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	<title>Atlântico expresso &#187; Moçambique</title>
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	<description>Um mar de palavras e memórias</description>
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		<title>Uma vida pesada</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Feb 2011 14:05:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo Franque Cossa é um jovem de 20 anos, reservado e honesto. Anda aqui pelas ruas de Maputo, todos os dias, com uma balança de cozinha debaixo do braço. E não é maluco mas sim um “empresário por conta própria”, a cobrar dois meticais a cada pessoa que pesa. Num país com níveis de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Franque Cossa é um jovem de 20 anos, reservado e honesto. Anda aqui pelas ruas de Maputo, todos os dias, com uma balança de cozinha debaixo do braço. E não é maluco mas sim um “empresário por conta própria”, a cobrar dois meticais a cada pessoa que pesa. Num país com níveis de desemprego que nem imaginas, Franque é imaginativo, desenrascado, e “pesador”!<br />
<span id="more-1179"></span>Para teres uma ideia de como é a realidade moçambicana fixa estes números: há uma população de quase 22 milhões de almas. Se descontarmos os muitos novos e os muito velhos resta-nos algo como 14 milhões de pessoas prontinhas para trabalhar. Desses 14 milhões 470 mil têm aquilo a que chamamos emprego formal. Cerca de 120 mil são funcionários públicos e os outros 350 mil trabalham em empresas do setor privado. Contas feitas, há mais ou menos 13,5 milhões de pessoas sem um emprego.<br />
A maior parte vive no campo, tem pequenas hortas e come do que a terra dá, incluindo até uns grandes ratos que abundam por aqui. O problema é os outros, os que vivem nas grandes cidades ou nas suas periferias, como em Maputo, onde se concentram os empregos formais mas também se concentram grandes massas de jovens desempregados.<br />
Lembras-te de setembro? Os protestos que mataram quase duas dezenas de pessoas foram em grande parte feitos por essa gente, sem estudos, sem emprego e sem perspetivas. São eles quem todos os dias têm de procurar sobreviver, seja arranjando um emprego, comprando ou vendendo alguma coisa, enganando e roubando se for preciso. É a luta diária por uma vida. Só isso. Por toda a Maputo vês, e cada vez vês mais, gente a pedir. Estaciones onde estaciones está sempre alguém que diz que te cuida do carro a troco de umas moedas. Há gente a vender pequenos molhos de alhos ou cebolas, flores nos cruzamentos, artesanato em cada rua, sapatos usados ou novos, maços de tabaco e fichas elétricas. Há gente com pequenas bancas e sem bancas, que se deita no chão ao lado de uns pacotes de bolachas e de umas papaias e fica ali o dia todo, muito do tempo a dormitar. Negociar, comprar aqui para vender ali, porque todos os dias é preciso sobreviver. Só isso.<br />
O Franque Cossa levou a imaginação mais longe e vive de pesar os moçambicanos há já quatro anos. “Acordo às 06:00, tomo banho, pego o chapa (transporte público), venho para aqui fazer negócio, às 13:00 volto para casa para almoçar e volto às 14:00 e às 16:00 já vou dormir”. “Aqui” é a baixa de Maputo, onde só não vai se estiver a chover muito. Cobra dois meticais a cada pessoa que pesa e até tem clientes fixos, famílias inteiras.<br />
Franque admite que não será um trabalho dos mais bem pagos, mas também não tem grande concorrência. E ao fim de cada dia consegue 100, as vezes 150 meticais, qualquer coisa como três euros. Dá para comer e para ir de vez em quando a Xai-Xai, a uns 200 quilómetros de Maputo e onde vive a família.<br />
E depois é um trabalho honesto, que só precisou de um investimento mínimo inicial, e que nem precisa de upgrades nem publicidade. “As pessoas quando veem a balança sabem, as pessoas é que vêm ter comigo”.<br />
E no meio de tudo ainda tem dias de sorte. A maioria dos clientes são mulheres, que às vezes gostam tanto do que veem na balança de casa de banho que ficam generosas. Como a mulher que pesava 97 quilos e que em menos de um mês conseguiu perder dois quilos. Ficou tão feliz que deu 50 meticais ao dono da balança.<br />
Visto daí pode parecer pouca coisa. Mas em Moçambique 50 meticais fazem a diferença entre comer e não comer durante vários dias.<br />
Franque não gosta especialmente de andar por ali com uma balança a tiracolo e sonha com um trabalho no mercado formal, com ordenado fixo ao fim do mês, descontos e férias. No fundo no fundo aquilo que quase 14 milhões de moçambicanos também querem.<br />
Mas pelo menos Franque tem o que comer todos os dias. Como empresário por conta própria até se pode dar ao luxo de ficar em casa se chover. E nunca se sabe se na esquina seguinte não estará uma mulher que perdeu três quilos em quatro semanas.</p>
<p>Um abraço</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Novembro, mês de Carlos Cardoso</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Nov 2010 17:41:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo Faz hoje 10 anos mataram aqui em Maputo um jornalista que andava a investigar o maior escândalo financeiro de que o país tem memória: 14 milhões de euros desviados de um Banco. Carlos Cardoso morreu em Novembro, como em Novembro morreram dois dos que poderão ter estado implicados na sua morte. Dez anos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo<br />
