Archive for the 'Cabo Verde' Category

Caro amigo

Não te respondo eu daqui com outro mistério mas é quase um aquilo que Augusto Vaz faz (fica mal… Vaz… faz… mas o homem faz, que hei de eu fazer? oops… escrever?). De folhas de milho faz escravos, de cascas de bananeira peixeiras, de pedaços de árvore tocadores de funaná, de vidros surfistas. Não, não é milagre, é paciência e jeito. Bem haja.

Caro amigo

Se perguntarmos a cada português onde fica Cabo Verde, quantas ilhas tem e qual a capital, quantos achas que conseguem responder? Há dias, num concurso que dá aí e que passa na RTP-África, perguntava-se em que ilha fica a capital, Cidade da Praia. As hipóteses eram três. E os três carolas, que é um concurso de cultura geral, não acertaram. Estou convencido de que se pedires a cada português que diga o nome de um cabo-verdiano conhecido 99 por cento dirá Cesária Évora. Hoje falo-te dela.

Caro amigo

Ainda que na Cidade da Praia, ainda que longe já das eleições guineenses, queria falar-te hoje de Valéria Amato e do seu projecto em Cumura, nos arredores de Bissau. Valéria Amato é freira e tem uma voz doce. Uma voz que, quase acredito, ajuda a curar as pessoas com sida, lepra e tuberculose que a rodeiam.

Caro amigo

Hamadú Candé é das pessoas mais sofridas que conheci até hoje. Não o vi chorar, torcer-se de dor, não o vi gritar ou gemer. Falei com ele à sombra de uma árvore, sentados em cadeiras de plástico, mas nem foi tanto a sua voz que me impressionou. Os olhos de Hamadú espelham o que lhe vai lá dentro, o que sofreu alguém que andou quase ano e meio a rondar a Europa e acabou num restaurante, na estrada do aeroporto de Bissau.

Bissau

Caro amigo

A vida tem destas coisas. Quando tu me imaginas calmamente na Cidade da Praia, entre o mar e as montanhas de Santiago, ao som de mornas e coladeiras, estou na verdade entre balantas e papeis, entre tabankas e toca-toca. Estranhos termos para Cabo Verde mas tão comuns na Guiné-Bissau.

Caro amigo

Falei-te em tempos de uma viagem aterradora, entre vagas e ilhéus, só não te expliquei o que me levou a meter-me num barquinho para ir a uma ilhota deserta, sem sombras e sem comida, onde se dorme no chão e à luz da lua. Pois, digo-te agora, fui ver, com os meus próprios olhos, que as cagarras, umas aves com cara de pombo e pés de pato, este ano puderam ter as suas crias em paz o sossego. Não acontecia há décadas.

Prokofiev

Caro amigo

Está um homem com tudo controlado, a sair de uma reunião no Ministério dos Negócios Estrangeiros, agarrado ao telefone a prometer que em 10 minutos está pronto para levar dois amigos ao aeroporto, e dá-se conta que não tem chaves. Do escritório, do carro e de casa. Deixa os amigos pendurados, trabalho por fazer, e está num corrupio de telefonemas a tentar resolver o problema quando recebe uma intimação: tens uma hora para estares em minha casa, tens de vir cá jantar. Não podes falhar. O podes assim tipo sem direito a recusa. Estás a ver?

Boas bocas

Caro amigo

Há cães assim. Com vidas melhores do que de muitas pessoas. Mas já não direi o mesmo dos que por aqui tenho, a maior parte com um ar lamentável, magro e triste. Tão triste! Acho que os cães da Praia andam tão abatidos que até a vontade de ladrar perderam. Se calhar sorte a deles. Assim nem apetece filar-lhes o dente.

Caro amigo

Há pessoas que gostam de contar histórias. Pode não ser nada de especial mas fixam-se em pormenores, acrescentam aqui e ali uma pitada para dar mais cor e servem-na depois entre risos e devagar, como convém. Há um homem que vive no Calhau, ilha de S. Vicente, que, tenho a certeza, ainda hoje se ri. Dentro de um ano ainda falará do assunto. Foi um amigo dele que o disse. Assim mesmo. “Ele adora histórias, daqui por um ano ainda anda a contar isto, mas nessa altura já lhe acrescentou mais umas coisas”.

Caro amigo

Quando há dois dias estava sentado na sala de espera do aeroporto do Mindelo e chamaram os passageiros para a Cidade da Praia levantei-me de um salto e fui o primeiro a ir para a sala de embarque. Tentava livrar-me da nuvem de moscas que me envolvia e que estava já, escandalosamente, a dar nas vistas.




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