Archive for the 'Cabo Verde' Category



Caro amigo

Às 13:45 de quarta-feira passada estava quase bêbado. Não que tivesse acabado de almoçar e bebido vinho ou cerveja. Pelo contrário. Sentado a uma mesa de uma casa com vista para o mar, na Cidade Velha, sem ter almoçado, acompanhava o meu anfitrião, 81 anos, num aperitivo, whisky, enquanto ele me falava da sua paixão por motas.

Brincalhões

Caro amigo

Tenho seguido o folclore que em Portugal é o aumento, quase diário, do preço dos combustíveis. Parece-me que subida mais rápida só mesmo a inflação no Zimbabué. Aqui, um país totalmente dependente do petróleo, tivemos um aumento há meses e depois a coisa estagnou, como se tivesse sido encontrado um poço ali no bairro de Terra Branca. Mas ontem veio o governo e pimba. Sete escudos de aumento em cada litro. Para tapar buracos.

foto de joao barbosaCaro amigo
Não foi a primeira vez que aconteceu e não será a última. É por isso que eu nunca entro num elevador sem ter a certeza de que ele lá está, porque às vezes não está. Sábado não estava, quando Carlos Alhinho, cabo-verdiano, antigo jogador de futebol, treinador e seleccionador, entrou.

Caro amigo

Em mais de um ano desta correspondência, não me lembro já se te falei da economia dos bidões, aqueles mesmos do crude mas cheios de roupa, bugigangas e alimentos, que chegam aqui em barcos, enviados pelos emigrantes, especialmente os que andam pelos Estados Unidos. Mas tenho a certeza que não te disse outra coisa que vem neles: armas. Muitas. E a funcionar.

Caro amigo

Não vou responder-te à letra mas quero só mandar umas bocas sobre o assunto e depois passar à frente, que sobre o tema conhecemos nós todos a cartilha. Eu acho que o racismo é só um lado, o mais visível, da xenofobia, mas também acho que não é coisa de portugueses e que toda a gente é um bocado xenófoba, alguns se calhar conseguem esconder mais, só isso.

Caro amigo

Exageraste tu na última carta. Falei-te dos coentros mas o que queria mesmo era dizer mal dos hotéis do Sal. E tu passas-te por isso como gato por salada e achaste que ando por aqui morto de saudades. Pois descansa que eu, nisso de saudades, sou pouco português. E aqui vende-se salsa, coentros, orégãos e tudo e tudo. Hoje podia falar-te de uma barata que me apareceu na cozinha ou da explosão racista na África do Sul.

foto de joao barbosaCaro amigo

Ando eu para aqui esquecido de Portugal e tu a teimares em me contar essas coisas depressivas, que me obrigam a ir de imediato dar três mergulhos ali na praia para ver se bebo uns pirolitos e apanho uma disenteria e me esqueço do que tu me escreves. Como se já não me bastassem os meus coentros que ando há meses a semear e não passam de nados mortos.

Caro amigo

Os dois rapazes que mataram as turistas italianas na ilha do Sal levaram com 25 anos de cadeia cada um. O que é que eles queriam, depois de terem feito aquela maldade às miúdas? O Felisberto perdeu a câmara da Praia. O que é que ele queria, se já desde domingo se sabia? Eu não te vou dizer mais nada hoje. O que é que tu queres, se não me apetece?

Um rápido abraço

Fernando Peixeiro

Caro amigo

Quando aqui cheguei estranhava a bela discussão que todos as segundas-feiras pela manhã estava armada à porta do sítio onde trabalho. Cheguei a pensar que, por ser segunda-feira, o pessoal estava irritado e dava-lhe para gritar uns com os outros. Depois percebi duas coisas, uma que aqui é como aí, quanto mais o assunto é entusiasmante mas se eleva a voz, e outra que o futebol do fim-de-semana é tratado na segunda de manhã.

Caro amigo

Tenho eu estado agora mais caladinho, mas vou já explicar-te porquê. Sabes que decorreram aqui eleições autárquicas, que por acaso foram ontem, mas tive nos últimos dias de ir para a ilha do Sal, porque estava lá o Benfica. Esse mesmo, daí, que este ano não ganhou nada e que a continuar assim ainda se torna um clube de bairro.




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