Faz hoje 10 anos mataram aqui em Maputo um jornalista que andava a investigar o maior escândalo financeiro de que o país tem memória: 14 milhões de euros desviados de um Banco. Carlos Cardoso morreu em Novembro, como em Novembro morreram dois dos que poderão ter estado implicados na sua morte.<br />
<span id="more-1160"></span>Dez anos depois, data redondinha, muito se fala hoje, por aqui, de Carlos Cardoso. Inaugurou-se um memorial, fizeram-se sessões para o lembrar, amanhã uma televisão passa um debate sobre ele. Exalta-se o homem, o jornalista, a sua persistência em expor os podres do regime, em investigar o que mais ninguém tinha coragem. E os que o mataram, sem querer, fizeram dele um herói.<br />
Foi mais ou menos por esta hora que te escrevo, há 10 anos atrás. Saía do jornal e era alvejado a tiro, dentro do carro de um amigo. Na altura farejava coisa grossa no caso do desvio do dinheiro e era daqueles que quando agarra não larga. Já tinha até falado nas notícias que escrevia sobre o escândalo de dois dos mais influentes homens de negócios de Moçambique da altura, Vicente Ramaya e Momade Abdul Satar, conhecido por Nini Satar.<br />
Foi precisamente este último que, no julgamento do homicídio de Carlos Cardoso, acusou um filho do antigo Presidente de Moçambique Joaquim Chissano, Nympine Chissano, de estar envolvido no caso. Nympine Chissano nunca chegou a ser ouvido em Tribunal. Morreu em Novembro de 2007, de doença.<br />
Cândida Cossa, empresária moçambicana também acusada de envolvimento, foi outra que nunca chegou a ser ouvida. Morreu este mês, Novembro, de doença. Passaram-se 10 anos depois da morte de Carlos Cardoso! Dez!<br />
Seis pessoas foram acusadas e condenadas pelo envolvimento na morte de Carlos Cardoso. Uma delas, Aníbal dos Santos Júnior, carinhosamente conhecido por Anibalzinho (de nacionalidade portuguesa), acusado de chefe da quadrilha, se calhar o que apertou o gatilho.<br />
Anibalzinho nunca foi ouvido em Tribunal porque quando do julgamento andava fugido. Está farto de fugir da cadeia, mesmo daquela considerada de alta segurança. Nini Satar disse que foi o filho de Joaquim Chissano o responsável pela primeira fuga de Anibalzinho, para que este não fosse ouvido no julgamento. O homem ainda no ano passado voltou a fugir, embora o Nympine já cá não esteja há três anos.<br />
Tenho para mim que Anibalzinho vai ter muito cuidado quando chegar o mês de Novembro de cada ano. E se calhar ainda mais alguma gente que anda por aí, nas ruas de Maputo. Dez anos depois da morte do jornalista que, em 1985, tinha escrito um poema que acabava assim: À noite quando me deito, em Maputo, não preciso de rezar, Já sou herói”.<br />
Não sabia o quanto herói haveria de ser, o Carlos Cardoso.</p>
<p>Como tu me dirias, um honesto e transparente abraço</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Tá mal patrão, tá muito mal!</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Oct 2010 18:19:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo Na Avenida Julius Nyerere, um das principais de Maputo, juntam-se ao fim do dia vendedores de flores na esquina do Polana. Muitos, espreitando cada carro, fintando os que arrancam no semáforo, numa urgência de aproveitar a hora de ponta para ganhar algum dinheiro. Pelo meio há os mais pequenos a pedir uma moeda [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Na Avenida Julius Nyerere, um das principais de Maputo, juntam-se ao fim do dia vendedores de flores na esquina do Polana. Muitos, espreitando cada carro, fintando os que arrancam no semáforo, numa urgência de aproveitar a hora de ponta para ganhar algum dinheiro. Pelo meio há os mais pequenos a pedir uma moeda “para pão”, uma mulher cega rua adiante, duas ou três idosas na esquina do restaurante Mundos. É assim avenida fora. Mais ao fundo está por vezes a polícia, basicamente a fazer o mesmo: manda parar os carros e pede “um refresquinho”, e a uma centena de metros mais alguém a vender cartões de recarga de telemóvel, por esta altura também morangos ou laranjas. E mais umas crianças a pedir uma moeda porque “tá mal patrão, tá muito mal”. Está pois!<br />
<span id="more-1138"></span>No princípio de Setembro, quando o povo veio para a rua mostrar que já não tinha paciência, até os pobres desapareceram. Quando Maputo ficou cercada de pneus a arder o centro da capital ficou também deserto. E três dias depois, quando vi na zona do Polana jovens a vender fichas eléctricas e cartões de telemóvel percebi que a normalidade ia regressar. Mas, caro amigo, um dia destes o povo perde de novo a paciência.<br />
