugeres. Aceito e cumpro o conselho do banho, mas em circunstâncias bem diferentes e mais exigentes, porque não tenho o privilégio de morar junto à praia. Firme, isso sim, no propósito de por a nossa escrita em dia. Mal sabia eu que, quando voltasse a sentar-me para retomar a correspondência, desta vez para te deixar algumas impressões de um pequeno livro que li, depararia com mais um relato desse teu espírito de repórter nato, que mergulha a fundo na realidade para a compreender e relatar, nem que isso implique andar pela praia às seis da manhã…
Recordado Fernando,
faz amanhã um ano que desapareceu de um apartamento no Algarve Madeleine McCann, uma menina britânica então com quatro anos, que dormia com os dois irmãos gémeos mais pequenos enquanto os pais jantavam com amigos num restaurante a 50 metros. E quase te podia repetir a carta que te escrevi dias depois. E outras que te fiz chegar sobre o caso. É que tudo está na mesma. A Polícia Judiciária não deixou transparecer qualquer evolução nas investigações, os pais voltaram para casa mas continuam a ser arguidos, o que faz sobre eles recair suspeitas, e o tema veio a perder gás, quase só recordado na altura do lançamento de livros sobre o que se terá passado na Praia da Luz. Como alguém já disse, o “caso” tornou-se num grande negócio.
Indignado Fernando,
compreendo perfeitamente a tua revolta e calculo que não seja mesmo nada fácil lidar com essas situações que relatas. Calmo como és, não consigo imaginar como seria eu a lidar com esse modo de estar na vida que perdura aí. Pode não ser admissível, nem sequer compreensível. Só que desaparece quando nos surge um cenário como o que atira para as trevas um dos países que apresenta dos melhores indicadores de nível de vida em todo o Mundo. Já percebeste que venho falar-te da Áustria e do que me perturba saber que um país assim, que funciona, bem organizado, apontado como exemplo dos avanços da civilização, origine monstros como este agora descoberto que manteve a própria filha fechada numa cave 24 anos, a violou e teve dela sete filhos. Se tudo fosse comparável, descer as escadas de vela acesa porque os vizinhos ignoram o que é viver num prédio e se acham espertalhaços em não pagar o condomínio seria uma festa de arromba.
Paciente Fernando,
neste fim de semana prolongado não me fui plantar em nenhuma sala de cinema. Quiseram as contingências que viajasse, atravessasse o Baixo Alentejo do litoral para o interior, o que, tenho que te confessar, daria um grande filme. Uma espécie de “Através das oliveiras” à portuguesa. Qual câmara fixa no carro e o génio do iraniano Abbas Kiarostami teria produzido um conjunto de belas imagens com um fio condutor assegurado pela estrada que iria deliciar gente como tu, que gosta de ver compor uma boa história no écrã, com pinceladas, tornando especiais momentos aparentemente banais.
Festival São Caetano à Lapa
0 comentários Publicado por António Martins Neves 26 Abril 2008 em Portugal.
Festivaleiro Fernando,
por aqui não temos o Festival da Gamboa, mas também há festa: começou o desfile de atracções e música muito variada que nos proporciona o maior partido da oposição, o PSD, com a convocação de eleições para um novo líder. O cartaz promete uma exibição que vai misturar vários géneros musicais, numa grande maratona com arremedos de luta livre que vai encher páginas e páginas de jornais e ocupar horas de telejornais como jamais algum festival com esse verdadeiro nome consegui almejar.
Amigo e camarada Fernando,
hoje venho escrever-te com um sentimento com que nunca o fiz: uma profunda tristeza. Morreu o Rui Moreira e ainda estou para acreditar. Nem espreitei para o caixão. Assim vou iludir-me mais tempo, eu sei, mas às vezes é mesmo preferível viver na mentira. Revoltam-me as injustiças e, se calhar, este mau estar que sinto deve-se também a isso, à convicção de que ele não merecia ser arrastado da vida, aos 46 anos. Para quem gostava tanto de viver, só pode ter sido assim que foi levado do meio de nós, dos que vão achar muita falta dele, mesmo quando se conformarem com a ideia.
A Espanha aqui tão perto
0 comentários Publicado por António Martins Neves 21 Abril 2008 em Portugal.
Paciente Fernando,
consegui, consegui! Volto a falar-te de política, mas desta vez por um bom motivo. É certo que não aconteceu em Portugal, foi aqui ao lado, em Espanha, mas ter ocorrido revela por si só um avanço que vai ficar registado nos manuais de história da política. O primeiro-ministro socialista espanhol, Rodríguez Zapatero, que perdeu a maioria absoluta nas últimas eleições legislativas, empossou uma mulher, grávida de sete meses, no cargo de ministro da Defesa. Mando-te a foto para veres Carmen Chacon, uma catalã de 37 anos, a passar revista às tropas em parada.
Lúcido Fernando,
visto da Madeira, pelo olhar do homem que domina a região há 30 anos, o mundo está louco. Escaparão os seus comparsas políticos do arquipélago, mas mais ninguém está livre de ser acusado de défice de juízo. Confesso que temo pela clarividência de alguém que vejo a acusar todos os outros de algo de que ele surge assim quase como o único “libertado”.
O grau zero da política
0 comentários Publicado por António Martins Neves 17 Abril 2008 em Portugal.
Distante Fernando,
sei que é um momento de muito pouca dignidade, mas é o que mais abunda e não se pode ignorar essa desalentosa realidade. Venho dar-te a conhecer a história do partido que quis enxovalhar uma jornalista por ela ter uma suposta relação amorosa com o primeiro-ministro. É tão só e apenas o maior partido da oposição, que já governou muitos e longos anos, e agora destacou três dos seus dirigentes para desferirem o ataque.


