Archive for the 'Cabo Verde' Category
Caro amigo
Em mais de um ano desta correspondência, não me lembro já se te falei da economia dos bidões, aqueles mesmos do crude mas cheios de roupa, bugigangas e alimentos, que chegam aqui em barcos, enviados pelos emigrantes, especialmente os que andam pelos Estados Unidos. Mas tenho a certeza que não te disse outra coisa que vem neles: armas. Muitas. E a funcionar.
Caro amigo
Não vou responder-te à letra mas quero só mandar umas bocas sobre o assunto e depois passar à frente, que sobre o tema conhecemos nós todos a cartilha. Eu acho que o racismo é só um lado, o mais visível, da xenofobia, mas também acho que não é coisa de portugueses e que toda a gente é um bocado xenófoba, alguns se calhar conseguem esconder mais, só isso.
A África do Sul que perdeu o norte
0 comentários Publicado por Fernando Peixeiro 27 Maio 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Exageraste tu na última carta. Falei-te dos coentros mas o que queria mesmo era dizer mal dos hotéis do Sal. E tu passas-te por isso como gato por salada e achaste que ando por aqui morto de saudades. Pois descansa que eu, nisso de saudades, sou pouco português. E aqui vende-se salsa, coentros, orégãos e tudo e tudo. Hoje podia falar-te de uma barata que me apareceu na cozinha ou da explosão racista na África do Sul.
O que achas que se passa com os coentros?
0 comentários Publicado por Fernando Peixeiro 25 Maio 2008 em Cabo Verde.
Caro amigo
Ando eu para aqui esquecido de Portugal e tu a teimares em me contar essas coisas depressivas, que me obrigam a ir de imediato dar três mergulhos ali na praia para ver se bebo uns pirolitos e apanho uma disenteria e me esqueço do que tu me escreves. Como se já não me bastassem os meus coentros que ando há meses a semear e não passam de nados mortos.
Caro amigo
Os dois rapazes que mataram as turistas italianas na ilha do Sal levaram com 25 anos de cadeia cada um. O que é que eles queriam, depois de terem feito aquela maldade às miúdas? O Felisberto perdeu a câmara da Praia. O que é que ele queria, se já desde domingo se sabia? Eu não te vou dizer mais nada hoje. O que é que tu queres, se não me apetece?
Um rápido abraço
Fernando Peixeiro
Caro amigo
Quando aqui cheguei estranhava a bela discussão que todos as segundas-feiras pela manhã estava armada à porta do sítio onde trabalho. Cheguei a pensar que, por ser segunda-feira, o pessoal estava irritado e dava-lhe para gritar uns com os outros. Depois percebi duas coisas, uma que aqui é como aí, quanto mais o assunto é entusiasmante mas se eleva a voz, e outra que o futebol do fim-de-semana é tratado na segunda de manhã.
Caro amigo
Tenho eu estado agora mais caladinho, mas vou já explicar-te porquê. Sabes que decorreram aqui eleições autárquicas, que por acaso foram ontem, mas tive nos últimos dias de ir para a ilha do Sal, porque estava lá o Benfica. Esse mesmo, daí, que este ano não ganhou nada e que a continuar assim ainda se torna um clube de bairro.
Caro amigo
Não vejo qualquer mal que o primeiro-ministro português tenha fumado num voo fretado, acho que se está a fazer uma polémica à volta de coisa nenhuma e gostava até de saber quantos dos jornalistas que deram a notícia não fizeram o mesmo. Dirás tu que não foram eles que fizeram a lei. Pois não, e também não pagaram a viagem.
Caro amigo
Não é que esteja chateado, nem triste, nem sequer bêbado. Também não me vou levantar às quatro da manhã. É só uma questão de clima mesmo. Hoje estou cansado e vou direitinho dormir. Tive um dia movimentado, por aí à procura dos candidatos a autarca, que pode parecer estranho mas são difíceis de encontrar. São como os polícias. Quando queremos um não o encontramos, quando não precisamos tropeçamos neles.
Caro amigo
Visto que persistes nesse teu mutismo, a não ligares nenhuma às minhas cartas, calado que nem um rato, venho só dar-te um conselho. Andas cansado? Com muito trabalho? Sem vontade? Desinspirado? (Ando a inventar palavras agora). Aborrecido? Começa a levantar-te às quatro da manhã e vai dar um mergulho à praia. Aqui funciona. Parece.