E perguntarás tu, que povo é esse tão apoquentado? E eu digo-te: É um povo que vê nas notícias que Moçambique é um país de sucesso, que a comunidade internacional elogia, que tem um crescimento económico invejável, onde todos os dias se descobrem filões de carvão, de ouro, prata e gás natural. E esse povo, mais de metade desempregado, ganha se tiver sorte 2500 meticais, menos do que custa uma garrafa de vinho num restaurante onde ele vende flores, ao fim do dia, na Julius Nyerere. E o povo, naturalmente, pergunta de que país estão eles a falar nas notícias, que milhões de euros são aqueles que todos os dias entram no país, para construir estradas, escolas e hospitais e para combater a pobreza. Porque no país dessa gente apoquentada as estradas ou não existem ou estão esburacadas, não há emprego, anunciam-se aumentos de gasolina, água, de luz e de pão, e há quem acorde todos os dias sem ter sequer açúcar para o chá, sendo que esse açúcar seria o que manteria de pé todo o dia, o único alimento para lhe dar energia.<br />
Este governo, como o de Portugal e provavelmente como de muitos outros países, incorre num erro básico, acha que o povo é estúpido. E, naturalmente, engana-se. Se assim não fosse saberia que há coisas com as quais não pode mexer, como no aumento dos preços do pão ou do açúcar.<br />
Porque esse povo até se pode fazer de parvo quando lhe dizem que a economia do país cresceu 7,2 por cento nos primeiros seis meses, quando lhe dizem que os combustíveis vão aumentar três vezes seguidas, porque afinal são os ricos que andam de carro, quando lhe dizem que a China vai investir não sei quantos milhões, a Índia também, Portugal também, o Brasil, a África do Sul, a Suécia, a Alemanha, a Noruega, a França, os Estados Unidos…na saúde, em fábricas, em empresas, na energia, na agricultura…<br />
Sim sim, pensa o povo, de ouvidos já habituados a tantos milhões que chegam todos os dias. Sim sim, e de onde vem a batata, a cebola, a couve, o feijão, a laranja e a cenoura? Da África do Sul, porque em Moçambique dos 39 milhões de hectares de terra arável apenas são utilizados, e mal, cinco por cento.<br />
E depois de ir ao supermercado (os que podem, porque a esmagadora maioria só lá entra se for para ir trabalhar) o povo chega a casa e se tem televisão ouve o porta-voz do governo, Alberto Nkutumula, dizer que no primeiro semestre o PIB de Moçambique atingiu 9,5 por cento, esquecendo-se de explicar que esse PIB cresce pelo investimento directo estrangeiro. Mas o povo sabe que tanto faz os números que são debitados porque a ele não lhe chega nada. Sabe que aquela conversa de plano estratégico, de projecto transversal, de política sectorial é só conversa, e quer é coisas objectivas, quer empregos e uma vida digna e sem passar fome.<br />
E sabe também que só queimando uns pneus e partindo uns vidros é que o governo o escuta, mesmo que para isso tenham de morrer quase 20 pessoas e tenham de ficar feridas quase 500. E depois disso que faz o governo? Congela os aumentos. O povo volta a recolher-se e o governo respira de alívio. Hoje, quase dois meses depois provavelmente já nem se lembra. À Julius Nyerere voltaram os vendedores de flores e as crianças a pedir, coladas à janela de cada carro. Nos restaurantes da rua janta-se por mil meticais (20 euros) e nos bairros da periferia, à noitinha, demasiada gente vai dormir sem comida e sem futuro, pouco ligando às notícias do PIB, do petróleo na bacia do Rovuma, dos milhões e dos projectos sectoriais. Gente que não é burra e a quem de vez em quando falta a paciência. “Tá mal patrão, tá muito mal!”.</p>
<p>Um abraço<br />
Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Se calhar vou matar uma vaca</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Jul 2010 08:26:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo Não tem sido fácil a minha vida, por aqui, neste último mês. Inundações, avarias, e depois mais inundações e avarias. A minha casa a meter água porque sim, dois computadores doidos porque sim, o carro e a máquina de filmar. Agora, para terminar em beleza, roubaram-nos mais um computador à hora de almoço. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Não tem sido fácil a minha vida, por aqui, neste último mês. Inundações, avarias, e depois mais inundações e avarias. A minha casa a meter água porque sim, dois computadores doidos porque sim, o carro e a máquina de filmar. Agora, para terminar em beleza, roubaram-nos mais um computador à hora de almoço. Levaram-no debaixo do braço, debaixo dos nossos narizes. Se calhar vou ter de matar uma vaca.<br />
<span id="more-1123"></span>E que culpa é que a vaca tem?, perguntarás tu. Pois… nenhuma. Mas com tanto azar acho que uma galinha ou uma cabra já não chega.<br />
Foi o que aconteceu aqui em Maputo há pouco tempo na Escola Secundária Quisse Mavota, Bairro do Zimpeto. Já não chegava assim um animalzinho pequeno e mataram-se umas cabras e umas vacas.<br />
Na escola, de um dia para o outro, começaram a desmaiar alunas sem mais nem menos. Correm as aulas normalmente e de repente cai uma aluna. Gera-se burburinho, chega-se o professor, e do outro lado da sala desmaia outra. E é assim na escola toda, desmaiam alunas sem explicação, duas, cinco, dez de cada vez.<br />
Durante semanas os desmaios em série ocorreram na Quisse Mavota. Sempre alunas e quase sempre à tardinha. Chega-se o Ministério da Saúde, fala-se de envenenamento, de comida estragada, de alguma coisa na estrutura da escola, mas nada. A melhor conclusão parece ser a de histeria colectiva mas a comunidade não acredita, diz que o melhor é fechar a escola porque o edifício está assombrado. É preciso sossegar os espíritos.<br />
A escola foi construída onde antes existiu um cemitério familiar. As campas foram removidas mas o que correu no Zimpeto é que faltaram alguns rituais e que os espíritos andavam revoltados, voando pelas salas, sufocando as miúdas e fazendo com que desmaiassem.<br />
Era preciso fazer uma cerimónia que acalmasse os espíritos, oferecer-lhes uns animais em sacrifício. O governo, os Ministério da Saúde e da Educação, lá tentaram fugir a isso, mandando técnicos e mais técnicos ao mesmo tempo que enxotavam os jornalistas do local. E estes, teimosos, lá continuavam a rondar a Quisse Mavota, entrevistando as raparigas, mostrando outras em transe a esgaravatar o chão debaixo das árvores.<br />
Até que uma belo dia, pela manhã, com o apoio da autarquia, entraram os líderes tradicionais, os curandeiros, as vacas e as cabras. Fechou-se a escola, meteram-se os jornalistas ao fresco. Não sei o que se passou lá dentro mas os animais saíram em pedaços e na escola nunca mais se ouviu falar de desmaios à tardinha.<br />
Também não sei que espírito terei eu provocado. Mas num mês tive duas inundações com os tanques de água de casa, avariou-se a televisão, o carro e dois computadores, depois a máquina de filmar, depois roubaram-nos mais um computador e agora tenho água a pingar no tecto da casa de banho porque se avariou a bomba de água.<br />
Todas as avarias têm uma explicação, é claro. Mas tantas e ao mesmo tempo? E se eu comprasse uma vaca? É que, qualquer dia, sem aviso prévio, a casa ainda me cai cientificamente encima.</p>
<p>Um abraço<br />
Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Macabra</title>
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		<pubDate>Mon, 03 May 2010 11:40:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo Falei-te na última carta de vidas tristes e bairros igualmente tristes aqui de Maputo e venho hoje dar-te conta de mais algumas tristezas. A tristeza de dois rapazes, presos há dois meses, a tristeza de uma cabra violada, e a tristeza dos seus donos, que não sabem o que fazer com uma cabra [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Falei-te na última carta de vidas tristes e bairros igualmente tristes aqui de Maputo e venho hoje dar-te conta de mais algumas tristezas. A tristeza de dois rapazes, presos há dois meses, a tristeza de uma cabra violada, e a tristeza dos seus donos, que não sabem o que fazer com uma cabra violada.<br />
<span id="more-1109"></span>Aqui há uns tempos, na localidade de Matsinho, distrito de Gôndola, província de Manica, estava uma cabrinha a pastar alegremente quando se acercaram dois rapazes. Estranhos. E que fizeram eles, caro amigo? Pois levaram a cabrinha para um sítio ermo e violaram a pobre.<br />
Não sabemos quanto tempo estiveram nisto, só se sabe que às tantas, a esse sítio, por acaso, passou a polícia. É bom de ver, os jovens foram apanhados com a boca na botija. Ou melhor, a cabra foi apanhada com a boca na botija. Salvo seja. A polícia contou que um dos jovens estava nu enquanto segurava a cabeça da cabra e o outro, presumivelmente nu também, violava selvaticamente o animal. A polícia não explicou se a cabra tinha sido obrigada também a fazer sexo oral mas eu tenho as minhas dúvidas. Agora o resto… vê o que contou uma testemunha, Mário Creva, de Matsinho, que presenciou a detenção dos moços: “no preciso momento em que fui ver, a cabra apresentava corrimentos, o sexo estava inchado”.<br />
Ao saber disto, naturalmente, os donos da cabra ficaram revoltados. Não costumam dizer os brasileiros que “ajoelhou? Tem de rezar!”? Pois se os meninos violaram a cabrinha agora têm de casar com ela. E que preparem já o lobolo para dar à família da bicha. O lobolo é uma cerimónia tradicional que reconhece a união marital e segundo a qual o homem compensa a família da mulher. Não há nada nessa tradição que fale em casamentos entre homens e cabras. Mas também não há nada que diga que dois jovens não podem casar com uma cabra. Pelo menos é a isso que se agarram os donos da cabra.<br />
Eu acho que na verdade eles pouco se importam se há ou não casório. Eles querem é dinheiro. Para compensar os traumas da cabrinha, que ainda hoje deve tremer só de se lembrar e se calhar já nem berra. Se agora grasnasse, ou palrasse, não me admirava.<br />
“O que faremos com uma cabra violada sexualmente se criamos os animais para venda e consumo?”, questionou uma das pessoas da família. Entende-se. Quem vai querer agora comprar uma cabra violada sexualmente? Credo!!!! E quem vai querer comer uma cabra violada sexualmente? Tu comias uma cabra que já foi violada sexualmente por dois jovens?<br />
Confesso que não sei como está a passar o animal (aqui em Moçambique ainda não chegaram os psicólogos para animais) mas os dois meliantes estão na cadeia. O Tribunal de Gôndola condenou-os a seis meses de prisão mas por “furto qualificado” e não por prática de relações sexuais sem consentimento. (A cabra até pode ter consentido mas isso nunca iremos saber).<br />
Lino Guido, o juiz encarregue do caso, disse: “O tribunal concluiu que os dois jovens praticaram furto da cabra, que é tipificado como crime no Código Penal” mas embora o acto sexual fira “a moral e os costumes tradicionais da população local” o mesmo “não se ajusta à legislação moçambicana”.<br />
Par a justiça o caso está encerrado. Mas os donos do animal não se conformam e querem recorrer ao poder tradicional para exigir uma indemnização e o casamento, como forma de ressarcir os danos morais causados à cabra.<br />
“Os régulos (líder com muito poder local) farão a sua análise para responsabilizar que os jovens casem com o animal”, disse um dos donos da cabra.<br />
Para já a cabra voltou para o curral e os jovens cumprem a pena judicial. Não sei mais nada deste pungente caso. E tudo pode acontecer. Os jovens estarão com saudades da cabra? A cabra está mesmo traumatizada ou também terá saudades dos jovens? Eles terão mesmo de casar? Ninguém mais vai querer comer a cabra?<br />
E se os jovens alegarem que a cabra os provocou? Podem exigir uma indemnização? Faz-me lembrar a história do alentejano que foi a tribunal por ter violado uma galinha, e que perante o juiz disse: “senhor doutor, eu estava calmamente sentado a apanhar sol, ela passou uma vez e abanou o rabo, passou outra e abanou o rabo, um homem não é de ferro!”.<br />
Não sei, caro amigo, mas diria que é uma situação macabra.</p>
<p>Um abraço</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Vidas tristes</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Mar 2010 21:05:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo Tenho andado um pouco arredio, não que me tenha esquecido de te escrever mas porque o trabalho tem sido muito e ando há uns dias com uma dorzinha chata de estômago, que me tira a paciência para tudo. Nada comparado com as vidas de pessoas que conheço aqui, que recebem antiretrovirais de graça [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Tenho andado um pouco arredio, não que me tenha esquecido de te escrever mas porque o trabalho tem sido muito e ando há uns dias com uma dorzinha chata de estômago, que me tira a paciência para tudo. Nada comparado com as vidas de pessoas que conheço aqui, que recebem antiretrovirais de graça mas que não têm sequer um bocadinho de arroz para comer. São, caro amigo, as lutas diárias nos bairros de Maputo, onde não é fácil viver, tampouco sobreviver.<br />
<span id="more-1081"></span>Dou-te só o exemplo de três bairros de Maputo, rodeados de estradas que fazem a ligação para o norte, a passar carros dia e noite com pessoas que nem sonham que ali ao lado há outras pessoas que acordam de manhã sem a mínima ideia onde vão encontrar um pouco de comida. E sabem que têm um comprimido para tomar que lhes vai “rebentar” o corpo em jejum, debilitado pela Sida, pela vida madrasta de tantos anos. Às vezes, tristemente, de tão poucos anos.<br />
Malhazine, Jorge Dimitrov e Zimpeto são os três bairros de que te falo. Dos que mais altas taxas de incidência de HIV têm, porque ficam paredes meias com quartéis militares. De tempos a tempos chegam novas fornadas de jovens, das províncias, e quando assentam praça querem festa. E procuram-na nas moças dos bairros à volta, nas ruas, nas chamadas “casas de pasto”, que já imaginas o que é.<br />
“Cada período aparecem novos militares e cada um quando chega tem de ter o seu parceiro”, contou-me José Júlio, da Associação Yinguisseta, que pouco mais pode fazer do que dar apoio moral e fazer encaminhamento dos doentes<br />
A Rosalina Langa, de 28 anos e um filho para criar. Por exemplo. Ar doente, magra, pois claro. Rosalina faz parte de uma grande família de irmãos, todos desempregados. Não tem pai e a mãe consegue por vezes algum dinheiro a lavar roupa. E tem dois comprimidos para tomar todos os dias, nem que para isso tenha de ir de casa em casa, pedir um pouco de comida. Uma chávena de arroz.<br />
“Às vezes acordo de manhã e não tenho açúcar nem nada para tomar chá, mas às 08:00 sou obrigada a tomar medicamento. E não posso parar de tomar porque na hora que parar vou provocar muitas coisas”. Lúcia Carlos Novela tem 24 anos, o corpo deformado pelo Sarcoma de Kaposi e uma visão lúcida da vida, embora pouco mais lhe reste. É otimista esta mulher, cheia de força, bonita.<br />
Mas nem todos têm esta força, caro amigo. A Márcia, por exemplo, é uma das milhares de pessoas de Moçambique que deixaram o tratamento. “Fazia (o tratamento) mas já parei, já não estou a cumprir. Quando eu me levantava tinha de tomar e eu não tenho comida. Costumava cair, ter tonturas, perder as forças, ter diarreias e dores de estômago por causa dos comprimidos, por isso parei”. Palavras da Márcia. Eu acho que a entendo.<br />
Ter um filho de dois anos, ser órfã e acordar de manhã sem fazer ideia onde arranjar alguma coisa para comer. Ter esperança que alguém lhe dê algum dinheiro a troco de carregar água, para comprar pão e tomate, a sua dieta, quando pode. É carga demasiado para a Márcia.<br />
Vidas difíceis caro amigo. A Rosalina, a Lúcia, a Márcia… Mas também a Adelina, 23 anos, órfã, dependente de uma tia vendedora de amendoim pelas ruas de Maputo, a Felismina, 45 anos, viúva, cinco filhos e sem trabalho, a Rosita, viúva, três filhos pequenos e sem forças para sair de casa sequer, a Felismina Enoque, viúva, quatro filhos e dois netos, uma palhota por casa, sem água, sem luz, sem trabalho, sem comida e sem forças.<br />
Não são nomes inventados caro amigo. São realidades do Zimpeto, de Malhazine, de Jorge Dimitrov e de muitos outros bairros de Maputo, onde cerca de 30 por cento das pessoas estão infetadas, num país com 70 por cento de desempregados. Dos mais pobres do mundo.<br />
São vidas tão tristes. E tão invisíveis. E tão esquecidas.<br />
E tão reais! Gostava de te poder dizer agora que eram invenções minhas. Mas elas existem, aqui à volta das boas casas de Maputo. Até quando eu não sei.<br />
Amanhã vou ao médico.<br />
Um abraço</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>A sobrinha do Eugénio e o casamento de Lizha James</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Mar 2010 16:35:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo O Eugénio trabalha comigo. Ontem, disse-me, estava um pouco triste: tinha recebido um telefonema durante a tarde, uma sobrinha tinha morrido. “De cobra”. O curandeiro disse que ela morreu porque mataram a cobra depois de ela ter atacado a sobrinha, explicou ele. Não me disse quantos filhas tinha, só me disse “vai para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>O Eugénio trabalha comigo. Ontem, disse-me, estava um pouco triste: tinha recebido um telefonema durante a tarde, uma sobrinha tinha morrido. “De cobra”. O curandeiro disse que ela morreu porque mataram a cobra depois de ela ter atacado a sobrinha, explicou ele. Não me disse quantos filhas tinha, só me disse “vai para lá uma carrada de órfãos”.<br />
<span id="more-1057"></span>Lizha James e Bang casaram na semana passada, aqui em Maputo. Não houve ninguém que não soubesse porque a televisão fez tantos directos à volta do casamento que era impossível. Caso não saibas Lizha James é das cantoras mais conhecidas aqui de Moçambique. Chama-se na verdade Elisa James, nasceu em Dezembro de 1982 e ganha prémios praticamente todos os anos, o último no ano passado, quando foi considerada a melhor artista da África Austral no Channel O (da África do Sul), com a música “Xitilo xa Khale”.<br />
O Eugénio ainda ficou de lágrimas nos olhos quando me contou o caso mas não chorou. Podia ter-lhe dado o dia de folga mas não adiantava porque a sobrinha morava na Zambézia. Longe demais de Maputo, especialmente para quem não tem um carro e tem de viajar nos “chapas” e nas estradas deste país.<br />
A Lizha começou a cantar aos sete anos na Igreja Metodista Unida de Moçambique e aos 12 fazia parte do grupo coral da igreja. Dois anos depois, e até aos 17, integrou um grupo na altura aqui muito conhecido, Electro Base. Há 10 anos lançou o seu primeiro álbum a solo, Watching You. E desde então nunca mais parou. É bonita a Lizha.<br />
O Eugénio está preocupado agora com tanto órfão na família. Aqui há tempos morreram outras sobrinhas, deixando mais um número demasiado elevado de filhos. Morreram de diarreia. Disse-me. Se morrer mordido por uma cobra é tão irreal nos dias de hoje, morrer de diarreia também. Talvez fosse cólera. Mas ainda assim. São mortes tão inúteis, tão inglórias, tão absurdas. Não há mortes úteis e gloriosas, deves estar tu a pensar. E tens razão. Mas penso que me entendes. Eram evitáveis, facilmente evitáveis. Pronto.<br />
Em 2005 a Lizha James lançou o seu segundo álbum, Rainha do Ragga, e ganhou também o seu primeiro prémio, pouco representativo é certo mas um prémio. Pelo caminho fez publicidade, gravou vídeos, deu a voz para grandes empresas (ainda recentemente para um banco, um contrato por certo mais do que milionário). No ano passado apareceu com outro álbum, Sentimentos de Mulher, e este ano casou com o Bang, o seu empresário e namorado de longa data.<br />
Apesar dos avisos, dos alertas para que as pessoas tenham cuidado, a doença das mãos sujas, a cólera, continua a matar gente por aqui. E tendo em conta a dimensão do país e as dificuldades de comunicação nunca saberemos ao certo quantas são as vítimas em cada ano. Por estes dias o que chama mais a atenção são as outras mortes, paralelas à cólera, as mortes de pessoas que lutam contra a doença, às mãos daqueles que inevitavelmente a vão contrair, porque matam quem os tenta proteger.<br />
Na semana passada, aqui em Maputo, um dos canais privados de televisão, a STV, decidiu fazer uma coisa nova e transmitiu em exclusivo o casamento da Lizha e do Bang. Reportagens diárias com os preparativos da boda e muitos diretos no dia da festa. Da saída dos noivos de casa, da viagem até à Igreja Metodista Unida, onde foi a cerimónia religiosa, da viagem até ao Indy Village, o hotel do banquete. Tudo de branco vestido.<br />
Por azar, cólera e cloro são palavras parecidas. Essa semelhança esteve na origem, no ano passado, de ataques a voluntários da Cruz Vermelha que andavam a colocar cloro nas águas. E este ano, estes dias, a coisa refinou. A população foi mais longe e começou a ataca centros de saúde. Até agora já vão em oito mortos. Porque as pessoas não estão informadas e porque cólera e cloro são palavras parecidas. A primeira continua também a sua escalada: 36 mortos este ano, 1968 casos.<br />
O casamento da Lizha e do Bang teve direito a um estúdio móvel, muitas câmaras, jornalistas pelas ruas, champanhe no estúdio, directos e cinco limusinas, grandes como convém e de várias cores. Cinco limusinas além de todo o outro desfile de carros topo de gama.<br />
Não são juízos de valor sobre o casamento do ano, como aqui foi chamado. É apenas o Moçambique a duas velocidades. O Moçambique de Maputo, onde é possível ter cinco limusinas num casamento transmitido em directo na televisão. E o resto do país, onde por vezes nem estradas há, nem um carro, ainda que velhinho, para levar alguém de urgência a um posto de saúde porque foi mordido por uma cobra.<br />
Isso se o posto de saúde não tiver sido destruído por aqueles que acreditam que alguém lhes anda a envenenar as águas salobras. Esses são os que não veem televisão. E por isso não veem as campanhas de sensibilização contra a cólera. Nem o casamento de Lizha James.</p>
<p>Um abraço</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Seja lá o que for é bom</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Feb 2010 18:09:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo Duas semanas em três cidades tipicamente europeias e aqui estou eu de novo em Maputo, a “minha África”, a minha casa. Não te vou falar da África do Sul, de como os campos são bonitos e bem tratados, das paisagens maravilhosas, dos parques, da vida selvagem. Nem sequer da simpatia do povo, que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Duas semanas em três cidades tipicamente europeias e aqui estou eu de novo em Maputo, a “minha África”, a minha casa. Não te vou falar da África do Sul, de como os campos são bonitos e bem tratados, das paisagens maravilhosas, dos parques, da vida selvagem. Nem sequer da simpatia do povo, que a tem, ou da insegurança de Joanesburgo, que também a tem. Fixo-me no João, engenheiro, trabalha em Pretória.<br />
<span id="more-1041"></span>O João, como deves depreender pelo nome, é português. Nasceu e cresceu aqui em Moçambique e depois do 25 de abril mudou-se, atrás dos pais, para a África do Sul, onde vive desde então.<br />
É engenheiro, está envolvido nas obras do Mundial de Futebol, pede desculpa por falar mal português e nem sequer frequenta os clubes e associações lusas. Está, digo sem me enganar nada, perfeitamente integrado na sociedade, é um cidadão sul-africano que fala e pensa em inglês e sabe um pouco de afrikaans. Já foi a Portugal algumas vezes porque tem lá família.<br />
E foi a propósito dessas viagens que o João, que pensa em inglês, me disse: “quando chego a Portugal sinto-me em casa, é como se regressasse a casa”. Fiquei a pensar nisto. Não nasceu lá, não viveu nunca lá, é casado com uma inglesa, tem filhos que falam inglês e construiu uma vida aqui ao lado. Seria lógico, se calhar, que se sentisse em casa também quando chega a Inglaterra.<br />
Lembrei-me do Fernando Pessoa, quando disse, escreveu, “Minha pátria é a língua portuguesa”. Mas o João nem sequer fala fluentemente o português, antes o inglês. Fiquei a pensar nisso.<br />
Será o sentimento do João o mesmo que o meu quando, duas semanas depois, cruzei a fronteira entre a Suazilândia e Moçambique? O sentimento de regressar a casa? É certo que estou por aqui temporariamente, que a minha verdadeira casa está a 10 mil quilómetros, mas não consigo evitar sentir-me feliz de voltar a Moçambique depois de ir à África do Sul, por muito que se viva bem, melhor, aqui ao lado.<br />
Nem consigo evitar que, acabado de chegar, entre no restaurante Cristal para comprar pão e sinta que aquele espaço é um bocadinho meu. Que Maputo me pareça mais bonita. Que a troca de palavras com os empregados me dê prazer. Que me sinta mais livre. Em casa, enfim.<br />
O prazer de viajar é também, sinto eu, o prazer de regressar. Rentabilizo assim um simples passeio de 15 dias, o antes, a antecipação do que vai ser, o durante, e o regresso. Algumas vezes me apeteceu ficar mais tempo nalguns lugares. Numa me apeteceu não regressar a casa.<br />
Mas persiste a minha dúvida em relação ao João, ao regressar a uma casa que nunca foi a dele.<br />
Ou se calhar sempre foi a dele.<br />
Deve estar aí o segredo. É que, se calhar, a nossa pátria não é só a língua portuguesa. Há mais alguma coisa por aí, por aqui, que me faz sentir que estou a regressar a casa quando volto à Praia vindo do Senegal, ou quando volto a Maputo vindo de Durban.<br />
E seja lá o que for, olha, é bom.</p>
<p>Um abraço<br />
Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Um grande país</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Jan 2010 21:37:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo É quase meia-noite em Pretória. Uma noite fresca e sem chuva, como foi o dia de hoje em Joanesburgo. Estou há quase uma semana pelas terras do Rand e escrevo-te em formato bilhete-postal, que a esta hora estou cansado e amanhã é mais um dia cheio de trabalho. E aproveito para te dizer [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>É quase meia-noite em Pretória. Uma noite fresca e sem chuva, como foi o dia de hoje em Joanesburgo. Estou há quase uma semana pelas terras do Rand e escrevo-te em formato bilhete-postal, que a esta hora estou cansado e amanhã é mais um dia cheio de trabalho.<br />
<span id="more-1039"></span>E aproveito para te dizer que aqui se come muito bem e este é um país muito bonito. Joanesburgo é também uma cidade que vale a pena. Cercada de arame farpado, é certo, com bairros impossíveis, é certo. Talvez também por isso valha a pena.<br />
São, é certo também, cidades que dormem cedo (em África é normal), mas na noite de Pretória não oiço tiros ou sirenes de polícia. E no dia de Joanesburgo não senti também que corresse perigo, embora ali chegasse com todas as notícias que nos surgem aí sobre a violência. Tenho perguntado e acho que é maior, muito maior, a percepção de violência do que a violência ela mesma.<br />
Vou dentro de alguns dias a Durban, depois te direi como é este país que vai acolher o Mundial de Futebol, já ali em Junho.<br />
Mas a África do Sul é, podes acreditar, diferente do resto de África. Há zonas aqui de Pretória que fazem lembrar Madrid. Talvez com mais árvores e mais espaços verdes, onde se joga, se fazem piqueniques ou simplesmente se rebola. Maputo, aqui ao lado, e tão diferente, tão parecido com o resto de África.<br />
Depois te direi. E espero que não tenha para te contar uma história de faca na liga. Ou pior ainda de AK47 na liga. Ainda assim este continuaria a ser um grande país.</p>
<p>Um abraço</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Uma ou duas semanas</title>
		<link>http://atlantico-expresso.net/mocambique/uma-ou-duas-semanas/2010/01?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=uma-ou-duas-semanas</link>
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		<pubDate>Sun, 17 Jan 2010 17:51:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo Imagino-te aí saturado de tanta água, como eu quando aí estive, mas ao escrever-te é o calor que me aflige mas também a falta dela. O Verão está ao rubro em Maputo e a cidade continua bonita, agora já de acácias vermelhas e amarelas, às vezes colorindo só os passeios, outras as bancas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Imagino-te aí saturado de tanta água, como eu quando aí estive, mas ao escrever-te é o calor que me aflige mas também a falta dela. O Verão está ao rubro em Maputo e a cidade continua bonita, agora já de acácias vermelhas e amarelas, às vezes colorindo só os passeios, outras as bancas de vendedores ou quem dorme à sua sombra, coisa normal nas ruas desta cidade. E no entanto tenho já saudades de Lisboa.<br />
<span id="more-1037"></span>Como tinha, na verdade, de Maputo quando aí estive. Da confusão das ruas, com carros a virar para todos os lados ou a parar sem qualquer sinalização, os homens a carregar carrinhos cheios de fruta em plena via, a complicar ainda mais, os mais atrevidos a largar os automóveis mesmo no meio de uma rotunda.<br />
Ou então das pequenas bancas em cada esquina, aqui mesmo ao lado na 24 de Julho, onde se compram cenouras, e batatas, e tomates a 40 meticais o quilo, e ovos a 30, e cigarros a vulso. A calma das pessoas, que muitos chamam indolência mas que é só uma maneira diferente de gerir o tempo, porque por aqui tudo se passa muito mais devagar.<br />
Para quem vive aqui uns tempos e faz depois uma viagem de metro, no Inverno de Lisboa, entre Alvalade e Jardim Zoológico, mudando de linha duas vezes, que diferença na expressão das pessoas, nas cores e na falta de alegria, na pressa, nos olhares para os relógios. Aqui ainda se vive sem eles e também há os que os usam mas só para mostrar que têm, porque na verdade nem funcionam. Nem faz falta.<br />
E no entanto tenho saudades de Lisboa.<br />
Não sei se faz bem à saúde estar assim dividido mas acontece-me sempre que viajo e durante uma ou duas semanas. Querer estar lá quando estou cá, querer estar cá quando estou lá. Tenho saudades da ordem de Lisboa e tenho saudades da desordem de Maputo.<br />
No próximo ano devo de regressar definitivamente a casa. E quando isso acontecer não tenho dúvidas que vou ter muitas saudades da luz e do sol de Maputo, de ver de tudo à venda em cada esquina, dos jovens que me vendem cigarros na janela do carro, das mulheres de capulana sentadas à sombra das acácias a vender raminhos de salsa e coentros, às vezes no meio de muitas outras verduras e frutas, às vezes dormitando, cabeça encostada ao tronco da árvore.<br />
E dos sorrisos abertos das pessoas, que não viram as costas quando pergunto alguma coisa, que se riem muito alto quando tento por engano pagar com 10 meticais uma coisa que custa 50. Ou ao contrário. Acabado de chegar, no início desta semana, perguntava numa pastelaria: O café é 50 meticais? E o empregado, soltando uma sonora gargalhada, daquelas que se ouvem na sala toda: é metade!<br />
Enganei-me. Estava ainda a pensar em cêntimos. Mas estas coisas passam depressa. Como também passa depressa este querer estar cá e lá. Uma, duas semanas no máximo. Espero, caro amigo, do fundo do coração, que seja também assim quando um dia regressar definitivamente a casa. Que a nostalgia de Moçambique me passe em uma, duas semanas. Porque não sei se faz bem à saúde estar assim dividido.</p>
<p>Um abraço, com votos de bom ano</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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